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Carta ao descendente

Para meu querido neto - e amigo-,

Hoje, que chegastes à tão esperada maioridade, escrevo-te esta pequena carta.
O mundo, Matheus, é um mar de ilusões. E nós, mesmo sem saber e/ou querer, vivemos nos afagando todos os dias, sempre com a esperança de que a vida nascerá mais bela no dia que chegará. Sinto dizê-lo mas não ficará.
Agora, com meus setenta e tantos, sei que a vida é feita de tristezas muito mais de que felicidades. Mas não te preocupes com a vaidade da felicidade sem que te tenhas sabido que, no final, nada disso realmente importará.
Que te chores? Veja, meu pequeno quase grande homem, ninguém fará falta pela eternidade. Bem verdade é que, assim que perdeste algo, ou alguém, tuas certezas caíram por terra, como diferente não poderia ser. Mas, outra vez, não te preocupes com as dores das perdas, elas não passarão, ainda que deixem de te fazer falta.
Quando ainda contava com a beleza da juventude, próximo da idade que tens, conheci o amor de minha vida. Era tão doce a vida que, por um certo intervalo de tempo, ousei imaginar ser bom o mundo. Eu mesmo me iludi, criando enfeites tantos nas incertezas e descontentamentos que deixei o pessimismo de lado. Eu amei. E ainda o faço, com zelo tamanho ao que tive no início, mesmo que não hajam razões para continuar.
Não demorou muito, bem mais do que acreditaram mas bem menos do que eu gostaria que tivesse durado, até que eu tenha perdido também meu amor. E não existiu um dia, desde o dia pretérito em que me desconheci ao perdê-la, que eu tenha deixado de amar. E agora, já vencido pelo tempo, se a ti pudesse aconselhar, diria-te para que nunca desista do teu amor. Não deixarás de amar, como eu também não deixei. E ainda que o mundo te apredeje, dia sim e o outro também, não abras mão do teu amor. Espero que dele você faça questão sempre ao pretender pela sua mantença. Isso tudo porque, devo confessar, ainda que me doam as verdades, que, por mais que a vida tenha seguido para mim, quando vista aos olhos do tempo, e que eu tenha seguido os planos da subsistência da vida, eu nunca fui feliz, desde o exato momento em que eu perdi aquela a qual entitulei ser minha pequena. Este é o porque aconselho a você: não desista do amor, caso tenha pensando em fazê-lo.
Por fim, e apenas para que te reafirme, as dores do mundo acertarão, muitas das vezes, em ti. E nos teus ombros pesarão. Mas você, meu querido neto, não perderá a esperança. E lembre-se sempre que cada dia a mais, é um a menos para os sonhos que não se realizaram. Eu hoje espero a morte, como quem senta em um ponto de ônibus esperando a hora de partir. Sinto que meu ônibus está chegando. Vejo-o, de onde estou. Ele se aproxima com velocidade cada vez mais rápida. Vejo-o cruzando as avenidas das dores, passando no sinal verde das doenças, e pelo corredor da vida, chegando cada vez mais perto de mim. Antes que me vá, nestes poucos minutos que me restam, eu te escrevo esta carta, com a esperança de que você a leia e, talvez, alcance a felicidade que eu não pude, ainda que também a merecesse. Dou sinal com a mão, num gesto quase desesperado, e agora não há mais volta: as portas se abriram, ao menos para mim.
um poeta da noite
Enviado por um poeta da noite em 11/10/2017
Reeditado em 01/12/2017
Código do texto: T6139273
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
um poeta da noite
Mogi das Cruzes - São Paulo - Brasil, 22 anos
49 textos (1081 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/17 15:10)
um poeta da noite