Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Áudio
As uvas que ficaram para trás (Thomas JS)
Publicado por: Waldryano
Data: 18/12/2019
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Narração do conto: "AS uvas que ficaram para trás"
Thomas J S

Fundo musical livre utilização youtube biblioteca.

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Texto

As uvas que ficaram para trás

Metade das pessoas olhavam-me com ódio, a outra metade com curiosidade. Mas ninguém conseguia ignorar minha presença, com aquele meu colete verde-limão, representando a mais controversa política de migração em milênios de história da civilização.

Não me importava, estava preocupado apenas com um único interlocutor: o meu avô. Antes de partir, fiquei na dúvida se deveria ir à paisana ou com o uniforme. A minha esposa tentou-me convencer a ser discreto. Talvez por pura teimosia, arrisquei.

A resposta sobre minha decisão veio quando encontrei meu avô no espaçoporto central. Ele apenas me olhou, e sorriu cordial, sem falar nada. Não perguntou como eu estava, se a nave chacoalhou ao entrar na atmosfera, não perguntou se minha esposa ou seus netos que viviam em outros mundos estavam bem. Tratou-me como um estranho.

Embarcamos no metrô até a Estação Central. Angustiado, tateei algum assunto, qualquer um, que não gerasse conflito entre nós.

- Vazia a estação, não?

- Sim, claro, vocês mandaram quase todo mundo embora. - Disse ele, de forma seca.

Era isso, não haveria diálogo fácil. Achei melhor não responder. E foi em silêncio que alugamos um carro, no totem da estação. Ninguém mais dirigia, nem mesmo na Terra, mas pedi ao computador central a autorização para condução manual. Foi meu vô que me ensinou a dirigir, e nunca esqueci do vento arenoso entrando pela janela, a música de fundo e sensação de controle.

- Você nunca soube dirigir bem, né? Até parece que regrediu. Lá não tem carro para você treinar, hein? – disse meu vô, encarando a paisagem árida, sorrindo.

Sorri também.

- Não, lá o transporte é todo coletivo. Não existe espaço para se desperdiçar com estradas...

Sua tristeza voltou de forma abrupta e sua voz saiu fraca:

- Encosta, já estamos entrando na fazenda. Tranquei a porteira.

Freei o carro e pude desviar o olhar. Havia milhares de videiras ao nosso redor. Após ele voltar ao carro, me trouxe alguns cachos de uva. Doces, brilhantes, macias.

Senti-me uma criança, pequena e inexpressiva próximo àquele mar verde, sendo tocado pelo cheiro único e sabor especial, admirado com aquela imensidão que o universo nos deu.

Lembrei-me os sucos e vinhos que ele e vovó faziam, os vários doces de uvas, até mesmo onde elas não combinavam. Comíamos até enjoar. Furtávamos taças, até cambalearmos.

...

Era bebendo um desses vinhos que estávamos juntos, na varanda da casa, vendo a noite. Uma esfera brilhante, em azul, se destacava para mim. Não era a maior, nem mais brilhante, mas eu reconheceria ela de qualquer lugar na Terra.

- Olha vô, aquele ponto azul, consegue ver? – Apontei. É lá que moramos. Essa hora, meus filhos devem estar voltando da escola.

Ele apenas assentiu com a cabeça. Aquele homem nunca havia saído daquele chão, nem do país, muito menos para as Cidades-Externas.

Sua única experiência era ao lado daquele solo frágil, ao som daquelas cigarras, que penetravam em minha mente, badalando meu crescente sono.

Depois que duas garrafas se acabarem, ele voltou a quebrar o silêncio entre nós.

- Você gosta de lá?

Eu já estava sonolento, um pouso sonso, e demorei a lembrar sobre o que ele se referia.

- Sim, gosto muito, desde que fui lá para estudar, nunca mais quis sair. Mas talvez você queira ir para algum lugar que possa plantar...

- Essas uvas aqui, eu podo elas em agosto, na lua-cheia. Vocês, estudados, podem achar que não faz sentido, mas isso muda tudo. Não haverá estação, não haverá fases de luas.

Não duvidada que isso antigamente fosse importante, mas pensar em estações na Terra atual era misticismo. Eu não queria discursar Engenheira Meteorológica, nem exibir os vídeos governamentais e panfletários sobre o assunto. Sabia que não poderia discutir. Devia mais a ele do que isso.

Mas a verdade era que o clima da Terra havia se perdido, e os mecanismos de equilíbrio ecológico naturais exauridos. A manutenção da Terra se dava por maquinários, engenharia e muito, muito dinheiro.

- Você tem razão vô. – Concordei com ele. – Mas a manutenção ecológica da Terra está inviável. É muito mais fácil manter o ar puro e água potável em cidades feitas especificamente para isso, do que adaptar um planeta tão grande. Cerca de 70% da minha geração nunca sequer pisou na Terra. Os atuais governantes apenas veem a Terra como um gasto de dinheiro, um museu muito caro de se manter.

- E você está me dizendo que um trator espacial vai vir, arrancar a terra, destruir meu vinhal... Vinhal da nossa família a séculos, e levar o que sobrou para uma cidade espacial... Porque alguns empresários ricos e o governo acham que aqui não dá mais lucro?

- Sim, vô. É exatamente isso. - Respondi, melancólico. Entendia sua raiva por eu participar disso, por minha conformidade. Mas a destruição de nosso planeta era muito anterior a mim. Sentia-me responsável em apenas fazer o melhor que pudesse para quem ficou. Continuei:

- Seria melhor que você fosse embora no programa de migração. Antes que desliguem todos os controles deste lugar. Eles dizem que vão esperar uma geração, mas quem garante? Eu verei com o pessoal da Agência de Reestruturação se podem separar esse solo, da sua chácara, para você. Você pode ensinar seus netos a plantar, que tal?

Ele sabia que não teria escolha. Sabia que era melhor ir comigo e meu colete verde-limão, que estampava em preto as iniciais do Programa de Migração. Seria pior se viesse alguém fardado e uma ordem de despejo.

Duas semanas depois partimos, e, após muito esforço e contato, consegui reservar uma parte do solo que ele já foi dono. Fiz questão de acompanhar enquanto retiravam cada contêiner de solo, e mesmo quando o embarcaram nas enormes docas espaciais, até o seu destino.

...

Toda a mudança, dele e de vários outros resistentes, me deixou ocupado. Demoraram quase dois anos para que eu pudesse visita-lo com calma em seu novo lar. Um pequeno lote de cerca de seiscentos metros quadrados em uma “lua” artificial, onde se concentrava os plantios extensivos.

E ao fundo de sua casa, várias videiras, ocupando um terço de todo o terreno.

Meus filhos riam e elogiavam os doces, faziam careta ao beber o forte suco natural. Eu apenas senti um amargor diferente do que eles. Sabia que as uvas nunca mais seriam tão suaves e macias.

Senti-me uma criança, pequena e inexpressiva no meio daquele esboço de paisagem, sendo tocado pela frieza do destino, assustado com aquela pequeneza que o homem criou.
Thomas J S
Enviado por Thomas J S em 04/11/2019
Reeditado em 11/11/2019
Código do texto: T6787119
Classificação de conteúdo: seguro

Comentários

Sobre o autor
Waldryano
Telêmaco Borba - Paraná - Brasil
250 textos (12959 leituras)
45 áudios (1612 audições)
5 e-livros (82 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 29/09/20 15:04)
Waldryano
Rádio Poética