Á Jane

A irrelevância e eu

Nos conhecemos ao acaso, na internet. Não passava de mais um desses relacionamentos moderninhos virtuais. Depois de semanas apenas, como a pressa dos desesperados a irrelevância me chamou pra morar junto, eu sem outras opções aceitei. Aceitei porque minha vida estava um caos e eu queria fugir dela, aceitei porque parecia bom, aceitei porque entre todos os outros caminhos o da irrelevância era melhor. Fomos morar junto, a irrelevância e eu. Parecíamos aqueles casais de propaganda de margarina, tudo perfeito. Só que não. A irrelevância era um tédio não menos diferente do que qualquer outra que passou por minha vida. Todas sempre tão tediosas. A irrelevância era tão tediosa que dei passe livre para ela sair sem mim uma vez na semana. Ela não usava o passe sempre, mas, quando usava eu adorava, me sentia livre sem ela em casa comigo, respirar longe dela era melhor. A irrelevância também me deu um passe. Só que eu não usava como ela queria. Ela pensou está no controle porque meu passe eu nunca usava, nunca queria sair sem ela, eu simplesmente apenas nunca queria sair nem com ela. Usei meus passes praticamente todos os dias depois do trabalho, em almoços, em cafés, em bibliotecas, em risos, em beijos, em abraços, em sexo, em Bruna. Usei todos os meus passes em Bruna. Quando Bruna se tornou irrelevante usei em Ana. E a irrelevância sempre presente, atenciosa, prestativa, carente, me dando nos nervos. Ate que usei um dos meus passes numa passagem de avião com Ana, na praia. Decidi deixar a irrelevância pra trás. Quando voltei pra casa ela estava lá, sorrindo ao me ver, saudades, ela dizia. E eu só queria dizer adeus. Até que finalmente eu disse. Me senti a pessoa mais livre do mundo. Joguei o peso da irrelevância fora. Ela chorou, e parou. Eu apenas sorri, respirei e esperei até sentir irrelevância em outras outra vez.

jopasi
Enviado por jopasi em 15/05/2021
Reeditado em 19/05/2021
Código do texto: T7256454
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