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Só dei cabeçada com o CABEÇA DE CUIA !
 
 
Não sou muito criativo e meus causos sempre começam assim: “Quando era estudante...". Esse, não será diferente. Vou contá-lo “tim-tim por tim-tim”.

Bom, vamos à narrativa... era estudante secundarista, no tradicional Colégio São Francisco de Assis (Teresina). Dedicava-me mais aos esportes do que a sala de aula. 

Nessa época, cheguei à seleção piauiense de salão, que disputaria os Jogos Esportivos Brasileiros – JEB'S, em Porto Alegre (RS).

Por conta de um torneio preparatório, em Fortaleza (CE), perdi provas bimestrais de várias disciplinas: Matemática, OSPB, Educação Moral e Cívica, Física Geral, Eletricidade, Química Geral, Química Orgânica, Português, Redação, Literatura Piauiense, Biologia e Artes.

Tinha notas boas, embora não estivesse em meus melhores momentos como aluno. Assim, continuei com médias aprovativas, em quase todas... à exceção de Artes. Logo a disciplina que a professora era mais chata. Inclusive, já ameaçara me reprovar, por certo alheamento nas suas aulas.

Nos aproximávamos dos JEB'S e nada de me recuperar na "abençoada" disciplina. Como estava na “pendura”, pairava sobre a cabeça não viajar. Suava frio, ao pensar naquela possibilidade... cada dia mais concreta.

O tempo passava, o desespero aumentava. Mas... aconteceu algo que me renovou esperanças: o aniversário do Colégio São Francisco de Assis.

Era tradição naquele educandário, as aulas serem suspensas: uma semana intensa de atividades esportivas e culturais, com densa programação. Eu não poderia perder a oportunidade!

Eis que, numa aula de Literatura Piauiense, conheci a “Lenda do Cabeça de Cuia”. E adorei. Fiz pequeno texto sobre aquela narrativa tão inverossímel.

E, foi espontâneo... indagados pela professora de Artes se iríamos fazer algo no Aniversário do Colégio, imediatamente, propus: “Vamos apresentar uma peça sobre o Cabeça de Cuia”.

Estava, ali, a oportunidade de finalmente recuperar a nota bimestral. Vi os olhos da megera brilharem. Meu coração bateu descompassado. “Era a oportunidade de domar a fera!”.

Marcamos encontro, na sala dos professores, para o dia seguinte. Infelizmente não deu certo, por motivos alheios a minha vontade... cheguei hora e meia atrasado. Ela já tinha outro compromisso.

Na segunda tentativa, foi (quase) do mesmo jeito. Com um agravante: ficou “puta da vida” e deixou recado desaforado. Melhor nem revelar o teor...

O tempo foi passando e eu tentando... até finalmente conseguir novo agendamento. Dessa vez, cheguei cedo: “Gato escaldado tem medo de água fresca”, disse a mim mesmo. 

Fui temeroso com a receptividade... Era o jeito. Mostrei-lhe a redação de minha autoria. Ela leu com olhar zombeteiro. Disse-me, apenas: “Faltam as falas dos personagens!”.

“E tem isso?... Pensei que bastava o texto!”. Ali, caiu a ficha. Senti que não era tão simples, quanto pensara. Bateu-me um desânimo. Quis desistir. Como iria criar falas? Era melhor outro tipo de participação no evento. Propus um musical, com violão e mais alguns instrumentos de corda.

Ela cortou na hora. “Meu jovem tem que ser o Cabeça de Cuia... tá na programação, se vire AGORA!”.

Sai tiririca... Nunca tinha escrito nada, além de algumas poucas redações escolares e uns versinhos do tipo “engana-namorada”. Desestimulado, disse a mim mesmo: “Adeus  JEB’S”.

Sem convicção, fui à biblioteca. Li alguns textos sobre a lenda (na época não havia o Google). Identifiquei os personagens e criei falas, para cada cenário imaginado. Isso... num tempo curtíssimo. Até achei que tinha algum fundamento. Faltava consultar a "antipática".

Corri ao seu encontro. Encontrei-a no corredor. Em algumas folhas amassadas, rapidamente lhe mostrei as falas de cada personagem. A letrinha de médico criava dificuldade para compreensão. Assim, fiquei me martirizando (tempo todo), por não passar a limpo.

E, para minha surpresa, a "bruxa" disse algo que jamais esquecerei: “quando você quer algo, tiro meu chapéu e luvas... vá em frente garoto!”.

Uaauuu... Agora, só faltava encontrar colegas que me ajudassem na dramatização. Bom... eu era o maior interessado. Aliás, ÚNICO! Tinha que conseguir. Não restava outra opção.

As tratativas não foram tão simples. Coloquei discos de vinil nas negociações e outras “bugingangas”... nem lembro mais. Enfim, consegui 01 rapaz e 02 moças. O time estava completo...

Fiquei com Crispim, personagem principal (o próprio Cabeça de Cuia)... Era de longe, as maiores falas. Não que quisesse ser o destaque... pelo contrário. Não tinha na época e não tenho hoje, qualquer talento para representar. FUI OBRIGADO!

Treinamos pouquíssimas vezes. Como ninguém dominava as falas (eu principalmente!), decidimos fazer algo diferente para uma apresentação teatral... mesmo feita por amadores sem talento: "todos representariam os personagens, com os textos em mãos".

E, assim foi. Quando dei por mim, estávamos no auditório lotado. A peça “Crispim e sua Cabeça de Cuia” era a grande sensação da programação.

Fui o diretor, o roteirista, o coreógrafo, o cenarista e o ator principal... Até a "Cabeça de Cuia", construí com papelão laminado e cartolina. Nunca tinha feito nada parecido!

Resumo do teatro... ao término da apresentação, o eminente diretor do colégio, professor Roberto Freitas (intelectual, escritor, ex-seminarista... amigo de meu pai), agradeceu a todos pelo sucesso do evento.

Rindo convulsivamente, concluiu: “Conhecia a lenda do Cabeça de Cuia, como um DRAMA e não uma COMÉDIA... também não sabia que Crispim era gago e tremia dos pés à cabeça!”.

Um gaiato gritou da platéia: "E a Cabeça de Cuia tá parecendo uma melancia quebrada... PAVOROSA!"

Bom... consegui viajar para Porto Alegre e disputar os JEB'S... Viagem duríssima, em ônibus desconfortável: na ida, dois longos dias; mesmo tempo, no retorno.

Nosso time não fez nada bonito. Perdemos todos os jogos de goleada; desclassificados na primeira fase da competição.

Mas, o que me deixou fulo da vida, foi o apelido de "Crispim", rotineiramente repetido ao longo de toda a viagem... pura sacanagem dos colegas!
 
 

 
POST SCRIPTUM
 


Aos amigos que tiveram generosidade, fôlego e paciência da leitura do causo... e tenham interesse em conhecer a trágica e apaixonante "Lenda do Cabeça de Cuia", sugiro o post anterior, em minha escrivaninha!


 
Aluízio A C Amorim
Enviado por Aluízio A C Amorim em 16/05/2020
Reeditado em 16/05/2020
Código do texto: T6948724
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aluízio A C Amorim
Teresina - Piauí - Brasil
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Aluízio A C Amorim