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Diário de Melissa

- Não quero ser mais um nas suas histórias. - disse Gabriel enquanto afivelava o cinto e saía da minha cama chateado após eu ter confessado minha feia mania de transformar desamores em romances. Olhei para o lado para não encará-lo justamente por saber que meus olhos me entregariam: ele já havia virado uma de minhas histórias. A mais bonita, diga-se. A mais simples e intensa, como todo bom amor. Ele percebeu. Revirou os olhos e me proibiu de continuar escrevendo o que quer que fosse. Como se fosse possível, como se dependesse de mim. De todas as histórias que vivi, dos romances que escrevi, eram deles os meus sorrisos mais sinceros. Me enterrei na cama e me cobri até a cabeça esperando que aquela cena acabasse o quanto antes e que eu não o visse batendo a porta ao sair. Fechei os olhos como se o cobertor não fosse o bastante para me alienar à cena. E como um cego se adapta a ausência de visão, ouvi cada movimento de Gabriel, o ouvi calçando os sapatos e depois procurando a gravata. O ouvi batendo a canela na quina da cama como já tinha se tornado rotina e o ouvi sentar na cama, tirar o cobertor de cima de mim e me dar um beijo na testa. Abri os olhos, finalmente. O vi sorrindo e não entendi. Depois se deitou ao meu lado sem o receio que sempre tinha de amassar a roupa antes de chegar no escritório. Me revistou com o olhar de um modo tão doce que quase me senti envergonhada por ver meu reflexo no caramelo dos seus olhos. Ele trouxe pra mim o que eu mais podia querer e jamais ousei esperar: compreensão. Não me senti a escritora amargurada louca que sempre me faziam achar que eu era. Alguém me entendia, eu soube e sorri. Me beijou de novo, dessa vez na boca, sorriu.
- Mas é sério, não quero que escreva sobre mim.
Consenti.
Ele saiu sem bater a porta e não levou a meia dúzia de mudas de roupas que havia trazido pra minha casa. Não ia embora, não hoje, não por isso. Suspirei e dormi.
Acordei com o barulho de um terremoto ou briga feia no corredor do meu andar. Não era nada disso, embora eu preferisse que fosse os dois juntos para não ter de encarar a realidade. Abri a porta com tanta curiosidade que nem reparei que estava só de calcinha e uma camiseta surrada. Algo colidiu contra mim numa força que me derrubou. Rafael. Tinha se preparado para arrombar minha porta bem quando eu a abri, fazendo com que caísse em cima de mim. Meus olhos, neste caso, foram mais lerdos. Senti seu cheiro antes de olhar para quem estava sobre mim.
- Precisamos conversar. - Disse se endireitando e estendendo a mão para me ajudar a levantar.
- A propósito, eu lhe perdoo por ter acabado de tentar me matar. - disse realmente indignada.
Ele deu um sorriso de lado e um olhar de coitado, como sempre fazia propositalmente para me amolecer. Não funcionou. Ok, funcionou. Mas lutei contra todos os espasmos encantados que pude suportar para que não demonstrasse estar caidinha por ele outra vez.
- É estranho entrar aqui e não me sentir em casa.
- O que veio fazer?
- Vim ver o que você escreveu.
- Escrevo muitas coisas. Escrevo o tempo todo.
- Vim ver o que você escreveu sobre mim, sobre nós dois. - corrigiu-se.
- É como todas as outras. Só o começo é diferente. Às vezes nem isso. Pra quê você quer ler uma história se já sabe o final?
- Pra ver se o final está certo.
- Você escolheu o final. - respondi seca.
Fui até o computador da minha biblioteca, meu pequeno pedaço de paraíso, onde eu passo a maior parte do meu tempo, onde estou agora. O liguei, cliquei no arquivo "Rafael", imprimi. Observei folha por folha sendo impressa como se visse meu próprio assassino esfaqueando meu peito. Foram 363 facadas. Coloquei numa pasta e dei a ele.
- Não achei que fosse tão fácil.
- A história também é sua.
- A camisa que você está usando também é.
Olhei meu estado. Descabelada, talvez com bafo matinal. Com uma camisa de uma banda irlandesa que era a favorita de Rafael. A usei por tantas vezes que já tinha despersonificado Rafael da imagem da camisa. Sem falsos pudores, a tirei e devolvi ao dono sem olhá-lo.
- Você não precisa me devolver. - disse surpreso.
- Se preferir, eu lavo e mando te entregarem depois.
- Não quero.
- Eu jogo no lixo?
- Não.
- Mas eu também não quero.
- Fica com ela.
- Mas pra quê?
- Ela fica linda em você.
Estendeu a mão que segurava a blusa em minha direção. Eu não peguei. Ele se aproximou, e a vestiu em mim.
- Sempre birrenta, né?
Continuei calada. O levei até a porta e ele entendeu prontamente. Foi embora.
Não voltei a dormir depois nem escrevi, o que normalmente faço, nem que seja poemas a vulsos ou alguma história maior. Tomei banho pensando em ir ver minha mãe, mas acabei optando por não ir. Li um livro qualquer tentando me perder em histórias alheias e me livrar das minhas que são tão problemáticas. Pensei em reescrever o fim da história de Rafael, mas colocaria o que? Pensei em adicionar este capítulo da "visita do ex" na história de Gabriel, mas para quê? Embora eu estivesse louca para eternizar essse episódio nas páginas de um livro, era tão sem significado que não valeria a pena colocar em nenhum, muito menos tinha espaço onde ser colocado. Quando Gabriel chegou, pedimos comida e jantamos vendo TV. Ele me perguntou o que eu tinha feito e começamos a ter uma dessas conversas cotidianas de casal. Meu corpo não se incendiou de prazer naquela noite, como sempre acontecia com ele. Ele não mencionou o meu problema crônico de escrever sobre os homens da minha vida. Ele nem sequer parecia se lembrar. Aquilo me incomodou de uma maneira que eu não entendi como. Era o que eu queria, era exatamente o que eu achava que queria, mas percebi que não era tão bom assim. A indiferença dele fez abrir um vazio dentro do meu peito. No meu ponto de vista, aquela era a minha principal característica e Gabriel simplesmente a tinha ignorado. Não sei exatamente o quanto isso soou egoísta e ingrato, mas enfim. Estava deitada ao lado dele quando a lembrança nítida do cheiro de Rafael invadiu minha mente, meus pulmões. Me odiei com toda força que pude, afinal, qual era o meu problema? Pensar no Rafael logo agora pra quê? Estava bem com Gabriel, ele não foi o ogro que Rafael foi ao saber do meu desvio ético em prol da literatura. Gabriel me abraçou enquanto dormia e eu fiquei ali, tentando me sentir segura em seus braços como antes daquela tarde em que o terremoto Rafael entrou na minha casa de novo. Na minha vida.
Passaram-se três semanas, mais ou menos, em que eu não escrevi absolutamente uma linha sequer. E mesmo se quisesse e estivesse em condições, não haveria o que escrever. Era sempre a mesma coisa, a mesma rotina, acordar pra me despedir de Gabriel que ia ao trabalho e ficava lá até boca da noite e eu lia alguma coisa, ou preparava alguma coisa pra jantar - que sempre era uma péssima ideia, Gabriel voltava depois de ter passado no próprio apartamento, no prédio ao lado, pra trazer a muda de roupa que usaria para trabalhar no dia seguinte.
Conheci Gabriel na fila do caixa na padaria que fica na rua onde moro. Era cedo demais pra alguém estar de terno e gravata, mas era assim que Gabriel se encontrava. Impecavelmente lindo, vestido pra trabalhar. Seu cabelo negro estava penteado seriamente para trás e eu só conseguia pensar na vontade espásmica de bagunçá-lo todo, virá-lo do avesso ali mesmo ou na minha cama. Ele olhou pra mim e me cumprimentou respeitosamente com um aceno de cabeça, embora não me conhecesse. Eu sorri em retorno e lembrei que ainda estava de pijama. E pior, um pijama rosa com ursinhos que minha avó havia me dado antes de ir pra faculdade e que eu só usava quando não tinha nada mais limpo e/ou passado pra vestir. Nem tinha dormido ainda e fui comprar mais café e salgadinhos. Olhei pro que Gabriel tinha em mãos: pão integral, presunto de peru, uma caixa de leite desnatado e margarina light. "Meu Deus, ele é gay", conclui triste. Como se eu tivesse falado em voz alta, Gabriel olhou pra mim e disse "bonito pijama", o que me fez corar e dizer um obrigada sem jeito. Ele sorriu. E como o sorriso dele era lindo. "Por nada", respondeu, "Minha cueca é do Bob Esponja", cochichou baixinho quando viu que eu tinha ficado constrangida. Eu sorri pra cara de cumplice que ele fez ao falar aquilo. Chegou a vez dele e ele a cedeu pra mim, eu não aceitei, mas ele insistiu. Fiz questão de esperá-lo passar o dele também para poder ir embora. Fomos andando juntos sem perceber e começamos a conversar até eu entrar no condomínio e me tocar que ele também havia entrado cumprimentando o porteiro como "Seu Juvenal". Morava lá também, mas em outro prédio. Conversamos até eu chegar ao meu que era o que mais ficava perto da guarita e ele me convidou pra sair. Fiquei sem jeito, mas aceitei. Estava terminando o livro de Rafael ainda, depois de dois ou três meses que ele havia batido a porta pra nunca mais voltar (até aquela fatídica tarde já mencionada). Bem, o que poderia acontecer? Se tudo desse errado, talvez Gabriel se tornasse, sei lá, meu melhor amigo gay. Saímos aquela noite e na seguinte e na próxima até que eu finalmente percebi que meu gaydar precisava de uns ajustes sérios e que ele não só não era gay como estava interessado em mim. E eu já estava perdidamente interessada nele. Não demoraram duas semanas pra que meu desejo inicial de bagunçar aquele cabelo e voltasse a fazer isso todas as noites. As semanas se transformaram em meses e depois de tantas horas escrevendo nossas desventuras, Gabriel resolveu me perguntar qual era o meu projeto atual. Eu estava feliz com ele. Eu era decididamente feliz com ele. Eu estava bem, plena, feliz.
Rafael era o extremo oposto. Enquanto Gabriel era o certinho que cuidava de mim, que às 7h da manhã já estava impecável com seu terno e gravata e cabelo engomado, Rafael usava o quase uniforme camiseta preta de banda, jeans surrado e tênis ou bota, o que a temperatura do dia achasse mais apropriado. Conheci Rafael quando quase o atropelei na saída da festa de universário do vocalista da banda do meu primo, que por sinal, era produzida por ele. Quando freiei o carro em cima dele, Rafael gritou todos os impropérios para mim que eu tive de sair do carro pra revidar. Um mais bêbado que o outro, começamos a nos beijar lá mesmo e eu esqueci totalmente o romance chamado Lucas que me aguardava em casa para finalizar. Fomos pra casa dele e lá fiquei a semana toda sem lembrar de resto algum. Namoramos durante três anos com todas as brigas e reconciliações calorosas dignas de um livro agitado até que Rafael me revelou a música que escreveu sobre mim depois de uma festa que demos em minha casa. Ele pegou o violão e cantou de um modo tão doce que eu não podia ver hora melhor para contar a ele que ele também me inspirava. Ao contrario da arte dele, a minha não foi recepcionada com admiração. Ele saiu batendo a porta, só levando o violão.
Até revê-lo, até sentir seu cheiro em cima de mim novamente, ainda não tinha me tomado conta do quanto eu sentia falta daquele namoro agitado, daquele sexo maluco, aquelas conversas sobre música, política e cerveja que fforam substituídas pelas conversas sobre filosofia e história de Gabriel.
Foram longas semanas aquelas que Rafael não aparecia novamente fazendo motim no corredor. Não o fez nunca mais, isso é fato. Quando apareceu, eu estava tão atenta à porta que quase a abri antes que ele batesse. Era uma terça-feira e Gabriel tinha saído não havia muito tempo e foi engraçado de ver que tanto eu quanto Rafael já estávamos acordados tão cedo.
- Eu esperei o coxinha sair pra vir, achei que você ainda estivesse dormindo.
- Não consigo dormir direito faz um tempo.
- Nem me fale, eu não durmo quase nada, passei esses dias lendo.
- Ah.
O silêncio o convidou a entrar e ocupar o sofá. Sentei na poltrona ao lado, com um livro na mão. Ele estava com o "livro" que lhe dei.
- Não acredito que você ainda guarda essa coisa feia. - ele disse referindo-se ao presente que a mãe dele havia me dado no primeiro aniversário que fiz enquanto namorávamos. Era uma escultura de uma mulher gordíssima com peitos caídos. Horrorosamente interessante. Sorri sem jeito. - Vim pra te devolver isso. - e estendeu a resma.
- Não precisa, eu tenho o arquivo aqui.
- Não esse. Fica.
Peguei e coloquei no colo. Ele se levantou e eu achei por um instante que ele fosse embora, quase gritei um "por favor, não", mas ele estava entalado na minha garganta. Ele se aproximou e abriu na última página, ainda mantendo a resma em meu colo.
Rabiscado embaixo do "fim" (que estava devidamente riscado), havia escrito "e ele percebeu o quanto foi idiota, se desculpou. Ela não aceitou de primeira, mas ambos sempre souberam que nasceram um pro outro e, de um jeito ou de outro, mais cedo ou mais tarde, eles vão se reencontrar para serem felizes pra sempre."
Olhei-o nos olhos e vi a fragilidade de menino que nunca havia visto nele antes. Com os olhos marejados e o coração partido disse que era melhor ele ir embora e ele foi.
Quando Gabriel chegou do trabalho, suas roupas estavam arrumadas para que ele as levasse de volta e nunca mais trouxesse nada. Antes que ele pudesse reagir, contei a ele que não ia conseguir continuar. Não falei de ambas as visitas de Rafael, só o quanto ter estado com ele nos últimos meses havia me feito bem. Agradeci e continuamos nossas vidas. Gabriel não fazia o tipo de implorar por nada.. Aceitou resignadamente, com a postura que lhe é característica. Me deu um beijo na testa e foi embora enquanto eu escrevia "fim" no final do arquivo que levava seu nome.
Acabei de queimar a língua com chocolate quente. Pensei em pegar o telefone e ligar pro Rafael, mas achei melhor vir apagar todos os arquivos dessa pasta louca, cheia de amores e desamores antes que minha cabeça exploda. Resolvi ficar um tempo comigo, com meus pensamentos, meus sentimentos. Dessa vez sem pressa, sem procurar novos amores, novos romances. Ninguém mais vai virar uma de minhas histórias. E o Rafael, bem, mais cedo ou mais tarde a gente se reencontra.
A B Queiroz
Enviado por A B Queiroz em 07/01/2013
Código do texto: T4071950
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
A B Queiroz
Manaus - Amazonas - Brasil, 26 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/19 11:51)
A B Queiroz