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A Velha Novidade

Quando chega o verão, é sempre a mesma coisa. Mariana e Guilherme chegam da aula e vão para a piscina comemorar o início das férias. Guilherme, mesmo sendo dois anos mais velho que a irmã, estava na mesma série que ela e estudavam juntos desde que o garoto, por imaturidade e irresponsabilidade repetiu duas vezes a mesa série. Mariana, entretanto, era sempre a melhor da turma, decidida, inteligente e estudiosa, mas não dispensava uma boa diversão no seu tempo livre. Era esperta e doce e tinha o costume de nunca perder uma discussão.
Aquele verão de 2001 era bem diferente dos demais. Guilherme, agora com 19 anos, finalmente estava se formando no Ensino Médio - e para surpresa da família, com méritos acadêmicos, trabalhava na empresa do pai e parecia ter criado juízo. Se alguém pudesse ler seus pensamentos, diria com toda a certeza que o amor muda as pessoas.
Mesmo estando uma pilha de nervos para escrever o discurso que ia falar na formatura como oradora, Mariana resolveu não quebrar o hábito de curtir a tarde que sucedeu seu último dia de aula. Os dois, com o passar do tempo, criaram uma cumplicidade surpreendente. Passaram tanto tempo juntos, em casa, nas aulas, nas festas. Tornaram-se melhores amigos assim que a fase de implicâncias infantis deixou de reinar entre os dois.
Guilherme também estava um pouco atormentado. A garotinha que ele puxava a trança, grudava chiclete no cabelo enquanto dormia, escondia as bonecas e chupetas, tinha se tornado uma bela moça e ele não conseguia mais suportar o segredo que tão precocemente foi posto sob sua responsabilidade. Se sentia um egoísta por pensar no que estava pensando nos últimos meses. Queria pensar numa solução alternativa para tentar ser feliz sem desestruturar sua família, queria arrumar um jeito sereno e alegre para resolver seus problemas.
Naquele verão de 2001, depois de deixar de lado inúmeras folhas de rascunho do discurso, Mariana vestiu seu biquini favorito, o preto com detalhes dourados, foi ao quarto do irmão chamá-lo para ir curtir a tarde com ela, como mandava a tradição.
- O que você ainda está fazendo com esse uniforme? Vai vestir sua bermuda, vamos comemorar. - Disse da porta do quarto, quando viu que o irmão ainda estava deitado com o uniforme da escola.
Guilherme se enterrou ainda mais na cama e murmurou um "vou depois" enquanto pensava em quanto tempo mais ele conseguiria aguentar.
Mariana não era sua irmã. Fora adotada ainda recém-nascida quando Dona Margarida, mãe de Guilherme, perdeu sua filha ainda no parto. Tanto os pais de Guilherme, quanto ele mesmo, nunca deixaram que Mariana soubesse  que não era biologicamente da família, só conversavam sobre isso muito raramente quando estavam sozinhos na sala de jantar e receavam que a garota não os perdoasse se soubesse que tinha sido privada de tal informação.
Os anos haviam passado e o inesperado aconteceu. Guilherme, depois de tanto tempo, se pegou pensando em Mariana não como um irmão ou um melhor amigo deveria pensar. Ele descobriu que era capaz de fechar os olhos e imaginar a forma como ela estalava os dedos quando estava ansiosa, ou no jeito em que coçava a sobrancelha esquerda quando queria disfarçar a vergonha e o sorriso contido que fazia sempre que ele falava alguma besteira em um momento inapropriado.
Guilherme estava irremediavelmente apaixonado por Mariana.
O rapaz sabia que, a menos que a garota soubesse que não eram irmão, aquele amor era uma loucura completa e sem futuro algum. Mas não podia simplesmente tirar o chão da garota só para ter uma chance com ela. Não podia dizer para ela que toda a sua verdade era uma farsa, que seus pais não eram seus pais de fato, que ele não era seu irmão. Não seria justo.
Especificadamente naquele verão de 2001, na tarde posterior ao seu último dia escolar, Guilherme não foi fazer companhia a sua irmã. Esperou seus pais chegarem para o jantar e pedir para falar com eles após a refeição. Dona Margarida e Seu Alfredo ouviram, de queixos caídos, o filho contar que estava apaixonado pela irmã adotiva. Passado o susto, Seu Alfredo rompeu o silêncio incômodo que havia se formado depois do relato do rapaz na sala de jantar.
- Bem, faça o que for necessário para que ambos sejam felizes.
- Mas Alfredo... - Dona Margarida pareceu indignada. - Eles são IRMÃOS!
- E assim foram criados a vida toda: como irmãos. E impediu nosso filho de se apaixonar por Mariana? Não. Tente entender, mulher, que certas coisas são para ser. E Guilherme - dirigindo-se agora ao rapaz -, que isso não seja só mais um capricho seu.
Dona Margarida jamais aguentava ficar calada quando a confrontavam, mas naquele dia, simplesmente olhou para o filho e desabou-se a chorar em seu ombro, num abraço de culpa.
- Agora vem o mais difícil - disse Guilherme ao lembrar-se da conversa que o aguardava. Foi até a cozinha e tomou muita água, como se isso fosse conter o nervosismo dele. Subiu as escadas e dirigiu-se ao quarto de Mariana. Bateu na porta, ouviu-a falar que ele poderia entrar. Entrou. Ela estava com seu gato ronronando no colo e ele se sentou na beira da cama. Chegou um pouco mais perto e arriscou-se a fazer carinho no gato, que logo pulou para o chão. Olhou nos olhos de Mariana, sem saber bem por onde começar.
- Nós não somos irmãos - falou quase sem se dar conta do que falava, fazendo a garota arquear as sobrancelhas - Eu... Eu fui adotado - mentiu - Pergunte ao papai e à mamãe, se quiser. Eu não sou seu irmão. .. E eu te amo. - acrescentou.
O garoto não esperou resposta. Viu o rosto inexpressivo de Mariana e foi para seu quarto. Ficou se perguntando por horas se ela tinha entendido o que implicava o "eu te amo" dele, no quão idiota pareceu ter sido, se foi direto demais, se ela estava confusa ou sofrendo agora. Acabou dormindo cheio de dúvidas não respondidas.
Acordou sentindo uma bola de pelos vibrando em seus pés. O gato de Mariana que nunca entrara em seu quarto sem a dona antes. Guilherme virou-se e a viu olhando para uma prateleira que tinham três portas-retratos - todos com fotos dos dois, uma foto deles de quando eram crianças, uma quando eles dançaram num festival da escola juntos e uma da última viagem que tinham feito.
- Bom dia! - soltou Mariana quase displicentemente.
- Bom dia! - respondeu confuso.
- Já passamos tantas coisas juntos que eu não tenho nenhuma lembrança boa que não envolva você. - se virou para olhá-lo nos olhos e entraram numa longa conversa silenciosa. - Muitas coisas fazem sentido agora.
Guilherme se sentou na cama e o gato se ajeitou de modo a ficar em seu colo. Não conseguia pensar em nada inteligente para falar. Mariana estalou os dedos enquanto se aproximou para sentar-se ao seu lado na cama.
- Eu também te amo. - Mariana sussurrou tão baixo que se Guilherme estivesse só um pouco mais longe, não teria escutado.
O gato pulou do colo de Guilherme e este abraçou Mariana.
- Preciso escovar os dentes. - falou em seu ouvido. A garota riu, o soltou e o observou correr em direção ao banheiro. Levantou-se e foi para o seu quarto.

Ainda naquele verão de 2001, Guilherme e Mariana começaram a namorar. E dez verões se passaram sem ter um em que não tenham passado juntos. No verão de 2007, a tradição e passarem o primeiro dia de verão juntos mudou de cenário - agora eles passariam na nova casa, para onde se mudaram após o casamento. Guilherme nunca soube o velho hábito de Mariana de sempre escutar a conversa que os pais tinham na sala de jantar do penúltimo degrau da escada.
A B Queiroz
Enviado por A B Queiroz em 29/06/2012
Reeditado em 29/06/2012
Código do texto: T3750636

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Sobre a autora
A B Queiroz
Manaus - Amazonas - Brasil, 26 anos
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A B Queiroz