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HISTORINHA DE AMOR PÓS-M.

Uma vez, muito tempo atrás, alguém se apaixonou pelo trato. A beleza sempre severa cedeu espaço. A ação espontânea – bem verdade, leitor, há tanto tempo – surpreendeu a vizinhança.

Mesmo as inocentes caminhadas à luz das estrelas agora continham plateia, tamanha a estranheza do relacionamento. O carinho, de certo, parecia mesmo inevitável, mas aquilo era fruto de folhetim barato.

Arranhava-se na superfície discussões sobre Bandeira. Ana rechaçava qualquer mínima menção aos tangos argentinos. Julgava existir um glamour juvenil na melancolia. Preferia esparramar-se em Pasárgada.

— Olha aí, cresceu na igreja e agora fica nessa sem sem-vergonhice. – alguém sempre condenava

Os pseudoconhecimentos compartilhados fortaleciam os laços. Coisas como admiração por Hitchcock, astronomia e uma gama de assuntos pop-cults sem nenhuma correlação. "Acho cativante a forma como você sabe pouco de inúmeras coisas." – Ana olhava no fundo dos seus olhos.

— Por que raios está narrando isso para mim?

— Ora, pensei haver apreço por histórias de amor.

— Não... – escolheu cuidadosamente as palavras – Quero dizer, qual a necessidade de recontar a nossa própria trajetória, se eu a conheço de cabo a rabo?

— Você sabe pelo leitor.

Ana demonstrou-se confusa. Pôde-se ouvir suspiros do público.
 
— Quê? – fitou os arredores – Que leitor?  Que público? Enlouqueceu?

Jazia na esperança de tornar-se escritor. Praticamente impossível reconhecer o interlocutor, mesmo em sua sequência numérica.

— Pelo amor de Deus! – a paciência esvaia-se – Está falando de si próprio em terceira pessoa.

— As narrações em terceira pessoa me deixam mais confortável.

Faz-se necessário manter certa distância entre o fato em si e a sua transcrição. E vê, já confundo: não sei mais se sou o autor ou personagem. Menos ainda o tempo desse diálogo. Como se tudo coexistisse. E, mesmo você; tenho dúvidas quanto à realidade objetiva. Parece-me mais um fantasma.

— O que de concreto conhece de mim?

A indagação pairou no ar. Zeros e um’s tomaram todo o ambiente. O ato narrativo transformou-se em tremenda balbúrdia interna. Num único segundo, desapareceu, sobrando apenas a condenação do teclado. Não sabia de histórias de amor sem influência absoluta da ironia. Cativou-se pela ideia. Vaga. Sem corpo nem nada. Coisa de causar espanto.
Lucas Luiz da Silva
Enviado por Lucas Luiz da Silva em 12/10/2019
Código do texto: T6767841
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lucas Luiz da Silva
Guararema - São Paulo - Brasil, 28 anos
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Lucas Luiz da Silva