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Um causo, simplesmente

Um causo, simplesmente
Jajá de Guaraciaba


Se acaso a gente conta um causo da família ou dalgum parente, a gente sempre conta vantagem. A gente nunca fala das coisas erradas, das derrotas ou dos insucessos. Temos que admitir que, no decorrer da vida, muitos fatos desagradáveis nos deixam aborrecidos e, algumas vezes, decepcionados com o nosso próprio comportamento ou com o procedimento inconveniente dalgum familiar. Mas tudo isso é perfeitamente natural.
Quando morávamos lá naquele rincão das Mina gerais, certa ocasião quando eu tinha uns cinco anos de idade, o meu tio João passou lá em casa antes de ir à cidade participar duma reunião na qual representaria os sitiantes daquela localidade. Ele estava numa elegância impecável: terno de linho branco bem passado, gravata da última moda, botas reluzentes de tão bem engraxadas. O bigode e os cabelos estavam bem aparados. Usava um chapéu-panamá bege que era uma beleza!
Assim que ele entrou no terreiro onde eu estava brincando o meu irmão Lilito, que era um ano e meio mais velho do que eu, fomos correndo ao seu encontro e antes que o meu tio João pudesse evitar o meu irmão se atirou no colo dele. Como estávamos totalmente sujos de pó de terra vermelha, imagine como ficou a roupa do tio.  Movido por um ímpeto de repulsa, ele, que mesmo sendo padrinho de batismo do meu irmão, com os dedos indicador e médio estorcegou com força a barrica do afilhado que deu um grito tão alto que a minha mãe veio correndo lá da bica para ver o estava acontecendo. Assim que ela chegou e viu aquela vermelhidão na barriga do Lilito ficou assustada e o meu tio, indeciso, para defender-se disse que ele machucara na fivela do corrião. Com toda a simplicidade e inocência dos meus cinco anos eu me adiantei:
— É mentira do tio, mãe! O Lilito foi abraçar o padrinho e ele beliscou a barriga dele!
O tio João ficou todo sem graça e a minha mãe sem saber o que fazer pediu desculpas ao cunhado pelo nosso mau comportamento e o convidou para entrar. Disse que lhe serviria um café e enquanto ele o tomasse ela limparia a barra do paletó que estava manchada de partículas de terra seca. Desconcertado pelo trágico episódio, ele pediu um favor para a minha mãe:
— Cecema, não diga nada pro Tunim porque ele pode ficar brabo e ir lá em casa tirar satisfação e eu não quero altercação com ninguém, principalmente com o meu irmão. Dê um jeito de fazer as crianças dormir mais cedo, e você me desculpe. Se fiz o que fiz foi sem querer, minha atitude foi impensada.
Minha mãe compreendeu a situação, tanto é que assim que o meu pai chegou da roça ela lhe pediu com ansiedade:
 —Tunim, vai dipressa lá na venda da siá Luzia e compra sal e querosene para as lamparina que a noite tá chegano!
E assim o meu pai não ficou sabendo de nada.
Passados alguns dias daquele fato, o tio João apareceu lá em casa com um saquinho de balas coloridas e deu para o meu irmão numa demonstração de arrependimento; como se fosse um pedido de desculpas. O meu irmão olhou para ele de cara feia e não quis saber das balas, então, eu as chupei de boca boa. Estavam deliciosas.
O meu irmão até antes morrer, agora aos setenta e tantos anos de idade, comentava esse fato comigo. Isto me fez lembrar do ditado: “Quem bate nunca lembra; quem apanha nunca esquece”.
Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 20/09/2019
Reeditado em 21/09/2019
Código do texto: T6749618
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 76 anos
706 textos (75479 leituras)
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Jajá de Guaraciaba