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QUANDO A PAIXÃO É DEMAIS
 
     Tinha pouco mais de treze anos, quando me apaixonei pela primeira vez. Se a garota era bonita? Que ninguém duvide. Por isso que, de tão enfeitiçado, eu facilmente me deixei enganar pelas aparências.
     De certas mulheres, melhor guardar distância — já dizia meu avô. O velho sabia das coisas; enquanto que eu, não passava de um garoto bobo.
     A verdade é que todo homem, quando muito jovem, vive no mundo dos sonhos. Conselhos, porém, nunca faltaram. Se algum amigo me lembrava que Maristela — eis o nome da desalmada — era mais velha que eu, outro já me dizia:
     — Tome cuidado, rapaz, que essa garota é fogo na roupa!
    Cego de paixão, eu não escutava conselhos de ninguém. Então, durante uma festa, convidei Maristela pra dançar comigo. Enquanto dançávamos, traído pelos sentimentos, sussurrei nos ouvidos dela não sei que palavras de amor. A criatura olhou-me incrédula e ao mesmo tempo assustada. Depois, caiu num riso frouxo e destemperado, deixando-me completamente sem jeito. E para zombar ainda mais de minha inocência, disparou:
    — Ora, garoto, você nem sequer perdeu a catinga de mijo e já me vem falando dessas coisas. — Acho que você andou bebendo, isso sim!
   Não, eu nunca tinha bebido até aquela noite. Mas, tão grande foi meu desgosto que, entrando no bar do Chicão, quis comprar uma garrafa de cachaça. Ele hesitou por algum tempo, para depois me perguntar:
    — Tão novo e já bebendo?
    — Não é para mim, expliquei. — É para o meu pai.
    — Ah, bom. Se é assim...
   E subindo num banquinho de madeira, Chicão alcançou uma garrafa de cachaça no alto de uma prateleira. Ao receber meu dinheiro, somente me entregou a bebida, sem fazer mais perguntas.
    Saindo dali, dobrei a esquina e sentei-me na beira de uma calçada. Abria a garrafa e de uma só vez tomei um grande gole de cachaça. A bebida desceu queimando minha garganta, e comecei a tossir. Logo que a tosse parou, tomei o segundo gole. E só parei de beber quando o choro veio forte e sem remédio algum. Foi a primeira vez que chorei por uma mulher.
    Ao tentar me levantar, percebi que já não tinha força nas pernas: estava completamente embriagado. Arrastei-me ainda pela calçada e, apoiando-me num latão de lixo, consegui ficar em pé.
     Já de pé, comecei a caminhar. Um pouco mais longe, tropecei numa pedra e caí dentro de uma poça de lama. Ao levantar-me, livrei-me das roupas, que além de encharcadas fediam a coisa podre. Depois, continuei caminhando.
    Cheguei a casa bem tarde. E minha mãe, ao abrir a porta, deparou comigo naquela situação: caindo de bêbado. Muito assustada, ela ainda perguntou:
   — Que é isso, menino? — De onde você está vindo assim, todo sujo e quase nu?
    E eu, sem saber o que dizer, e não achando jeito de justificar meu estado de embriaguez, simplesmente respondi:
    —  Perdão, minha mãe. É que eu acabei de ser expulso do paraíso.
   No dia seguinte, acordei com uma terrível dor de cabeça. E ao lembrar de tudo, a vergonha foi grande. Então prometi a mim mesmo nunca mais botar os olhos em garota alguma.
JOTA SANTIAGO
Enviado por JOTA SANTIAGO em 31/10/2019
Reeditado em 08/11/2019
Código do texto: T6783938
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
JOTA SANTIAGO
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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JOTA SANTIAGO