O caso do Ludovico do Barco

O caso do Ludovico do Barco

Jajá de Guaraciaba

Não sei se Barco era apelido ou sobrenome do Ludovico; só sei que não vou deixar para dizer no final que esta obra de ficção é pura realidade. Tomei conhecimento deste causo assim que cheguei de morada a esta cidade. Tratava-se de um homem franzino; pequeno no tamanho mas grande de caráter; matuto, porém não era bobo. Diziam, as línguas-afiadas, que depois que ele saía para roça com a enxada às costas um vizinho chegava com flores à mão. Flores perigosas que um dia poderiam ter serventia e de fato tiveram. Mas isto vamos deixar para contar no fim da história. Tal sitiante, morador duma gleba vizinha, bulia sempre com a mulher do Ludovico. Era jovem, sarado e lindo. Bonito até no nome, mas este ninguém precisa saber pois isto não vem ao caso.

O Don Juan de botinas e emoções ansiosas ficava à espreita como uma onça ávida pela caça. Até que um dia conseguiu pôr as patas afiadas nas ancas volumosas da gazela. Também pudera, que mulher resistiria rosas vermelhas e olhares verdes e penetrantes mesmo vindo dum roceiro?! Ludovico do Barco estranhou a mudança de comportamento da esposa, pois, estava sendo tratado com mais atenção e carinho do que o habitual e quando a esmola é muita...

A garrucha de dois canos, que estava quase enferrujada pelo abandono, voltou a ser alvo de atenção do Ludovico do Barco que, longe das vistas da mulher, deu uma boa limpada nela e substituiu os cartuchos. Ele ficou ruminando duplas e fúnebres ideias por algum tempo, porém, como idolatrava a mulher decidiu primeiro conversar com ela a respeito do assunto. Ela disse que estava sendo molestada com pretensões insistentes, mas que nunca cedera aos olhares libidinosos do bonitão — o que se sabe que não era verdade.

Num clima tenso, armaram uma arapuca para flagrar o femeeiro: a mulher foi para a alcova e Ludovico do Barco saiu como de costume em direção à roça; voltou momentos depois com a arma na mão e ficou espiando a entrada da casa por detrás duma moita de capim alto. Quando o conquistador se aproximou da porta da sala, Ludovico adentrou pela cozinha e topou com o desafeto no corredor já próximo do quarto dos prazeres proibidos... e permitidos. Não houve conversa; apenas súplicas que não foram atendidas. O garanhão caiu com dois balaços entre os olhos que agora não eram tão verdes assim.

Ludovico do Barco desconfiou, mas nunca ficara sabendo se de fato aquelas flores sobre o caixão fora o próprio defunto que as trouxera. O Tribunal do Júri entendeu que o réu agira em legítima defesa da honra e o inocentou. A esposa do nosso personagem, corroída pelo remorso e arrependida pela atitude, dedicou a vida de corpo e alma ao marido enquanto viveram.