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Entre o Ódio e a Honra



A Verdade traz consigo a força e a soberania que nenhuma outra virtude conseguira até hoje.

 

Há anos não existe véu que separa céu e terra. Doze deuses desceram dos céus a fim de conviver com os humanos, cada qual trazendo consigo uma virtude e uma lástima.

Em meio aos conflitos por territórios e riquezas já travados há décadas pelos humanos, o deus do Ódio, cansado da monotonia e disposto a garantir seu trono no plano terrestre juntou-se aos homens como líder nas batalhas. O deus da Honra, não apenas desconfiado, mas preocupado, observava com atenção os avanços da outra divindade, conquistando poder e território a cada batalha que vencia. Por onde o Ódio passava deixava vestígios de um conflito intenso e muito sangue.

Nenhum outro deus se manifestou ao clamor daqueles que sofriam pelo avanço do Ódio, apenas a Honra. Em meio aos farrapos, lagrimas e escombros juntaram-se aqueles que desejavam a paz e a aceitação, caso a derrota prevista se confirmasse. A Honra, desolada, se pôs à frente de seu simplório exército a espera do conflito iminente.

Frente a frente eu pude ver dois exércitos de humanos tão diferentes entre si que poderia compará-los a Terra e Água. Ódio liderava guerreiros armados, protegidos por armaduras reluzentes, alguns com montarias, em número tão grandioso que dificilmente se poderia contar, já Honra abrira seus braços como quem protegesse seus filhos, pessoas comuns, com pouco a oferecer, mas dispostas a defender aquilo que com tanto suor adquiriram.

A batalha durara tão pouco... um a um os guerreiros de Honra foram caindo, dilacerados de corpo e alma. O último a ser destruído fora o próprio deus golpeado pela claymore mais bela que meus olhos já viram. Com suor e sangue nas mãos seguiu o exército de Ódio e apenas um soldado ali permanecera fazendo ao que parecia ao longe uma prece ao deus morto no chão.

Meus olhos tudo veem, em todo lugar eu estou ainda que não seja invocada ou proferida.

Contrário aos outros e agora em minha direção caminha o soldado, arrastando sua espada, cabeça baixa e corpo lento como quem carrega o mundo em suas costas. Sua armadura tem uma espécie de luz azul um tanto mais clara que o lenço celeste amarrado em seu braço direito.

***

- Seria uma miragem o que estou a ver logo adiante? - Disse o soldado. Sua boca estava seca, sentia todas as suas articulações e músculos doerem, já não sabia ao certo a quanto tempo não se alimentava ou dormia.

A frente do soldado via-se um arvore alta, de copa bastante larga e sombra vasta. Suas raízes à superfície serviam de apoio para uma donzela sentar-se. Ele conseguia ver a feracidade de suas madeixas quase ébano, um corpo esguio vestindo roupas soltas e bastante coloridas... tanto incomum ele admitira. Apoiado em seu colo estava um livro preto cuja capa se parecia com couro animal e uma pena bem longa e atrativa.

Alguns metros à frente um pequeno riacho, com rochas de vários tamanhos que circundavam o local onde parecia ser uma nascente. Aquele recanto e a serenidade daquela mulher que ali estava de fato não condizia com o conflito e o sangue ao redor. Seria mesmo uma visão?

***

Desconfiado ele seguiu, passando pela moça, em direção a água. O ar a sua volta tinha odor de sangue e jasmim. O sangue de Honra tinha esse aroma, a sua lástima, provando que a Honra de fato nunca desacompanha quem a denigre.

O soldado se ajoelha a fim de beber água e não percebe a sorrateira investida da moça.

-Soldado, qual seu nome? - enquanto o soldado tirava o elmo, ela não conteve o encantamento dos olhos ao admirar tanta beleza em traços exóticos, a pele morena, seus olhos castanhos, a pequena cicatriz no canto do rosto e os longos cabelos que tocavam agora a armadura. Seja dito, nunca os olhos de Onira viram tanta beleza em expressões humanas.

-Me chamo Kyanos. Não importunarei com minha presença por muito tempo, se me permite gostaria apenas de beber um pouco d’agua e lavar meu rosto.

-Não disse que atrapalha, tão pouco que importunas... beba o quanto puder se essas águas assim permitirem.

Não se importando com o que ouvira e na urgência de saciar sua sede, juntou suas mãos em formato de concha e as colocou na água. Instantaneamente o que era cristalino se tornou sangue, suas mãos ficaram vermelhas e mesmo sem beber podia sentir o gosto de ferro na boca. Tanto depressa se levantou, empunhado sua espada e a colocando próxima a garganta de Onira.

-Sua bruxa, o que fez com a água?

Sem expressar medo ou qualquer outro sentimento ela afasta a lâmina de seu pescoço com toda a delicadeza e sai em direção as águas.

-Não me ofenda, Kyanos. Não sou bruxa, mas a magia que me acompanha é algo muito mais forte.

Quando os pés de Onira tocaram as águas tudo ao redor se tornou claro, a correnteza se fez mais forte e todo o sangue desapareceu.

-Disse que poderia beber tudo o que ela o permitisse, mas fato é que desta água ainda não se tornara digno.

-porque ela se transformou em sangue quando a toquei? Não havia sangue em mim, apenas fuligem.

-Essa água reflete sua alma. Todo sangue que aqui correu foi sangue inocente derramado por ti. Quando o sangue me sentiu a correnteza trouxe as lagrimas de perdão que recebeu, e tudo enfim se tornou puro. Voltara ser apenas água.

Ele percebeu que não havia sinal qualquer de sangue, nem mesmo em suas mãos.

-Venha, mate sua sede e sente-se, precisamos conversar. Quanto a espada a deixe de lado, não precisará usa-la em mim, ao menos não por hora. Não terei o mesmo destino de Honra afinal não posso morrer... se bem que...

Assim ele o fez, bebeu e refrescou-se, sentou a margem e continuou a admirar Onira, que agora saltitava no riacho como quem estivesse maravilhada com algo.

-Sente no ar este cheiro de Jasmim agora? É meu irmão. Por que fez aquilo com a Honra?

-Ódio me pediu que assim o fizesse.

 As palavras saiam sem sequer raciocinadas, ele não podia segurá-las.

-O que Ódio ofereceu a você?

 Enquanto ele apertava com força o lenço celeste em seu braço, Onira percebeu tristeza em seu olhar. Incomodada ela se aproximou e tomou seu rosto nas mãos.

-Me diga Kyanos, o que Ódio ofereceu a você?

-Há algum tempo não vejo quem mais amo, dela trago comigo este lenço azul. Pensei em pôr fim a minha vida quando deixei de lembrar do som da sua voz todas as noites, de como ela sorria ou me olhava, foi quando Ódio me encontrou. Respirou fundo e continuou: - Ele disse que poderia acabar com as minhas lagrimas se eu entregasse a ele toda a minha dor. Quando aceitei e entreguei a ele recebi esta espada e a missão de destruir a Honra.

As mãos de Onira tocavam carinhosamente aquela face. As palavras por ele não poderiam ser negadas e a expressão que ela via no rosto se tornava cada vez mais triste.

-Não devia ter confiado a ele algo tão importante Kyanos. Ódio carrega com ele a dor dos mortais e se torna mais forte. A alma que não sente ou se arrepende não terá o privilégio das lembranças quando partir. O que me incomoda agora é você não se lembrar dela se ainda vive...como ela se chama?

-Eu me sinto morto há muito. Tereza, ela chama Tereza, e tudo o que mais amava nela era seu sorriso evidente. Era luz.

Comovida com o que ouviu, Onira se afasta e senta no leito do riacho, a água atingia sua cintura, não prejudicando a leveza dos movimentos em seus braços. Sem demora começou a cantarolar uma linda melodia, de amor ou dor, enquanto suas mãos pairavam sobre as águas de maneira doce, foi quando a atenção dele se manteve altiva. No reflexo das águas Kyanos viu o sorriso de Tereza.

A imagem era de um sorriso meigo, como quem se mostrasse envergonhada por algo. Ele também se viu próximo a ela, com sorriso tão belo quanto. A cena mais bela que seu coração guardou.

-Veja Kyanos, a pureza das águas trouxe sua lembrança mais profunda. O sorriso dela é mesmo lindo. Tereza refletia amor assim como essas superfícies refletem você. Sente falta de ter essas memorias ao longo do dia?

-Tanta falta que mal respiro. Eu apenas queria deixar de sentir haja vista que não sei se um dia irei reencontrá-la.

-Entenda que quando se entrega algo a Ódio, ele semeia ódio também em você... mas aquele deus tem sua maior lástima quando eu me manifesto. Quando viu o sangue e as lagrimas seu coração se abriu, seu ódio dissipou. Em minha presença agora, você de peito aberto poderá receber sua dor e tristeza de volta, transformadas em saudade e coragem para seguir, se assim o quiser.

Os olhos marejados de Kyanos continuavam fixos na visão onde Tereza enlaçava o lenço azul em seu pescoço.

-Porque me ofereces algo assim sem sequer me conhecer? Agora, olhando diretamente nos olhos de Onira: - quem é você?

Com sorriso aberto semelhante a Tereza, ela diz:

-Pensei que jamais me perguntaria belo Kyanos, percebe a minha alegria agora? Me chamo Onira, sou aquela que está mesmo quando minha irmã, a mentira, é invocada, acompanho cada um e me alegro sempre que sou escolhida. Eu sou a Verdade.

Ao ver o olhar dele ainda mais perplexo, ela continua.

-Ao ver a batalha de longe não pensei que justamente você me veria em meio a todo o caos, acredito que nem mesmo Ódio pensou assim. Quando fez sua prece diante de Honra a barreira que separava seus olhos de mim foi quebrada. Quando atingiu a Honra a Verdade se mostrou a você como forma de arrependimento. Ódio já não o domina mais, és um soldado livre.

-A verdade? A verdade é que sou uma pessoa ruim. Não mereço a liberdade nem as lembranças de Tereza. Eu a deixei pela guerra.

-Eu me revelei a ti. Todo o mal que fizera foi perdoado por quem recebeu. O sorriso de Tereza é a prova maior de que tudo está bem. Tudo ficará bem.

Onira se levanta e atravessa a imagem na água. Se coloca ao lado de Kyanos e carinhosamente pousa a mão em seu ombro.

-Consegue se perdoar?

Com a cabeça baixa, ele responde:

-Eu destruí a Honra, não posso me perdoar.

O cheiro de jasmim se tornou mais intenso com a força da brisa, inebriante. Uma segunda mão pousa ao ombro de Kyanos, um tanto mais rígida:

-Nossa destruição é momentânea. Assim como se libertou do Ódio teve o poder de me reconstituir, a Honra sempre pode ser restaurada e eu agradeço por tê-lo feito.

Kyanos olha de um lado e vê Onira sorrindo, do outro a expressão de encorajamento em Honra. Onira continua:

-Nenhum de nós se acaba por completo. São as escolhas de vocês que nos tornam oportunos ou não no destino de vocês. Se me permite dizer siga seu coração, não permita que sua disciplina supere suas emoções. O coração deve comandar aquele que ama. Lembre-se, a Honra de fato sempre pode ser restaurada e a verdade estará contigo, ora ou outra, mesmo que não acredite, eu vou aparecer...

Honra e Verdade desapareceram assim como a água e a linda árvore. Kyanos se viu sentado no chão batido e frio em meio ao campo de batalha. Ao levantar e empunhar sua espada, ele seguiu, com o sorriso de Tereza na mente e agora com a Coragem logo atrás...
Córdia
Enviado por Córdia em 27/07/2020
Código do texto: T7018288
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Sobre a autora
Córdia
Astorga - Paraná - Brasil, 28 anos
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