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O autismo e o luto do filho típico


Quando a gente fala a palavra luto, muitas pessoas condenam, acham forte, porque ligam a palavra apenas a morte física, mas na verdade o luto é um estado de espírito que nos coloca em uma tristeza profunda pelas mais variadas motivações, quem nunca teve aquele luto do término de um grande amor, que atire a primeira pedra...
Assim acontece quando nos deparamos com a frase: seu filho está no espectro autista. Pra início de conversa preciso falar o seguinte: não fui eu a primeira pessoa a perceber que João estava apresentando um comportamento diferenciado, pelo contrário, quando começaram a me falar que tinha algo diferente com o meu filho, eu neguei, fiquei com muita raiva de todos que vinham conversar comigo a esse respeito. Até porque, mesmo depois que ele perdeu habilidades: parou de falar totalmente, até 1 ano ele falava 3 palavras, não atendia pelo nome, brincava e fazia questão de estar sozinho, enfileirava tudo, andava na ponta dos pés, era fissurado em objetos que giram e uma infinidade de sinais q ele nessa época já apresentava, mas pra mim tava tudo bem, eu ia a pediatra e ela me falava exatamente aquilo que eu queria ouvir: cada criança tem seu tempo, ele vai falar, ele vai interagir, fica tranquila...
Então eu me vestia nessa capa protetora dada pelas palavras dos pediatras, e relutava até mesmo em levar João ao neuropediatra, na época eu dizia pra mim mesma e pra todos, que tudo ia ficar bem, meu filho só precisava que deixassem ele em paz, pra se desenvolver no tempo dele, eu neguei, neguei e neguei, até enquanto pude, confesso... Até por isso que quando vejo pais e mães negando, eu literalmente entendo e não julgo, aliás, se tem uma coisa que o Autismo tem me ensinado é a não julgar outros pais e mães, pois cada ser humano é um universo inteiro, e cada um dentro do seu universo vai ter uma reação diferente em relação a tudo que o TEA trás pra sua vida.
Após o período da negação, eu me dei conta que precisava saber o que se passava com meu filho e independente do que fosse eu tinha que continuar firme, porque o meu papel de mãe é seguir de mãos dadas com o meu amor dando todo o suporte que ele precisa.
Quando o neuropediatra me deu a resposta, na verdade a resposta já estava dentro de mim, porque mesmo quando ainda estava na fase da negação, eu li muito, e já sabia que João tinha todas e mais algumas estereotipias,  comportamentos e déficits característicos do autismo. E mesmo já tendo a certeza antes do neuropediatra confirmar, o dia do diagnóstico foi triste demais, eu chorei, chorei, chorei muito... Fiquei ali no meu luto chorando 3 dias e 3 noites sem parar, não dormia, vivia lendo... Buscando respostas de como faria pra ajudar meu filho, agora que ele não era mais uma criança típica: aquela que vai falar no tempo certo, responder a comandos, brincar com as outras crianças, se alimentar normalmente, dormir bem... Na verdade, o luto que me acometeu, com a graça de Deus não foi a morte física, mas foi a morte da idealização do filho típico, afinal, mulher nenhuma no mundo quando está grávida, imagina ou deseja ter um filho "especial", essa na verdade é uma maternidade que ninguém deseja, mas que a vida faz com que você consiga ir se adaptando e vivendo um dia após o outro, comemorando cada pequeno progresso como se fosse o prêmio da copa do mundo, valorizando cada detalhe e vivendo com mais intensidade o seu tão sonhado papel de mãe. E é o amor que faz você seguir, entre tentativas, erros e acertos rumo a luta pelo desenvolvimento e felicidade do seu filho, hoje eu sei o quanto ele é capaz e pode me surpreender... Você que está agora com o diagnóstico, achando que tudo acabou... Calma, tenha fé, o caminho é longo, tortuoso, difícil sim, mas seu filho não é um diagnóstico, ele continua sendo aquela criança linda e abençoada que mesmo não sendo aquela que você tanto idealizou, ela tá ali, esperando ser amada e ajudada e é inteligente, focada e muito, mas muito capaz de coisas fantásticas, basta vc ter fé, nunca desistir e seguir firme sem limitá-la ao diagnóstico... Afinal mesmo diferente das suas idealizações ,ela te dará muitas alegrias dentro do seu tempo e possibilidades, é a sua criança autista, que a faz apenas diferente, mas com igual importância no seu mundo e em todos os mundos possíveis.
Poliana Gatinho
Enviado por Poliana Gatinho em 22/10/2019
Código do texto: T6775930
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Poliana Gatinho
São Luís - Maranhão - Brasil, 36 anos
10 textos (274 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/19 15:54)
Poliana Gatinho