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Lembrança de cheiro (24.03.2017)

Sempre peguei aquele mesmo caminho e nunca nada demais me aconteceu. Não algo digno de ser registrado, nunca... Mas naquele domingo...
Caminhando eu estava pela mesma rua e pela mesma calçada de sempre. A buzina de um carro chamou minha atenção para trás e, quando me dei conta, esbarrei em uma moça bem apressada.
- Meu Deus, me desculpe!
- Tudo bem - foi só o que ela me disse, sem parar de andar. Acho que vi um sorriso em seu rosto relanceado, mas algo um pouco mais concreto ficou... Era um cheiro. Doce, mas não enjoento de quase queimar o nariz, era um cheiro marcante que me envolveu a tal ponto de eu não perceber estar parado na calçada e as pessoas desviando de mim.
Receei me afastar dali e o cheiro desaparecer de perto. Mas, quando o fiz, a marca que ele deixou em mim permaneceu até o dia seguinte. Esperei encontrar a dona dele novamente, com o coração saltante sempre que passava pelo lugar em que ela passou por mim e deixou algo seu comigo... Mesmo sem perceber.
Se ela tivesse percebido, teria voltado para buscar, pensava eu.
E, mesmo não tornando a vê-la, o coração sempre acelerava quando eu passava por ali.
OOO
Um mês depois, recebi a notícia de ter passado na faculdade que eu queria. A recepção dos veteranos para comigo e os outros calouros foi a melhor possível, sem tinta faltando.
Para não sujar minha bicicleta inteira na volta para casa, fui tirar um pouco da tinta de mim, no banheiro. Ao sair, enxugando o rosto, esbarrei em alguma coisa. Melhor dizendo, em alguém.
O estranho foi que a garota caiu nos meus braços, pois tropeçara também na própria chinela, que havia soltado o cabresto.
- Obrigada - ela disse e, entre o instante de ela olhar pra mim e sorrir, reconheci, mesmo com toda a tinta que havia nela, aquele cheiro... Sim, era mesmo aquele cheiro! Quase me derreti com a descoberta e com o sorriso dela. Lembrei que tinha que soltá-la e o fiz.
- Te sujei de tinta de novo, desculpa - ela disse, preocupada.
- Não tem problema, teria sido pior se você tivesse caído no chão.
- Pois é, culpa da chinela que resolveu quebrar.
- Eu conserto - falei e, sem jeito, abaixei-me e peguei sua chinela. Concertei e coloquei-a em seu pé.
- Obrigada... De novo - ela disse, esticando o braço para mim e a mão aberta. - Sou a Ana, se interessar.
- Sou o Joaquim - falei, sem conseguir pensar em mais nada para dizer, mas remoendo o fato de já ter me jogado aos pés dela.
Ela disse que foi legal me conhecer e que a gente ia se ver por aí. Ao se afastar de mim, olhou para trás mais uma vez e sorriu de maneira encabulada ao perceber que eu ainda estava olhando.


Paulia Barreto
Paulia Barreto
Enviado por Paulia Barreto em 30/06/2020
Código do texto: T6992518
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Paulia Barreto
Fortaleza - Ceará - Brasil, 21 anos
48 textos (203 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/07/20 00:38)
Paulia Barreto