O Defunto e o Presidente
O caixão era azul. Não, era roxo – essa minha confusão com as cores – bem, isso não importa, o que importa é que já exalava um mau cheiro de dentro dele. Algumas pessoas que estavam próximas, cochichavam:
– O cadáver já fede! Isso é um absurdo!
Mas a viúva, chorosa, não arredava o pé:
– Só enterro quando o Presidente chegar!
Já era o terceiro dia, entrava gente e saía gente, à noite já ninguém velava o morto. Eis que surge um vereador. Quis contornar a situação:
– Bem... eu sou o Presidente da Câmara.
A viúva chorava mais ainda e dizia:
– Foi desejo dele, “só me enterre depois que o Presidente da República chegar”, não vou descumprir.
A situação já despertava o interesse das pessoas de municípios das redondezas, mas a situação não mudava. Durante o dia muita gente frequentava a casa; uma dezena de beatas rezavam pela alma do finado. Até o padre foi interceder para que o defunto fosse enterrado:
– Bem senhora, quis Deus que o seu marido se fosse, agora sua alma está em seu poder. Esta sua matéria de mais nada serve. Temos que enterrar o corpo, pois ao pó deve voltar.
Junto com ele, o Prefeito, o Juiz da Comarca, enfim todas as autoridades do município. Mas em vão, a viúva continuava firme:
– Só enterro quando o Presidente chegar!
Foi quando alguém sugeriu:
– Seu prefeito, não dá pra falar com o Deputado, aí ele fala com o Governador, que fala com o Presidente, então ele vem.
Mas os presentes não aprovaram:
– Você é louco, tá vendo que o Presidente não vai deixar os tantos problemas da nação, pra se preocupar com um capricho de um defunto “que nem vota mais”.
Outro insistiu:
– Ô seu Delegado e se a gente enterrasse o “home” a força?
O Delegado ponderou:
– Não meu amigo, não é o caso, a viúva ficaria muito mais desolada.
As sugestões se multiplicavam e a viúva continuava incólume:
– Só quando o Presidente chegar!
Minutos depois, chega o carteiro:
– Telegrama!
Alguém recebe, abre rapidamente e fala:
– É de Brasília. Ih! É do Presidente e diz “DEVIDO COMPROMISSOS IMPOSTERGÁVEIS NÃO PODEREI ESTAR PRESENTE AO FÉRETRO, INDICO ENTÃO MEU CORRELIGIONÁRIO, O PREFEITO, PARA ME REPRESENTAR PT SAUDAÇÕES”
Todos aplaudem fortemente. A casa já estava cheia, não cabia mais ninguém. O líder (o mesmo que leu o telegrama), sempre aparece um líder nesses momentos, se dirige a viúva e diz:
– Tá vendo, é impossível a presença do Presidente, mas o Prefeito tá aí. Vamos enterrar o finado?
A viúva cai em prantos e soluçando retruca:
– Só se ele consentir.
– Ele quem?
Pergunta o líder.
– Sebastião (o morto) é claro! Quem haveria de ser?
Os presentes cochicham entre si:
– A mulher tá louca, a morte do marido mexeu com os miolos da pobre.
Mas alguém ... há sempre alguém que se mete a psicólogo:
– Não é bom contrariá-la, pode piorar o seu estado.
E levam a mulher até o caixão. Então ela diz:
– Sebastião, o Presidente escreveu ...
Todos prestam muita atenção as palavras da mulher.
– ... diz que não pode vir e que o Prefeito pode representá-lo. Que é que tu acha?
O “defunto” então se levanta e diz:
– Sem o Presidente eu não me enterro!
Foi aquela correria, ainda hoje tem gente que corre. Quando a casa esvaziou e não demorou, os dois soltaram a maior gargalhada, pois a farsa fora bem-sucedida, mas se apressaram logo em deixar a cidade, pois não seriam bem tratados se continuassem lá.