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Carta de superação

Meu bem,
O amor que me perdoe – ele, você e o nosso dia 14. É que o cansaço bateu com força e eu já não tenho mais paciência para fingir algo que antes me fazia tão bem e agora só faz latejar o meu peito.
As suas acusações já posso revogar. A cerveja? Troquei pelo vinho – eu só bebia essa bebida amarga quando estava com você, por causa de você. E até que faria sentido beber após sua partida, pois a minha vida ficou amarga, mas seria ter algo de você e de você não quero mais nada. O cigarro? Larguei desde nossa despedida. Você tinha razão, estava me matando. Tempo? Tenho todo tempo do mundo para mim e nenhum para você.
Há uma outra novidade: o café, meu companheiro de dia para curar madrugadas insones, agora é amargo. Diminui a ingestão de açúcar. Café doce me lembra você. E lembrar dói demais. Dói tanto que não sei mensurar a dor. E eu cansei de sentir dor. Ainda mais por você.
A dor que você me causou estraçalhou meu corpo e sentimentos. Confundiu meu sistema imunológico, que acha que fui infectado por uma ser estranho e quer destruir. No entanto, o único corpo estranho aqui é você. Que chegou de repente e fez morada no meu coração. Nem avisou sua chegada bem como não avisou a partida, como se não devesse nenhuma explicação. Se ao menos tivesse me mandado uma carta... Aquela carta! Ou tivesse aparecido naquele domingo... O nosso domingo!
Agora está tudo bagunçado. Um caos de sentimentos e memórias. Isso do lado de dentro. Do lado de fora está tudo pleno. Externamente eu finjo alegria para evitar transbordar a dor e a raiva para não suscitar questionamentos. Eu caminho pela rua sem prestar atenção ao céu e aos pássaros – você sempre reclamou que eu me distraía demais e esbarrava nas pessoas por está com os olhos no céu. Eu sou como as estações. Com você eu fui primavera. Depois verão. Após sua partida eu virei outono e talvez agora eu seja o inverno.
Ao menos a sua ausência não me deixou secO. Eu transbordo. Assim, quando encontrar alguém que esteja preparado para o oceano que eu sou, não terá medo de se afogar. Só espero que você não chore quando isso acontecer. Lembre-se que foi você que quis assim. E sinceramente eu espero que você encontre o que deseja. Que sejam felizes. Que tenham noites de amor. Que envelheçam juntos. Porque é tudo o que desejo para mim.
Eu quero alguém que abrace a vida como eu, desejando viver intensamente tudo que a vida pode oferecer. O amor que me perdoe – ele, você e o nosso dia 14. Não bebo mais cerveja e nem fumo mais cigarro. Já o tempo é o meu melhor amigo, mas ainda nem uma migalha será compartilhada com você.
Recebeu essa carta? Óbvio que não. Não te quero mais aqui. Você é o caos que eu demorei tempo demais para arrumar.
Estou na mesa da cozinha, sentada na minha mesa redonda, comendo bolo de cenoura com chocolate (o seu preferido) com uma xícara de café doce, pois eu mereço toda essa ingestão de açúcar após finalmente me livrar de toda tralha que me atrelava a você. Lembrar não dói mais. O meu sistema imunológico destruiu o intruso que era você. Eu encontrei alguém que não tem medo de pular as ondas do meu mar. Ela é chá de camomila num dia de chuva – só para você saber como ela é incrível.
O amor que me perdoe – ele, você e o nosso não mais dia 14. E eu, que sempre quis um amor, acabei percebendo que, olha só, eu sou um – e tenho um.
Superei você.

Com o restinho de amor,
E.
Belinda Oliver
Enviado por Belinda Oliver em 07/07/2020
Código do texto: T6998961
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Belinda Oliver
Lago da Pedra - Maranhão - Brasil
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Belinda Oliver