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O cavalo preto

Cheguei montado no meu cavalo preto, muito bonito e bem arreado, cela confortável e pelego vermelho e bem peludo, na sede da fazenda onde morava.
Era uma casa muito bonita com gramados verdes na frente e estábulos. Meu cavalo preto, mas eu costumava de chama-lo de meu negrão. Era um cavalo, para assim dizer, era quase totalmente adestrado. Gostava de sair com ele para alguns passeios. No campo da lida era um mestre. Além de esguio e bem esperto, era forte e marchador com um esquipado formidável. Podia-se colocar um copo de água sobre o arreio que não derramava uma gota com a sua marcha. O seu peitoril era de causar inveja a todos os cavaleiros. O meu negrão era conhecido em todos os lugares por onde eu passava. O povo já o conhecia e muitos o admiravam.
Para chegar naquela fazenda havia bem na frente da casa sede uma valeta enorme do meu lado direito a qual era separada da casa da fazenda por uma cerca de arame e esta se ligava em outra cerca transversal que cortava a valeta, e do outro lado desta, um córrego bem abaixo do nível da valeta que no qual caia toda a água que descia por aquela valeta.
Então cheguei montado naquele cavalo preto bonito, bem arreado e muitas pessoas daquela casa olharam e elogiavam o cavalo, dizendo: que cavalo bonito? Hem!. Outros falavam: veja o cavalo que ele vem chegando montado!
Apeei do cavalo já dentro do estábulo. Era uma casa de tábua. Desarreado, eu o puxava pelo freio, porque o capataz falara que era para eu tirar aquele cavalo de dentro do estábulo.
Puxando-o pelo freio, indicaram-me uma porta que parecia ser a porta de uma sala daquele estabulo.
Quando puxei o cavalo para sair, que ele dobrou o pescoço para virar para o outro lado, o cavalo deu uma empinada e subiu com as patas traseiras para outro cômodo que tinha um tablado e era mais alto do que o ambiente que estávamos. Tive que fazer algum esforço para fazê-lo descer daquela parte mais alta. Quando ia entrando na sala para sair, alguém disse: vire nesta porta, e virei e sai num lugar pequeno, gramado, parecia que era um canto da casa que construído em éle “L” e tinha algumas pessoas ali sentadas e apreciava uma ninhada de cachorrinhos bem pequenos e novinhos, parecia ser três, e haviam acabado de abrirem seus olhos e eles brincavam um com os outros naquele alpendre da casa.
Quando meu negrão viu aqueles cachorrinhos, o cavalo começou a soprar de medo e sapatear esfregando o seu focinho num dos cachorrinhos e as pessoas começaram ficar assustadas e percebi que um daqueles cachorrinhos estava morrendo e virou para um lado e morreu.
Coitado do meu negrão, o cavalo tinha alergia de pelo de filhote de cachorros e notei que enquanto ele soprava e sapateava, começou a soar frio e tremer de alto a baixo, seus nervos começaram a enrijecer e foi-se ajoelhando, deitou no chão e com os quatros pés pra cima morreu.
E agora o que eu ia dizer sobre o meu negrão, como ia provar que o cavalo morreu por causa de alergia dos pelos de cachorro. Como vou justificar isso aos meus amigos e parentes, já que aquele cavalo era o dodói de muitos. Ainda bem que naquele alpendre tinha algumas pessoas que poderia provar que isto era verdade.
Saí meio às pressas sem saber o que fazer e me encontrei do outro lado da casa, do lado da porta da sala onde havia aquelas cercas e a valeta.
Então, vi que passou Justino montado num cavalo pardo correndo numa velocidade espantosa numa direção que ia se afastando da casa. Era verão e eu cabisbaixo sentado ao pé de uma árvore que brotava as suas folhas novas, pensativo.
Passavam nos meus pensamentos as proezas que já tinha feito com o negrão, por onde passei com o seu galopar.
No vaguear dos meus pensamentos me vi numa outra fazenda onde havia tido uma cavalgada com vários animais, onde apresentamos algumas manobras com laço, pega do garrote e a corrida do tambor.
Por ultimo foi apresentado ao público a marcha esquipada dos animais.
Ai foi quando me peguei com as lágrimas nos olhos, pois o meu negrão se sagrou campeão em todas as competições.
A moçada depois das apresentações vinha e queria passar a mão no pescoço do negrão, perguntando o nome e sua idade.
Foram fabulosas aquelas vitórias.
Uma luta desvairada tomou conta dos meus sentidos e eu apreensivo com aquela situação, voltei ao meu estado normal e num salto rápido fiquei em pé ouvindo um barulho de um carro que apareceu de repente por dentro do pasto do lado de lá da valeta e vinha à direção da casa, e eu olhava para aquela direção vendo o carro e pensando: como! Por que aquele motorista estava daquele lado. Ele só podia ter errado a estrada na bifurcação do caminho e acabou chegando à casa por dentro do pasto e por aquele lado ele não podia chegar até a casa.
E aquele carro foi vindo e havia muito gado de engorda também do outro lado da valeta e o carro veio um pouco rápido e trombou na traseira dum boi e o boi assustou tanto que saiu correndo numa velocidade tão grande e foi aproximando daquela cerca transversal e chegando ele deu um salto e pulou a cerca enroscando as pernas traseiras na cerca e não deu pra eu ver direito, só sei que ele caiu lá embaixo dentro do poção do córrego onde a valeta jogava as suas águas.
Os outros bois ficaram um tanto amedrontados e assoprava com as ventas e correram amedrontados para o pasto. Então eu vi Antônio, outro cavaleiro que passou correndo lá do outro lado do córrego com um cavalo baio e sumiu correndo para tocar seu berrante e acalmar aquela boiada.
Aquele homem parou o carro bem antes da valeta, apressado com uma maleta na mão passou por dentro da valeta, subiu o barranco já do meu lado e veio na minha direção apressado e perguntando: Onde está o Negrão? Eu aturdido com a situação saio correndo para os fundos da casa e aquele homem correndo atrás de mim e de longe vimos o meu negrão estendido no chão, morto e com uma barriga enorme de inchada.
Do jeito que ele chegou, abriu sua maleta e tirou uma enorme seringa e de um frasco encheu aquela seringa com o liquido amarelado e aplicou bem na artéria do pescoço do meu negrão.
O cavalo nem se mexia, mas, não demorou um minuto o meu negrão começou a soltar puns e não parava mais de soltar os puns e de repente levantou a cabeça olhou para um lado, ficou de pé e saiu em disparada para o meio do pasto em alta velocidade e lá longe ainda via-o correndo com o rabo erguido e ouvia os puns que ele soltava.
Naquele momento eu não sabia se eu ria ou se eu chorava de alegria e aquelas pessoas que estavam ali, pasmadas, bateram palmas, pois não acreditava no que estavam vendo, não estavam em si, e batiam palmas sem saber por quê.
Aquele homem sentado numas das cadeiras que havia ali naquele alpendre olhava pra eu e sorria por ver o meu estado de melancolia. Eu suava feito um condenado, e andava pra lá e pra cá sem saber o que falar.
Passado alguns minutos, já estava, acho eu, melhor, parei na frente daquele homem e perguntei: Quem é o senhor seu moço? E como apareceu aqui tão de repente? Por que veio pelo meio do pasto? Não parava mais de fazer perguntas quando aquele homem ficou de pé e me disse: Sou veterinário. E me chamo, gabando da sua proeza, sou o doutor Samuel Videiro da cidade de Catingai, vim pelo meio do pasto por que errei o caminho na bifurcação, pois eu estava apressado, se eu demorasse mais meia hora o nosso negrão não voltava mais.
Calmamente, sorrindo me falou: sou o veterinário que cuidou deste cavalo desde quando ele era potro, não é a primeira vez que acontece isso com ele, ele não pode ficar próximo de filhotes de cachorro, pois ele tem alergia e deixa-o estressado e ele cai e fica num estado de catalepsia animal. O dono desta fazenda comprou-o de mim, ele já tinha este surto de catalepsia. Então como ele comprou pela formosura do cavalo e tinha o conhecimento destes sintomas, me comprometi que nessas ocasiões de crises que ele é acometido, me avisasse que eu viria o mais breve possível. Assim ele deixou Justino incumbido de me informar de tais situações.
Ah! O Justino foi bem preciso e foi correndo e me telefonou, por isso estou aqui para salvar o negrão.
Gostaria muito de te pagar doutor, por tudo que o senhor fez pelo nosso negrão, mas não tem dinheiro que paga a vida do negrão. E ele respirou fundo e replicou-me, foi um compromisso assumido, fiz somente o meu dever.
Então perguntei pra ele: o que é esta tal de ca cale, engasguei com o nome da doença e o doutor me falo claramente: catalepsia!
Vou te informar sobre a catalepsia, mas pra eu começar a te explicar o que é catalepsia, preciso informa-lo primeiro que é o único animal na estória que vi ser acometido por esta doença.
Catalepsia patológica é uma doença dos mortos vivos, rara, onde os membros das pessoas se tornam rígidos e perdem completamente os movimentos. A pressão arterial chega quase a zero e não há contrações dos músculos. Embora os músculos se apresentem mais ou menos rijos, a pessoa fica o tempo todo consciente e quem passa por este estado catalético pode ficar horas nesta situação.
A catalepsia patológica ocorre em determinadas pessoas com doenças tipo nervoso, debilidade mental, intoxicação e histeria. (Wikipédia – A enciclopédia livre)
Foi isso que aconteceu com o negrão, ele ficou histérico na presença dos cachorrinhos e caiu no estado de catalepsia. Entendeu?
Aí já bem mais restabelecido, perguntei: o que o senhor aplicou nele? Ah! Sim, boa pergunta meu amigo. Apliquei uma dose cavalar de adrenalina, por isso este estado energético e sua disparada. Amanhã ele já está bom.
A adrenalina é um hormônio simpaticomimético e neurotransmissor, derivado da modificação de um aminoácido aromático (tirosina), secretado pelas glândulas suprarrenais, assim chamadas por estarem acima dos rins. Em momentos de "stress", as suprarrenais secretam quantidades abundantes deste hormônio que prepara o organismo para grandes esforços físicos, estimula o coração, eleva a tensão arterial, relaxa certos músculos e contrai outros. Ah! Sim, entendi tudo doutor. (Wikipédia – A enciclopédia livre)
Doutor! Ele me interrompeu e falou: outra pergunta? Sim, doutor. Vai acontecer isso novamente com meu negrão? Ué! Respondeu ele. Nunca mais você deixe ele se aproximar de filhotes de cachorros. Deu um sorriso, bateu nas minhas costas e me falou: já cumpri com meu dever, agora vou embora. Despediu, pegou sua maleta e saiu para o lado do carro e vi quando ele estava subindo o barranco do outro lado da valeta.
De longe ainda me acenou com a mão, entrou no carro e se foi no seu caminho novamente por dentro do pasto e eu fiquei olhando até que ao longe desapareceu.
AVALCANTARA
Enviado por AVALCANTARA em 12/02/2016
Reeditado em 08/06/2019
Código do texto: T5541392
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
AVALCANTARA
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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