Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Como surge um Bispo Revolucionário





I - O Berço

Tem dóóó!!! O grito foi grande. Atravessou gerações, e se fez natureza na grande pedra-sentinela – Temdó – na entrada da cidade do Teixeira-PB.
Foi um grito de parto, Teixeira nascera
Verônica acabara de subir a serra rompendo o matagal virgem e hostil e, olhando para trás, viu a planície 700 metros abaixo, onde Patos, um aglomerado de casas, era apenas um sinal distante.
Teixeira aponta para o céu: Pico do Jabre, Pedra do Cruzeiro, Pedra do Vento, Pedra de Picos, esta, nanica na sua inanição milenar. Dizem que essas mãos pétreas levantadas para o céu, são pedidos de clemência diante das secas bravias e frequentes. Não se sabe quantas vezes seu povo foi ouvido, mas é certo que muitos desceram a serra em busca de outros horizontes e, não mais gritaram tem dóóó!!!
Eita povo bom da gota serena (disse o poeta de cordel). Acolhedor, solidário, religioso, crítico e cheio de poesia. A terra é adversa, as variações climáticas têm sido um flagelo. Ora as chuvas são apenas um aceno de esperança, ora as secas espalham a cor cinza pelos seus rarefeitos matagais, provocando o êxodo da população.
Teixeira teve sua importância política em 1930, quando o Coronel José Pereira de Lima proclamou a autonomia das Repúblicas Independentes de Princesa. Teixeira foi um eixo de apoio logístico às forças policiais que, tentavam em vão, por muito tempo, dominar os rebelados.
Nesse vai e vem da vida e da natureza, nasceu no Sítio Riacho Verde, Antônio Batista Fragoso, primeiro dos sete filhos de Maria José Batista da Costa e José Fragoso da Costa.

II – Nascimento e Formação Religiosa

1920, havia dois anos terminara a Primeira Guerra Mundial, onde morreram cerca de 17 milhões de soldados. Presidia o Brasil o paraibano Epitácio Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. O Padre Vicente Ferreira Rodas era o vigário do Teixeira.
Numa segunda feira, 10 de dezembro, a jovem mãe, começou a sentir as dores do parto, comunicou ao também jovem esposo, que saiu apressado em direção à casa da parteira, Joaquina, experimentada em trazer à luz, com sucesso, crianças no Riacho Verde.
Da Cristandade a Igreja trazia ainda fortes resquícios, sendo a sua maior característica "A relação entre a Igreja e a sociedade civil, relação cuja mediação fundamental era o Estado", ou seja, "A Igreja procura assegurar sua presença e expandir seu poder na sociedade civil, utilizando antes de tudo, a mediação do Estado", conforme Carlos Augusto Ferreira de Oliveira. A presença da Igreja era tão grande no mundo que, para melhor compreensão, vamos recorrer a Max Weber que define o poder como "toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências..."
A religiosidade dos pais de Antônio era muito intensa, pois, com apenas dois dias de nascido, o enviaram à cidade, a cinco Kms de distância, para o Batismo. Igualmente este autor, irmão caçula de Dom Fragoso, foi batizado no dia seguinte ao seu nascimento, percorrendo a mesma distância.
Talvez esteja nessa religiosidade parte da explicação porque, nessa família todos os seis homens entraram para o Seminário, onde tentaram ser padres, apenas três ficaram.
Meus pais, trataram primeiramente de desenvolver a formação religiosa de Antônio. A partir de muito criança, todas as noites, eles rezavam o terço e no sábado, minha mãe cantava em latim o ofício de Nossa Senhora. Essa prática continuou com os demais filhos adolescentes, quando eles seminaristas, vinham passar as férias em casa.
Aos domingos, a prática religiosa rotineira, missa e eucaristia, uma como obrigação e outra por devoção, faziam parte do costume do dia. Os demais sacramentos, cada um a seu tempo, e quase sempre aquele que necessitasse de padrinho, seria escolhido mais por gratidão dos pais de Antônio e, muito menos pelo conhecimento da corresponsabilidade dos padrinhos em educar.
A Igreja para estimular as devoções, sempre incentivou a associação a alguma irmandade, por isso meus pais pertenciam ao Apostolado da Oração, à Ordem Terceira Secular, Sociedade de São Vicente de Paulo, Senhoras da Ação Católica.
Quanto aos filhos crianças, logo cedo eles aprendiam a ajudar missa em latim, quando o celebrante rezava de costas para a assembleia e o coroinha respondia.
Antônio passou por essa formação religiosa tradicional, pois, dos pais dele, a mãe tinha alguma formação através da catequese, eis que estudara com o vigário Pe. Rodas, que era seu primo legítimo, e o pai com apenas três meses de escolaridade, ficara órfão de mãe aos três anos não tendo quem o acompanhasse no seu desenvolvimento.
Antônio, desde o uso da razão, mostrou querer ser padre. Para que Antônio? Para salvar as almas. Isso foi ensinado pelo Padre Vigário, pelos pais e, no seminário. Talvez essa resposta não satisfizesse Antônio. É provável que ele procurasse outra explicação.
Futuramente, nas tardes em que eu, tomando um cafezinho gostoso com o bispo já emérito, procurei conhecer as dificuldades que ele encontrara para falar em nome dessa Igreja, com o seu (dele) modelo de fé, sua visão do mundo, sua teologia que se identificava com a Teologia da Libertação, com sua opção pelos pobres, a partir da Igreja pré-concilio, Dom Fragoso me tirou algumas dúvidas, mas deixemos a fala dele para o capítulo apropriado.

III – Formação Escolar, Social e Doméstica

Eis que começa o momento em que Antônio demonstrou uma inteligência privilegiada e, também sua capacidade de memorizar, especialmente os poemas de Castro Alves, o poeta da corrente condoreira, o poeta dos escravos.
A jovem criança iniciou os estudos e, com muito gosto. O pai, conhecido como Zé Fragoso, com apenas três meses de escola , tinha uma grande curiosidade diante do mundo, o “porquê” caminhava a sua frente e queria saber a causa, porque as cousas aconteciam, principalmente quando se tratava de ofensa aos outros. Tinha grande interesse em saber como a sociedade se organizava, como os Direitos do cidadão era preservados, como as injustiças eram combatidas.
Certa ocasião, substituiu o Promotor Adjunto, e o delegado reconhecidamente torturador, começou o espancamento de um cidadão acusado de um crime, impossível fisicamente de cometer, apenas pelo prazer de torturar. Meu Pai conseguiu testemunhas, movimentou o juiz, e conseguiu libertar o acusado inocente.
Depois, os quatro filhos mais velhos: Antônio, Domingos, Estanislau e Luiz, frequentaram a escola primária na cidade, com o Professor Severino Lopes, e cada um, estimulava o outro mutuamente. É normal que cada pai tenha a sua pedagogia e queira direcionar a sua própria educação. Meu pai costumava valorar mais as notas do que o aprendizado. Ao fim do semestre ou do ano, o boletim de notas era tão esperado quanto o aluno.
Havia sempre uma recomendação junto aos filhos, para que não perdessem a oportunidade de se sobressair, fazer um discurso, declamar um poema. Segundo a visão dos pais, essa prática faria com que os filhos fossem perdendo o acanhamento.
A necessidade fez o pai sentir aos quatro filhos mais velhos que estava na hora deles o ajudarem no roçado. E eles foram. Pela manhã iam para a escola, na cidade. Lá se desincumbiam dos afazeres da época, faziam: cópias, ditado, soletravam, faziam tabuada, prática de oratória, declamação de poemas, prática de leitura.
Aqueles meninos, não eram diferentes dos outros, também arengavam com os demais meninos, principalmente em defesa dos irmãos, embora o pai fosse enfático na ameaça: se brigar com outro menino, ganhando ou perdendo, quando chegar em casa apanha.
A única razão aceita para uma briga com outro menino, era o fato do outro dizer uma palavra feia (palavrão), principalmente palavras contra a castidade, contra a moral ou contra a mãe deles.
À tarde trabalhavam no roçado com uma enxada de 2 e l/2 libras, até o pôr do sol. No inverno, plantavam milho, feijão de corda, melancia, jerimum, depois iam fazer a limpa. O segredo era não deixar os matos crescerem entre as plantas. E, quando as formigas começassem a comer as plantinhas novas, a orientação do meu pai se encaixava: “Vamos foliar”, ou seja, injetar veneno nos buracos das formigas, depois os buracos eram entupidos com terra e, as formigas morriam embriagadas. Confrontando com os agrotóxicos de hoje, não tem comparação, as herbicidas daquela época ficavam presas dentro de buracos, pois, somente tinham ação subterrânea, no interior dos formigueiros.
Antes da saída para a escola enchiam os potes de água e, no horário de meio dia, após o almoço, iam até uma mata próxima e tiravam lenha para cozinhar. E ainda tinham a obrigação, de ajudar a minha mãe a pisar o milho para o manguzá, para a fuba ou farinha de milho, também moíam o milho para complementar a comida. E por último torrava-se o café para depois pisar.
Começava uma grande preocupação para os pais de Antônio, com o estudo dos filhos após o curso primário.
Um dia o pai estava no roçado com os quatro filhos mais velhos. Os três mais novos estavam em casa ajudando, ou melhor, perturbando a mãe.
Zé Fragoso olhou para o céu, nenhuma nuvem. Olhou para o chão, a terra seca não dava esperanças. A terra, além de pertencer a terceiros era muito pequena, não passava de sete ha. Ele, de sempre animado, pensou triste: Meus filhos não terão futuro aqui.
Às vezes eles se perguntavam, enquanto outros pais querem que os filhos permaneçam ao lado deles, pois sempre ajudam, eles, Zé Fragoso e Maria José, estavam procurando achar meios para que os filhos estudassem, mesmo carecendo do trabalho deles. À noite em casa, combinou com Maria José e resolveu procurar escolas para os filhos. Estudar para padre, era o que sempre pensavam.
No Seminário Arquidiocesano da Paraíba, em João Pessoa, conseguiu o estudo grátis para Antônio, porém na função de porteiro.
Naquela instituição não existia ainda telefone, e todos os afazeres do porteiro eram feitos por Antônio, com 13 anos. Recados, pequenas compras, cigarros, pequenos consertos, lanches, e muitas outras tarefas, de forma que o porteiro ao fim do dia estava extenuado. Um dia o menino Antônio, não suportou o cansaço e saiu para o interior do Seminário, e lá sentou-se sob uma mangueira e adormeceu. Procuraram o porteiro e o encontraram adormecido, comunicaram à Direção que mandou avisar aos pais, e José Fragoso veio imediatamente. Este, ao chegar em João Pessoa, primeiramente ouviu o filho Antônio, que contou exatamente a verdade. Quando a Direção do Seminário entregou o filho de volta ao pai, este com a firmeza que lhe era característica disse com segurança: Os Senhores se responsabilizam diante de Deus, se o meu filho tiver vocação para padre e o dispensarem?
Vamos recuar um pouco e acompanhar a pedagogia dos pais de Antônio.
Os pais de Antônio, os seus seis filhos e sua filha, moravam em uma casa de chão batido, tijolos sem reboco, sem água encanada e, sem sequer uma fossa. Dormiam em redes sofrendo frio, no inverno de às vezes menos de 14°. Quanto à alimentação, quando o inverno era bom, colhiam para o ano todo, mas quando o ano era de seca, Zé Fragoso, saía pelos municípios vizinhos em busca de trabalho e, não raro passavam fome.
Mesmo diante desse estado de pobreza, Zé Fragoso costumava dizer, pensando como o poeta Castro Alves: “Eu sou pequeno, mas só fito os Andes”.
Os pais dos sete filhos tinham pedagogias diferentes, mas complementares. Enquanto o pai procurava a todo custo, que os filhos tivessem boas maneiras, respeitassem os outros, tivessem uma boa convivência, a mãe acolhia os pobres como o Jesus Histórico do Evangelho.
Meu pai chegava do roçado e os filhos chegavam da escola, Maria José se desdobrava para preparar a alimentação para a família, e após o almoço, no dia em que os mais velhos não iam buscar lenha, o pai ensinava aos meninos baseados num livro, que não sei onde conseguiu: Pequeno Manual de Civilidade para Uso da Mocidade, da Coleção FTD, editado em 1932 pela Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro (A propósito, após dois anos de procura nos sebos de Norte a Sul do País, encontrei-o na Estante Virtual). Fazia questão de repetir, até que os filhos introjetassem aquelas normas, entre outras:
- Dar sempre preferência aos idosos, seja para sentarem-se, para falarem, e aí por diante.
- Nunca se sentar numa mesa com as pernas alcançando a pessoa que está do outro lado;
- Nunca, mas nunca mesmo, ao encontrar uma mulher, olhar para trás. Se achar conveniente, olhe nos olhos dela.
Meu pai levava tão a sério o propósito da harmonia na convivência, que vou citar três exemplos, para comprovar.

1. Minha primeira namorada, lembro-me bem, sua mãe contou
ao esposo, com diálogo mais ou menos assim:
- Fulana está namorando;
- Com quem? Perguntou o pai.
- Com um filho de Zé Fragoso;
-Qual deles?
- João da Cruz o mais novo;
- O sujeito é muito feio, mas é filho de Zé Fragoso. Arrematou o pai.

2. Eu e meu primo Hélio vínhamos da cidade do Teixeira, por volta das 21:00, quando ao nos aproximarmos de uma grande árvore, vimos um grupo deitado sob ela, na beira da estrada. Tremendo de medo, continuamos nossa caminhada, quando ouvimos um grito:
- Se pisar morre;
- Conheci a voz e gritei, Fulano;
- Ele perguntou, quem é?
- Prontamente eu respondi, um filho de Zé Fragoso;
- Ah! Filho de “Seu” Zé Fragoso, pode passar.

3. Meu pai teve no município do Teixeira cerca de 300 casais de compadres e, quando se candidatou a vereador, somente os votos dos compadres e das comadres seriam suficientes para sua eleição.
Já minha mãe, se preocupava em viver a vida tal qual o Evangelho.
Onde ela morou alguns pedintes a veneravam.
Há três quilômetros de nossa casa no Sítio Poços, moravam três irmãs que viviam da caridade pública. Eram o protótipo da exclusão social. Recorriam a minha mãe porque confiavam nela, embora fosse do conhecimento público que meus pais nada tinham. Elas eram cobertas de chagas e, em razão disso, exalavam um horrível mal cheiro. Minha mãe as acolhia na cozinha, ouvia suas queixas, dizia-lhes algumas palavras de esperança, preparava-lhes um chá e, na hora do almoço, as levava para almoçar com a família, na mesa.
Lá no Sítio Poços, num recanto do Teixeira, numa casa pobre, onde nem sequer, tinha sempre o que comer, dava-se um milagre, pais e filhos se uniam para dar ao mundo o exemplo de acolhimento aos mais necessitados e ao mesmo tempo, trabalhar com filhos para conviver em harmonia com as demais pessoas, respeitando-as e servindo-as.
Minha mãe além de cuidar dos afazeres domésticos, auxiliava nas tarefas escolares dos filhos, na sua higiene, na sua piedade, ensinava-lhes as orações, os sacramentos, os mandamentos, complementava as boas maneiras iniciadas por meu pai, e o mais pesado, cada semana minha mãe dirigia-se ao Açude Poços a 3 kms. e lá passava todo o dia, sobre uma pedra, lavando a roupa do esposo, dos filhos e as suas próprias. Além desse esforço enorme, minha mãe teve doze filhos, dos quais sobreviveram sete.
Esse modo de educar tão integrado, expressava a construção do Reino de Deus, revelado por Jesus.

IV – Vida No Seminário

Como já foi dito o menino Antônio começou os estudos, trabalhando na portaria do Seminário Arquidiocesano da Paraíba. É claro que para o entendimento de todas as matérias, Antônio sentia dificuldades vindo, como veio, de uma escola rural. Mas, ele era muito estudioso, e conforme me contou, foi ali que se deu o entendimento do que fosse uma Igreja conservadora, sem abertura para o mundo dos leigos, voltada para a administração dos sacramentos. Ao mesmo tempo lhe veio o discernimento do que fosse uma ação social orientada para o social.
O menino Antônio passou dois anos como porteiro do Seminário. Tinha então 15 anos e fazia o Curso de Humanidades quando a Família Soares de Oliveira se dispôs a pagar-lhe os estudos.
Num dia de Domingo, estava sendo celebrada a missa no Seminário e, na hora da homilia, o celebrante disse que alguns alunos seriam dispensados, por dificuldades financeiras. O Sr. Antônio Soares, patriarca da família, se dispôs a custear os estudos de Antônio Fragoso. Seremos sempre gratos a essa família, pois, conseguiu desenvolver sua capacidade intelectual, com tempo para estudar.
O seminarista Antônio tinha 20 anos, estava no primeiro ano de filosofia e não conseguia controlar a enurese noturna. O Reitor do Seminário, decidiu usar sua própria pedagogia para resolver o problema, em outros termos, não era admissível que um padre urinasse na cama. Então o Reitor chamou Antônio, pôs o colchão molhado na sua cabeça e, na hora do almoço, quando os demais seminaristas estavam formados para a refeição, o jovem Antônio desfilava diante deles para colocar o colchão no sol.
É preciso que se diga, que se o Reitor conhecesse outro método mais eficaz, ele o usaria, e nunca lançaria mão daquele recurso vexatório.
Eis Antônio no Curso de Filosofia. Vamos imaginar o jovem Antônio Fragoso, na transição da adolescência para a juventude, vindo de uma formação religiosa que lhe diz e confirma através dos mediadores: você vai ser padre para salvar as almas, e se topa no decorrer do curso com autores que lhe questionam: E o corpo, e a vida onde ficam?
Antônio ainda não estava preparado para esse choque. Suas crenças caminhavam na direção que a religiosidade suscitara: o que os padres disserem é dogma, também os pais, também os mestres do Seminário. Mas o jovem seminarista pensou na possibilidade de Deus, ao criar o ser humano, não o concebeu perfeito. As dúvidas, as imperfeições o teriam acompanhado, porém Deus sabiamente incorporou à natureza, todas as oportunidades para que o ser humano fosse se aperfeiçoando em busca de sua realização, então ele concluiu que se tratava de um processo lento de procura.
Mas, em busca de que?
Da realização humana.
E que realização seria essa?
O PROJETO DE DEUS ou REINADO DE DEUS, revelado por Jesus; um mundo novo, um mundo de irmãos, a ser construído ainda neste primeiro piso (como diz o padre austríaco Rogers Lenaers).
E como Jesus teria revelado esse PROJETO DE DEUS?
Jesus revelou o PROJETO DE DEUS, vivenciando os valores que estão no Evangelho: a Solidariedade, a Justiça, o Amor, a Fraternidade e muitos outros.
E como Jesus viveu a Solidariedade?
No Evangelho da Divisão dos Pães, aliás toda a sua vida foi de solidariedade, de acolhimento, de bondade.
O seminarista Antônio, conforme me passou depois de bispo emérito e, eu fiquei entendendo que a salvação do ser humano se dá no plano histórico e, não no plano divino, seguindo Teilhard de Chardin.
É claro que o estudante foi arrematando o seu pensamento filosófico/ teológico assim: que Deus abdicara de parte do seu poder para que o ser humano tivesse plena liberdade, criara o universo e o entregara ao homem e à mulher para administrar. Ele, Deus, não interferirá, de modo que expressões como “Deus está no controle”, é uma fuga à responsabilidade.
Dom Fragoso já tinha feito a sua Páscoa, quando em 2002 e 2008 o bispo anglicano norte-americano John Shelby Spong e o Padre Jesuíta austríaco Rogers Lenaers, escreveram respectivamente “Um novo Cristianismo para um novo Mundo” e “Outro Cristianismo é Possível”, questionando o que ambos consideraram mito: A criação do Mundo em 7 dias, o nascimento de Jesus de uma virgem, a existência de outro mundo no formato de Céu e Inferno e, outros. Eu me pergunto, qual teria sido a sua interpretação, naquelas tardes do café gostoso, da temática questionadora de Shelby e Lenaers?
Teria o seu pensamento sido iluminado pelo Espírito Santo, numa evolução permitida por Deus?
Antônio, ou melhor, Pe. Antônio Batista Fragoso, quando chegou a Padre, a inquietude dominou a sua vida.
Ele foi professor do Seminário, foi Capelão do Colégio Marista Pio X, do Colégio das Lourdinas, da Maternidade Frei Martinho, Assistente do Círculo Operário, da JEC – Juventude Estudantil Católica, da JOC – Juventude Operária Católica, em João Pessoa, até ser nomeado Bispo em 1957.
Na cabeça do Pe. Fragoso, apesar de todas essas funções, ele não passava de um burocrata. Celebrar missas, administrar sacramentos especialmente confessar, dar a comunhão, participar de cerimônias religiosas, por exemplo, procissões, benção do Santíssimo, novenas.
E os valores do Evangelho tão claramente explicitado por Jesus? E a opção pelos pobres, como nos diz Pe. José Maria Vigil, não se trata apenas de uma escolha, porém de um dever de Justiça?
A evolução do pensamento e consequente concepção do mundo, como o Pe. Fragoso já tinha percebido, é um processo, e quase sempre lento.
Nesse processo dá-se uma constante busca, busca do entendimento da realidade que nos cerca. Algo que inquietava o Pe. Fragoso era a notória desigualdade social, daí a pergunta que ele se fazia: Por que uns com tanto e outros com tão pouco? Por que a Igreja não toma o partido dos mais fracos?
Será que os trabalhadores são tão ingênuos, a ponto de necessitar que uma instituição lhes proteja?
Ele tomou, então, a iniciativa de orientar, como assistente eclesiástico, o Círculo Operário de João Pessoa, associação leiga de inspiração católica, surgida no Brasil na década de 1930, tendo grande influência do Governo de Getúlio Vargas, “como um meio de resguardar os trabalhadores da influência comunista”. O Comunismo foi taxado de Inimigo Vermelho, e a Igreja disputava os trabalhadores com os comunistas, também com os socialistas e anarquistas.
A Igreja Católica se empenhou intensamente em dinamizar os Círculos Operários, fundamentando a sua doutrina nos ensinamentos das Encíclicas Rerum Novarum, Quadragesimo Anno, Divini Redemptoris e Mater et Magistra,
Em 1964 os Círculos Operários alcançaram 408 círculos com 435.000 associados.
Os Círculos Operários se constituíam de operários, trabalhadores rurais e funcionários públicos, militares, e eram beneficiados com auxílio funeral em caso de sua própria morte.
O Pe. Fragoso, construiu o prédio dos Círculos Operários na Rua Senador João Lira, no Bairro de Jaguaribe em João Pessoa. No mesmo prédio ele instalou o Cinema São José, adquirindo as máquinas de projeção em Turim na Itália com a finalidade de exibir filmes educativos e dentro da moral cristã. Ele gostava do cinema, como arte, tendo sido um dos fundadores do Cine Clube de João Pessoa.

V – JOC – Nova concepção do Mundo

A compreensão de que os Círculos Operários eram um instrumento de competição, do qual se servia a Igreja Católica, o Estado e o poder econômico para disputar os trabalhadores com as esquerdas (Comunismo e Socialismo) parece ter feito parte da consciência do Pe. Antônio Fragoso ainda muito cedo, pois, certo dia uma jovem de nome Maria de Lourdes Carvalho o procurou e o convidou para ser assistente eclesiástico da JOC – Juventude Operária Católica - movimento de leigos, fundado em 1923 pelo Belga Padre Joseph Cardjin.
Lourdes Carvalho contou-lhe o que sabia sobre o Pe. Cardjin e sobre a JOC. Que ele era de uma família de origem de operários. Seu pai não sabia ler, exercia a dupla função de cocheiro e jardineiro, e sua mãe era doméstica. O que ganhavam mal dava para alimentar os quatro filhos. Os seus antigos colegas de escola, então operários, tinham uma visão bastante negativa da Igreja Católica, a viam como aliada dos opressores da Classe Trabalhadora.
Em 1903, com 21 anos, ainda seminarista, fez um solene juramento ao lado do leito de morte do seu pai, prometeu-lhe que daria sua vida pela Classe Trabalhadora. Foi ordenado Padre aos 24 anos. Viajou por toda Europa para melhor conhecer os programas sociais em defesa da Classe Trabalhadora.
Em 1914, por ocasião da Primeira Grande Guerra a Alemanha invadiu a Bélgica, Cardjin teve intensa participação na defesa do seu país. Pessoalmente coletou alimentos, medicamentos, roupas e combustíveis em ajuda dos soldados e de outras vítimas.
O Padre Cardjin se envolveu com a Classe Trabalhadora e se pôs abertamente em defesa de sua pátria, sendo nomeado Diretor da Ação Social Diocesana em Bruxelas e, ainda capelão dos sindicatos cristãos, agrupando os jovens da chamada Juventude Sindicalista, o que mais tarde se tornaria JOC – Juventude Operária Católica.
A JOC foi a grande luz que se fez na vida do Pe. Fragoso. Talvez aí, ele tenha começado a entender com clareza o que vinha a ser o Reinado de Deus, de que falava o teólogo espanhol José Maria Castillo, aí provavelmente ele tenha começado a enxergar a opção pelos explorados.
Essa abertura o fez ver que o marxismo tinha maior proximidade com o cristianismo do que com o capitalismo, deu oportunidade a ele enxergar que a luta de classes era uma realidade, que a exploração estava na raiz do regime capitalista.
Pe. Fragoso se empolgou com a história daquele padre Belga, e tomou conhecimento de quais autores e ideias o tinham influenciado: o Humanismo de Jacques Maritain, o Personalismo e Emmanuel Mounier, o Evolucionismo de Teilhard de Chardin, a Teologia dos leigos de Yves Congar.
Naquele momento era aquilo que o Pe. Fragoso queria e precisava. Viu que a JOC tem como missão a libertação das jovens trabalhadoras e trabalhadores, ser testemunha da presença libertadora de Jesus e do Projeto de Jesus no seio d Classe Operária.
O Pe. Antônio Fragoso, foi se desvinculando da doutrina conservadora da Igreja Católica expressa na frase Ser Padre para salvar as almas, quando tomou contato com Teilhard de Chardin no seu evolucionismo: “Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”.
A JOC de Cardjin tinha uma concepção de Fé, bem diferente de outros movimentos e associações no interior Igreja Católica, bem mais voltada para a realidade social. Seu projeto era o de ensinar ao jovem trabalhador uma vida mais humana e, formar com a Classe Operária um corpo que defendesse o direito dos trabalhadores. Desse modo, o jovem jocista deveria ser um apóstolo no meio operário e sua formação seria baseada no método VER x JULGAR x AGIR.
Conforme o biblista Carlos Mesters, OCM, esse método se fundamenta em Lucas, no Evangelho dos discípulos de Emaús. Formava a consciência do jovem trabalhador, formava a sua visão de Fé, formava a sua concepção do mundo. A partir daí a jovem e o jovem trabalhador tomavam conhecimento do Reino de Deus (Mundo de Irmãos, Mundo Melhor) ficava sabendo que cabia a ele construir esse Novo Mundo, já aqui na terra.

VER – É inteirar-se da realidade que nos cerca, é tomar conhecimento dos acontecimentos, especialmente aqueles que têm relação com a Classe Trabalhadora, é não ser alienado, é ser consciente, é saber o que quer, para onde vai, saber em quem votar, o que escolher.

JULGAR – é confrontar o ocorrido, o acontecimento, a atitude, a lei, a regra, com a vontade de Deus, com o Evangelho. É emitir um juízo crítico, é ser consciente, é ter consciência. O cidadão consciente é senhor do seu destino, procura conhecer toda a realidade que o cerca, confronta com a vontade de Deus, então emite um juízo de valor.

AGIR – Depois de conhecer a realidade que o cerca, comparar com a vontade de Deus, saber o que vai fazer e como vai fazer. É também orientar os companheiros para saberem o que vão fazer.

VI – Dom Fragoso e os outros irmãos

1. Dom Antônio Batista Fragoso, foi o primeiro dos irmãos, quando saiu de casa eu tinha apenas alguns meses e, quando o conheci eu já atingira cinco anos.
Ele ajudou financeiramente com os meus estudos e com os estudos de minha irmã Maria Madalena Fragoso Ribeiro.

2. Nasceu em 14 de fevereiro de 1923 Domingos Fragoso Neto, com 13 anos foi para o Convento Franciscano São Pedro Gonçalves, em João Pessoa. Após três anos, reconheceu que não tinha vocação sacerdotal, deixou o convento. Fez algumas experiências, tais como a de trabalhar na roça e alfabetização de trabalhadores rurais. Depois foi para o Exército, eis que era o tempo da Segunda Guerra Mundial, chegando a sargento. Nessa condição se casou com uma prima – Maria de Lourdes Campos Fragoso. Deixou o Exército para a Esso Brasileira de Petróleo, e de lá foi convidado para ser Secretário da Prefeitura do Teixeira, e após o término do mandato do Prefeito, foi aprovado em concurso para o antigo Instituto do Açúcar do Açúcar e do Álcool e, quando o Presidente Fernando Color de Melo, encerrou as atividades do IAA, ele já como fiscal, foi remanejado para Receita Federal, como Fiscal de Tributos. Formou-se em Economia, pelo Universidade do Rio Grande do Norte aos 50 anos de idade. Domingos custeou os meus estudos dos segundos e terceiros anos ginasiais. Ele e Lourdes tiveram 8 filhos. Faleceu com 87 anos.
Domingos, quando criança de 9 anos, teve uma passagem singular na sua vida. Sofria de uma forte crise de asma, também chamada de puxado. Nossos pais fizeram o possível, recorrendo a medicamentos caseiros, sem nenhum sucesso. Foi quando José Fragoso, apoiado na sua fé, teve a ideia de ir à cidade de São Francisco do Canindé no Ceará, para pedir a intercessão do Santo na intenção da cura do filho. Começaram os preparativos para viagem, mais de 1500 quilômetros de ida e volta, a pés. Meu pai não tinha nenhum dinheiro, conseguiu um cavalo emprestado e dinheiro para as despesas e, num dia de madrugada, saíram, meu pai a pé, e Domingos montado no cavalo e, nos caçuás a bagagem deles.
Eu era ainda bebê, quando eles dois, pai e filho, iniciaram a grande aventura de romper vales, serras, dormir nas matas com o risco de serem atacados por onças, dormirem ao relento, fazerem de maneira improvisada sua própria comida, percorrerem caminhos desconhecidos, encontrarem pessoas hostis, também amigáveis, igualmente lhes veio o desânimo e a vontade de desistir, mas o motivo pela qual faziam aquela jornada lhes servia de estímulo para continuar. Zé Fragoso, muitas vezes era acometido de uma imensa saudade de casa, da esposa, dos filhos que ficaram, mas sua enorme fé fundamentava o seu propósito e, continuou, e um dia chegaram a São Francisco de Canindé, terra de Adalberto Barreto o fundador da Terapia Comunitária.
Zé Fragoso não perdeu tempo, levou o pequeno Domingos a Basílica e lá contou o motivo pelo qual fizeram aquela imensa viagem, também fez a confissão dos pecados (Se é que ele tinha algum, ou será que foram perdoados depois daquele sacrifício enorme?), comungou e assistiram à Missa. No dia seguinte voltaram, sentindo a fé lhes falar que Domingos estava curado e que esse pretexto, pagava todo o sacrifício.
Domingos se apresentou completamente bom, por mais de vinte anos, porém as mudanças climáticas, João Pessoa, Natal, Rio de Janeiro, Recife, Teixeira, de novo João Pessoa e Natal, fizeram-no ter grandes recaídas que o atormentou sobremaneira.

3. Estanislau Fragoso Batista nasceu em 10 de janeiro de 1925, também com 13 anos foi estudar no Colégio Salesiano em Jaboatão-PE. Apesar de mostrar muita piedade e interesse, no quinto ano de humanidades resolveu deixar o Salesiano. Seguindo o mesmo caminho de Domingos, fez algumas experiências em alfabetização, porém decidiu seguir a carreira militar, se apresentando voluntariamente na Aeronáutica, tendo ingressado no Curso de Sargento Especialista de Voo. Ao terminar, se casou com uma irmã de Lourdes, Luíza Campos Fragoso, com quem teve nove filhos. Um deles, o segundo, morreu aos 27 anos em um acidente de automóvel. Pagou meus estudos do primeiro e quarto ano do curso ginasial. Morando em Recife, fez o curso de Direito e, ao término foi transferido para o Rio de Janeiro. Fez várias viagens a serviço da ONU ao exterior. Na década de 60 ele escreveu alguns livros, entre eles, “Entre a Noite e o Dia”, em que fez severas críticas à discriminação entre praças e oficiais das forças armadas, também se uniu às demais praças em defesa do Governo de João Goulart, democraticamente eleito, e por ocasião do golpe Militar foi preso (com uma Bíblia e um terço na bolsa) por sete meses e então foi expulso da Aeronáutica. Advogado, Professor de Direito Penal na Universidade de Campo Grande, anistiado como Tenente Coronel da Aeronáutica, foi o caminho percorrido por Estanislau, e como todo caminho foi de “via crucis” e de vitórias.

4. Nascido no Sítio Riacho Verde em Teixeira-PB, em 16 de julho de 1926, Luiz Batista Fragoso, recebeu o presbiterato na Ordem Terceira de São Francisco com o nome de Frei Hugo, como era costume nas Ordens Religiosas. Nunca se afastou da ideia de ser franciscano, embora tenha recebido vários convites para outras Congregações. Ingressou no Convento Seráfico de São Pedro Gonçalves em João Pessoa, tão novo que a direção entendeu que ele não tinha condições de acompanhar o ensino e voltou para casa, retornando ao Convento em 1939.
Ordenou-se no dia 15 de agosto de 1951 com 24 anos. Depois, fez o Curso de Teologia em Roma, doutorando-se em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Antoniarum, com especialização na Inglaterra e Espanha. Ensinou História da Igreja no Iter – Instituto de Teologia de Recife, do qual foi membro cofundador. Ensinou História da Igreja na Universidade Católica de Salvador de 1970 a 1991. Ensinou também Teologia em Ilhéus e Fortaleza. Participou da Comissão de Estudos da História da Igreja da América Latina (CEHILA) cujo objetivo era proceder a uma releitura e reelaboração da História da Igreja a partir do povo, dos indígenas e do excluído.
Em 2003, publicou o livro São Francisco do Paraguaçu – Uma História Sepultada sob Ruínas além de uma série de monografias sobre a História do Brasil e da Ordem Franciscana.

5. José Fragoso Filho, tomou na Ordem Carmelitana o nome de Frei Domingos, também chamado carinhosamente pelos familiares de Zezito, nasceu no Sítio Riacho Verde, Teixeira-PB, em 06 de abril de 1930, plena insurreição das Repúblicas Independentes de Princesa, início da Revolução de 1930.
Frei Domingos sempre foi decidido quanto à opção em entrar na Ordem Carmelitana. Certa vez, rezando ou pregando missões em Teixeira, o frade carmelita espanhol Frei José Maria Casanova, convidou alguns jovens que quisessem ser padres, para ir para o Convento dos Carmelitas. Nas duas décadas de 1920/1930, os filhos de Zé Fragoso e Maria José, tiveram grande estímulo financeiro, porquanto encontraram quem custeasse seus estudos para padre, quase sempre. Cabia às famílias dos candidatos a Padre, preparar-lhes o enxoval na primeira oportunidade e quando voltasse das férias.
O ano de preparação do enxoval de Zezito foi o de 1943, ano de seca no semiárido, e José Fragoso teve que trabalhar numa mina de Xelita a 120 kms do Teixeira, coincidiu com o esgotamento cada vez maior das fontes financeiras, já combalidas com a renovação todo ano do necessário com os quatro filhos, que já estudavam. Zezito acompanhou o pai, para ganhar algum dinheiro para preparar o material necessário ao seminário. O trabalho era pesado, carregar cascalho do metal em um carro de mão para processar e extrair a Xelita. Surgiu um panarício numa das mãos, e ele teve que voltar para casa a fim de fazer tratamento, sem, contudo, conseguir completar o enxoval, faltando os sapatos. Minha mãe, apesar de sua timidez, foi até o vigário pedir a sua ajuda, tendo recebido a resposta de que nem sempre era preciso os filhos estudar. Já no Convento, os sapatos doados por alguém premiado numa rifa, chegaram a um ponto de não ter mais serventia, foi quando o estudante Zezito pediu ao superior um outro calçado, porém este o repreendeu dizendo: “Você estuda grátis e ainda quer ganhar sapato?” Quando Zezito apresentou ao superior um calçado ganho do irmão Domingos, ouviu em resposta que outro estudante estava precisando mais do que ele, e continuou descalço. Zezito foi para Goiana-PE, Recife, São Paulo, concluiu com o curso de Teologia em Roma.
Eis o que o fundador do CEBI – Centro de Estudos Bíblicos – Frei Carlos Mesters escreveu sobre Frei Domingos.
“Frei Domingos era da Província Pernambucana, mas conviveu muitos anos conosco na Província Fluminense como confrade, como vigário, como professor e como conselheiro. Graças ao estímulo e às propostas dele, muitas iniciativas foram tomadas em vista do aprofundamento da espiritualidade carmelitana. Ele era incansável em propor novos horizontes para o trabalho da gente. Ele era meio cabeçudo, mas foi graças a esta sua teimosia que se conseguiu realizar os projetos de tantas coisas boas”.
“Quando ele foi eleito Conselheiro Geral para o Carmelo latino-americano e caribeño, ele se propôs três pistas de trabalho:
1-Realizar encontros periódicos Inter carmelitanos em nível de América Latina e Caribe; -
2. Incentivar os programas de formação sobretudo da história e da espiritualidade carmelitanas,
3-Criar uma revista carmelitana. As duas primeiras propostas foram realizadas durante muitos anos e muito contribuíram para unificar e orientar os vários grupos carmelitas da América Latina. A revista Carmelitana em nível de América Latina ainda está para ser criada.
“Que a memória do nosso confrade frei Domingos Fragoso nos anime a retomar o espírito que o animou e a continuar os trabalhos que ele estimulou, para que a semente plantada cresça e faça com que o Carmelo gere muitos frutos a serviço do nosso povo, sobretudo dos pobres. frei Domingos nunca perdeu o contato com a sua origem e as suas raízes nordestinas.”
“Ontem, 3ª feira, 29 de maio 2018, em torno de meio dia, fiquei sabendo da morte do nosso confrade frei Domingos Fragoso. À noite, do mesmo dia, às 18:30 horas, celebrei a Missa por ele aqui na Igreja do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro, onde frei Domingos morou vários anos. Das pessoas presentes na missa, muitas se lembravam dele. Rezamos por ele”.
“Frei Domingos era muito meu amigo. Devo muito a ele e agradeço a Deus a longa convivência amiga que tivemos. Conheci os pais dele, tanto o pai como a mãe. Foi graças ao frei Domingos que cheguei a conhecer o irmão dele, dom Antônio Fragoso, bispo de Crateús, Ceará, e que pude trabalhar na diocese dele durante os meses de novembro e dezembro durante mais de dez anos em seguida.”

6. Maria Madalena Fragoso Ribeiro, nascida em 22 de agosto de 1931, no sítio Riacho Verde. Foi a única mulher a sobreviver, da família de Maria José e José Fragoso. Aos 4 anos já sabia ler e escrever correntemente, fez a primeira Eucaristia. Mais tarde estudou no Colégio Cristo Rei de Patos e não sentia nenhum constrangimento de dizer que tinha conseguido estudar naquele Colégio como faxineira. Depois formou-se como Assistente Social, sendo da primeira turma da Universidade Federal da Paraíba. Casou Com José Ribeiro de Mendonça tendo dois filhos. Futuramente especializou-se como sanitarista, trabalhando no Hospital Clementino Fraga, e Fundação Nacional de Saúde, participando com sucesso da formulação de Políticas Públicas de Saúde, para o Estado da Paraíba.
Aos 76 anos teve um AVC – acidente vascular cerebral, vindo a falecer.

7. João da Cruz Fragoso, nascido a 12 de maio de 1933, veio por último e irá por último. Ingressou no Seminário Arquidiocesano da Paraíba aos 11 anos e aos 13 entendeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Fez o curso ginasial e médio, pagos pelos irmãos e, aos 25 anos entrou por concurso em Banco Oficial, ingressando na vida sindical e no Partido Comunista do Brasil, Partidão, (onde passou dez anos) não por convicções marxistas, mas por entender que o Partido Comunista era o veículo mais apropriado, no momento, para denúncias, para mobilizar, para articular, com honestidade e com entrega e, não foi decepcionado. Por atividade política muito intensa junto a várias categorias de trabalhadores, com o golpe militar foi destituído do Sindicato dos Bancários e demitido do banco em que trabalhava. Depois de um período trabalhando como office-boy em casa comercial, voltou a banco privado e ao Sindicato dos Bancários da Paraíba, desta vez como Presidente. Lançado o Ato Institucional nº 5, manifestou sua indignação contra ele, através do jornal do Sindicato, denunciando os direitos violentados da população brasileira, revelando as torturas a que eram submetidos os presos políticos, passando por isso 21 dias preso e sendo destituído da Presidência do Sindicato dos Bancários. Foi preso mais duas vezes, sendo uma dessas vezes com o seu pai José Fragoso da Costa e sua irmã Maria Madalena Fragoso Ribeiro, acusados de terem denunciado extorsão por policiais federais.
Convidado por Dom José Maria Pires para Coordenar a Pastoral Arquidiocesana do Dízimo, depois por Dom Marcelo Cavalheira para Coordenar a Equipe Arquidiocesana dos Leigos, foi se convencendo que tanto a administração do Dízimo era exclusivamente do clero (só havia uma paróquia na Arquidiocese, cujo dízimo era administrado pelos Leigos), quanto aos Leigos só faziam legitimar as decisões do Arcebispo, declinou desses convites e passou a colaborar com as CEBs – Comunidades Eclesiais de Base e com os Círculos Bíblicos.
Hoje, com 87 anos, casado com dois filhos, participa de Grupos, como o Kairós - Nós Também Somos Igreja, que se formou em torno do Padre José Comblin em 1988 e de Dom Antônio Fragoso, entre outros e outras. Participa do Coletivo Cotonetes, um grupo de estudos e ação política, que se detém principalmente em análise de conjuntura. Também faz parte do Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, que tem por objetivo fazer memória das lutas do Campo no entorno do Município de Sapé e, continuar o ideário dos heróis do Campo como João Pedro Teixeira e Margarida Maria Alves.
João Fragoso - 10/12/2020

OBS: Não consegui postar junto com o texto as notas de rodapé, entre outras sobre Teixeira, cidade da Paraíba com cerca de 15 mil habitantes, 700 m de altitude, que no inverno chega, às vezes a menos de 15º.


Joca Fragoso
Enviado por Joca Fragoso em 04/02/2021
Código do texto: T7176225
Classificação de conteúdo: seguro

Comentários

Sobre o autor
Joca Fragoso
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 88 anos
8 textos (121 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/05/21 16:23)
Joca Fragoso