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Meias Violetas

Estava nua. Olhei-me no espelho. Será que eu deveria ter nascido homem? Cada passo dado, pressentia a minha sombra temerosa, medo que alguém esmagasse, já que aos poucos estavam querendo me comprimir. Às vezes solitária no meu canto, bradava por clemência. Divindades? Para qual divindade recorrer? Todas que estivessem ao meu alcance. As crendices tentavam me animar, não temia os raios dos olhares que ousavam atingir o meu adorável corpo revestido quase sempre de calça jeans, sapatos pretos, meias violetas, camisa de malha com estampas estridentes, cabelos curtos em tons escuros. Quase sempre ouvia alguém sussurrar sobre a minha sexualidade ou sobre a calça jeans.
          Meus pais e meus poucos amigos me amavam. Não tinha dúvida.
          Naquela sexta-feira, ao tomar banho no vestiário da escola, após as aulas de Educação Física, me vi no espelho, um lindo corpo feminino, pensei. Uma colega de sala que corria léguas de mim, olhou-me de soslaio, enxugou-se rapidamente com uma toalha felpuda laranja, deu um sorriso insosso, disse tchau. Ouvi gargalhadas do lado de fora. Que desdita! Adolescentes. Tínhamos todas as mesmas idades, ideias diferentes. Danem-se as flores cor-de-rosa e os sapatinhos de cristal. Mas eu também gosto de flores cor-de-rosa ou dos sapatinhos de cristal.
        Estavam sempre querendo murchar as minhas flores ou quebrar os meus sapatinhos.
        Amanhã irei à festa que vai acontecer na quadra coberta da escola, antes, vou telefonar para minha fada madrinha que é invisível a olho nu, pedirei que me traga uma condução que tenha meninas e meninos animados, quero estar bonita para prestigiar, com o coração pulsando, os formandos. Usarei um sapatinho de cristal, flores rosas nos meus curtos pelos que revestem grande parte da minha cabeça, vestido azul e meias violetas. Estarei bonita. Se perguntarem sobre a minha famigerada calça jeans, a camiseta de estampas ditas esdrúxulas ou o tênis preto surrado, não direi nada, um sorriso, apenas darei um bonito sorriso repleto de honestidade. Não estarei só, levarei a minha namorada.
        Hoje, observando as fotos do baile, datadas de dezembro de 1975, recordo com certa nostalgia.
        Não usei meias violetas, sapatinhos de cristal, nem flores rosas, apenas ao dançar no meio do salão, dei um lindo beijo na boca da minha namorada. A orquestra parou de tocar. Habilmente o diretor da escola solicitou que nos retirássemos do salão. Os colegas formandos intercederam nos defendendo. A orquestra voltou a tocar dando continuidade aos festejos, permanecemos no local, dançando e sorrindo, sem beijos.
       Com a chegada da aurora e término da festa, os adultos foram embora e nós, os adolescentes, fomos andar às margens de um rio que tinha na localidade. Era hábito dos cidadãos daquela pequena cidade fazer isso antes que o Sol se abrisse por inteiro, com pessoas de todas as idades exercitando o corpo, a mente e a alma. Mas naquele dia, fizemos diferente ao caminhar ainda usando as ditas “roupas de festa”. Nesse dia, o Sol brilhou com muita intensidade, olhei a descontração dos meus colegas, então, supus que um respeitável mundo se abria lentamente.
       
Nato Matos
Enviado por Nato Matos em 14/10/2019
Código do texto: T6769784
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Sobre o autor
Nato Matos
Salvador - Bahia - Brasil, 58 anos
10 textos (144 leituras)
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Nato Matos