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OS HOMENS EXTRAORDINÁRIOS

“Sei agora, Sônia, que para os homens o senhor é aquele que possui uma inteligência poderosa. Quem ousa muito tem razão aos olhos deles. Aquele que despreza mais coisas, é o legislador deles, e o mais ousado de todos é o que tem mais razão.”

Com essas palavras Raskólnikov, o “herói” da obra-prima de Fiódor Dostoiévski – aquele que, de forma dramática, descobriu que não era um dos “homens extraordinários”; um dos escolhidos para guiar o rebanho e decidir o rumo das coisas –, nos concedeu uma pequena pista capaz de clarear-nos a senda que nos leva ao conhecimento sobre como ocorre a ascensão desses chamados homens especiais – os Homens Extraordinários! – no seio de uma sociedade.

Eles são os portadores das chaves que abrem os portões que dão acesso aos tesouros do progresso e das conquistas materiais!

Eles são os “donos do poder”. Os comandantes dessa “nau” que chamamos Terra. Os portadores das “chaves da felicidade!”. Aqueles que, munidos de toda a rigidez de espírito necessária, são capazes de fazer do nosso simplório e acanhado mundo, aos olhos dos “mais fracos”, um verdadeiro mundo encantado que eles devem, com todas as suas forças, almejar um dia dele fazer parte.

Como um AlexaNdre, O Grande! O suposto herdeiro direto das qualidades de Hércules, o Erades, e de Aquiles, o formidável Aquiles!

O anunciador de uma “nova era” para o mundo. Aquele que foi anunciado
com bastante antecedência – aliás, como deve ser praxe quando trata-se do anúncio de um “deus.”

Alexadre da Macedônia (356 a 323 a.C.), filho de Filipe e Olímpia. O sensato, correto e cerebral, mas, paradoxalmente, de ímpeto colérico.

Capaz de, sob os eflúvios vaporosos do vinho, e tomado nos braços por Dionísio, simplesmente eliminar qualquer possibilidade de conciliação e harmonia à sua volta.

Um homem que, movido pelo desejo de glória, era capaz de exibir uma determinação poucas vezes vista na história. E que antes, muito antes da era dos“coachings”, já insistia na importância de se construir uma sólida rede de relacionamentos; relacionamentos que já foram determinantes, inclusive, para salvar-lhe a vida nos campos de batalha – a vida de um dos nossos “Homens Extraordinários!”

A história nos conta que Alexandre teria ouvido (de forma equivocada) do próprio oráculo de Amon (o deus egípcio), na cidade de Menphis, que era sim um filho legítimo de Zeus,  e que vinha ao mundo para, de certa forma, confirmar a sua glória.

Sim, ele já antecipava o Cristo! Já nos havia sido enviado o “Filho de Deus!” Era o comandante do exército mais poderoso até então conhecido! Estranhamente capaz de demonstrar equilíbrio e desequilíbrio em igual medida; uma serenidade incomparável; mas que poderia –  também estranhamente –  ser substituída pela mais inacreditável destemperança ao ser contrariado ou contestado.

Mas esse não foi, de maneira alguma, o único “semideus” a nos brindar com a sua magnífica presença entre nós. Houve também um outro Homem Extraordinário!

Sim, esse nosso tão acanhado mundo também teve a honra de abrigar outro “enviado dos deuses”. E ele atendia pelo nome de Napoleão, o Napoleão Bonaparte!, Imperador da França de 1804 a 1814.

Segundo esse outro exemplar de homem extraordinário, “só é bom o que os espíritos superiores na terra determinarem que é bom. Assim como será ruim o que eles também determinarem que é ruim. Aos 'espíritos esclarecidos' cabe decidir o que é bom ou mal na terra; o que significa que lhes cabe dizer o que é bom ou mal aos olhos de Deus.”

Caberia a Napoleão (e são palavras dele) “Fazer com que a França (e toda a humanidade) entrasse no seu estágio mais evoluído!” Sim, ele acreditava ser o responsável por (de posse de todas as manifestações do espírito) levar a cabo todas as realizações necessárias para mudar o nosso planeta (a começar pela Europa, obviamente) de patamar.”

Homens Extraordinários!

Era o “Messias da Humanidade”. Era o ser, segundo a opinião de inúmeros historiadores, que planava com a sua visão de águia por sobre a Europa.

Para Nietzsche, “O século que está para chegar seguirá os passos de Napoleão, o maior dentre os homens e o empreendedor que mais se sobressai nos dias atuais.”

Para Victor Hugo, “No início deste século a França constituía para as nações um magnífico espetáculo. Um homem a enchia então e a tornava tão grande que chegava a ocupar a Europa. Esse homem, saído das sombras, tinha atingido, em poucos anos, a mais alta realeza que talvez jamais tenha assombrado a história.”

Ele ofuscaria Carlos Magno. Apagaria o brilho de Luis XIV. Tornaria as façanhas de Alexandre meras peraltices de criança. E transformaria a França no “Sol” entorno do qual todas as demais nações girariam.

Homens Extraordinários!

Ele iria unir razão e emoção, ciência e sentimento, para simplesmente mudar os rumos da história! A sua dinastia iria alcançar, como nenhuma outra, o mais alto patamar a que pode chegar o espírito humano!

Este não seria outra coisa senão a ressurreição da linhagem dos Césares e de Carlos Magno. A proposta napoleônica já não era apenas a conquista do poder na França. Sem nenhuma modéstia, Napoleão iria ressuscitar o império de César. Iria redesenhar a geografia da Europa e, consequentemente, do mundo conhecido.

Para o escritor François-René de Chateaubriand, Napoleão era o exemplo vivo, o exemplar clássico de um governante que governa para a sua glória e não para a do povo. Tudo o que ele via eram apenas números, e mais números – era a encarnação mais inequívoca do tecnocrata insensível na mente de um guerreiro impiedoso.

Homens Extraordinários!

Negação da moral, ausência total de escrúpulos, desprezo pelos “inferiores”; enfim, as “qualidades” típicas dos “homens extraordinários” podiam ser contempladas em todo a sua expressão no imperador francês.

Sem qualquer escrúpulo, ele intimidava os inferiores; instigava a queda moral dos que até então eram considerados símbolos de dignidade; fazia ruir, como um castelo de cartas, a reputação dos homens ante o seu assédio com benesses e recompensas  –  tudo isso como um típico “homem extraordinário”.

E, ao final, assumiu o controle da opinião pública, transformou políticos em meros serviçais, garantiu uma roda bastante confortável de bajuladores, calou a imprensa, sufocou qualquer tentativa de rebelião civil – tudo isso como um exemplar típico de um homem extraordinário, a quem tudo é permitido, e para quem tudo é concedido.

E o que dizer de Júlio César!, o “divisor de águas” da Roma Antiga! A encarnação da passagem de Roma de uma república para um verdadeiro Império! Ditador absoluto de 49 a 44 a.C! Sim, outro Homem Extraordinário!

Este teria dito, segundo Cícero, que “Se houver necessidade de violar o direito em prol da governabilidade, que o faça! Já nos outros casos, aí sim, atentemos para a lei.”

Afinal, quem mais, além de um homem extraordinário, seria capaz de tomar as mulheres de homens ilustres da sua época, como as de Aulo Gabínio, ou a de Marco Crasso, ou mesmo a do eminente Pompeu –  por mais inacreditável que isso possa parecer!

Somente um Homem Extraordinário!

Júlio César! Aquele que dedicou a sua vida a tentar ao menos igualar-se, em feitos, a Alexandre!

Segundo Plutarco, um hábil estrategista como nenhum outro general romano sequer sonhou ser. Aquele que buscou, tenazmente, a demolição da até então inigualável República Romana.

César era simplesmente uma “continuação” ou o portador do fluido que animava Alexandre, O Grande. Era a síntese de Ulisses e Hércules, segundo Dião Cociano. Era o ser que, “ao conquistar o mundo conhecido, trabalha, em silêncio, pela causa da humanidade.”

Como um bom Homem Extraordinário, que a ninguém deve desculpas ou explicações, Júlio César simplesmente invadia cidades, atacava inimigos, combatia contra amigos; não perdia qualquer oportunidade para provocar uma guerra, mobilizar tropas, derramar sangue; mesmo que para isso não tivesse nenhum motivo aparente.

Como um verdadeiro Homem Extraordinário, ele desejava o poder absoluto; se autoproclamava “César, ditador de tal ou tal província”; distribuía cargos por interesses; incluía, de alguma forma, o povo na montagem de governos; promovia festas, jogos, comemorações que ofuscassem as mazelas do seu governo e ressaltassem as virtudes; até, enfim, como um ato típico de quem já se vê acima de tudo e de todos, realizar a tão famigerada “Travessia do Rubicão” (pequeno rio que dava entrada à cidade de Roma), em formação de batalha, desafiando, de forma inquestionável, a autoridade do Senado Romano – que, afinal, queria destruir.

E a resposta do Senado? Ora, ele só tinha mesmo como última tentativa de sobrevivência recorrer à autoridade que lhe era concedida pelo povo. Sim, era por meio de uma autoridade concedida por este que eles falavam, decidiam os rumos das coisas e o destino da nação.

Ah, mas o que os seus representantes não contavam era que o povo agora estava com César!

Sim, o povo já tinha escolhido mais um dos seus Homens Extraordinários, ao qual daria plenos poderes (inclusive para criar as suas próprias leis), enquanto este, obviamente, se comportasse como um verdadeiro Homem Extraordinário deve se comportar.

Sim! A ele, César, tudo seria permitido; tudo seria concedido;mas somente enquanto pudesse oferecer os seus “dotes extraordinários” para o governo da nação. Enquanto pudesse oferecer o seu arrojo, falta de escrúpulos, iniciativa, disposição, orgulho, vaidade, sede de poder e violência extrema às necessidades e reivindicações do povo.

Até que, como todos os outros homens extraordinários, fosse convidado a retirar-se do altar que lhe fora erguido; fosse convidado a abrir espaço para a ascensão de outro homem extraordinário; a partir do momento que se notasse que toda essa “extraordinariedade” não atendia mais ao fim para o qual fora designada.

Isso mesmo! Eis a ironia! A ascensão de um homem extraordinário ao poder é uma concessão feita pelo povo! Este, de forma silenciosa e “não-dita”, permite o surgimento de homens extraordinários –  com ações e pensamentos extraordinários –; e permite, inclusive, que eles cometam todo tipo de excessos, desde que, de alguma forma, resultem em benefício para a nação.

Eis a ironia!

Pois foi o que fez Júlio César, por exemplo. Aceitou os excessos de honrarias, um governo absoluto e contínuo, ditadura a plenos poderes.

Utilizou o título de Imperador antes do nome. Se autoproclamou “O Pai da Nação”. Aceitou que lhe fosse erguida uma estátua de ouro em homenagem a “um dos maiores que já nasceram sob a República Romana”.

Além de  aceitar privilégios somente concedidos aos deuses, ofertas de sacrifícios, construção de templos para que fosse cultuado, um mês do ano com o seu nome, altares, liteiras, a primazia de determinar o que seria ou não maus presságios e obras dos deuses, entre outras inúmeras honrarias que não deixavam dúvidas de que ali estava um “Homem Extraordinário.”

Mas havia um problema para César (assim como para todos os outros): Tantas concessões, honrarias e permissividades deveriam ser usufruídas ao seu bel prazer, mas somente até que fosse convidado a sair de cena!
Sim, até que, movidos pelo descontentamento geral com relação aos seus desmandos e excessos, um grupo de conspiradores tramasse o seu assassínio, aos 56 anos, em uma das passagens mais célebres da nossa história.

Sim, era o fim de César! Mais um “semideus” era convidado a sair de cena! Mas somente após terem se convencido de que nem o povo estava mais satisfeito com as suas ações –  que em nada contribuíam para a sua melhoria, além de aprisioná-lo.
É quando descobrimos, surpresos, que a massa inculta, o povo bárbaro, o rebanho aparentemente oprimido e indefeso esconde um poder verdadeiramente extraordinário!

O poder de elevar “Homens Extraordinários”! O poder de lhes conceder licenças e permissões que lhes poderão ser retiradas a qualquer momento; desde que, por algum motivo, comecem a fraquejar e deixem, como num passe de mágica, de comportarem-se como homens extraordinários!

Aliás, não é digno de nota saber que, para o grego antigo, um herói é apenas e tão somente aquele que executa uma tarefa extraordinária – mesmo que seja a destruição total de uma cidade, com as suas mulheres e crianças –,  como algo que até então era considerado impossível a um humano?

Não é digno de nota saber que, mesmo sendo maus, os seus atos, desde que sejam extraordinários, os elevarão à categoria de semideuses, com direito a todos os tipos de honrarias, sacrifícios e oblações?

Pois bem, o avanço ou progresso da civilização se dá de forma interessantíssima!

Os “homens ordinários” policiam-se uns aos outros para que não ultrapassem certos limites, não saiam dos seus lugares “ordinários”, da posição que lhes cabe (conservadora e escrupulosa); enquanto, com os olhos ávidos e aguçados, espreitam o surgimento de um homem extraordinário, aquele que irá sujar as mãos por eles, abrir mão de todos os seus escrúpulos, cometer todos os excessos que eles, os “homens ordinários”, não querem ou não são capazes de cometer, mesmo em prol do avanço da nação.

Para isso eles precisam de um “Homem Extraordinário.”

Sim, eles precisam de um César, de um Napoleão! A eles cabe sujar as suas mãos! Afinal, eles não passam de “forças cegas”, não é mesmo? De simples bestas! Bestas-feras!, com os tão providenciais e úteis caracteres da psicopatia!

Eles é quem têm os caracteres necessários para cometer todos os excessos que o avanço de uma sociedade necessita, mas que faltam aos homens ordinários –  que é a maioria absoluta de uma nação.

Então, quando eles percebem um desses homens extraordinários, lenta e insidiosamente a procurar espaço, a enveredar-se pelos assuntos públicos, a identificar-se com as áreas de comando e com os assuntos gerais, então é um deleite!

Os “homens ordinários” – os supostos oprimidos por essa malta de maldosos opressores – não perdem tempo em estimular os seus ímpetos de poder!

De forma não-dita e inconsciente esses homens ordinários logo o elegem como o seu líder, o comandante, o deus a quem deverão ser concedidas as chaves da nação, para que, com a ajuda dos seus caracteres extraordinários, trabalhe em prol do seu avanço.

Mas só há um problema: Essa extraordinariedade não pode, de maneira alguma, ser a regra, um costume; e muito menos ser algo democrática! Não, nada disso!

E é por isso mesmo que logo que se percebe os exageros desse líder – ou assim que se percebe que ele deixou de ser (ou na verdade nunca foi) um “homem extraordinário” – , corre-se a toda brida a destituí-lo do poder, retirar-lhe as suas permissões, condenar as suas ações.

Até que, não raro, o miserável (que até pouco tempo era um “homem extraordinário”) seja convidado a fornecer o seu pescoço à corda do carrasco, à guilhotina, à bala certeira e fulminante.

E dessa forma, o mais rapidamente possível, evita-se que o seu exemplo contamine os “ordinários”, que por um acaso venham a sentir-se motivados a executar determinadas ações.

Eis tudo!

Eis em que consiste a verdadeira relação entre “opressores” e “oprimidos”. Eis a relação doentia entre os “homens ordinários” e os “extraordinários”. Eis em que consiste essa estranha correlação de forças, silenciosas e não-ditas, que atuam para o bem da sobrevivência e da perpetuação da espécie.

Opressores e oprimidos,  dois lados da mesma moeda. Os dois extremos de uma corda. Verdadeiros cúmplices a executarem os seus papéis sobre os quais nem um nem outro deve ter qualquer ingerência.

Vítimas e carrascos sempre em um mórbido revezamento das suas condições. Pólos opostos. “Extremos que se tocam”. Personagens caricatos desse teatro produzido pela “vontade”, pelos arquétipos, pelas instâncias psíquicas e pelas mais grotescas e singulares contradições.


Erânio
Hemerenciano
Enviado por Hemerenciano em 06/09/2019
Reeditado em 07/09/2019
Código do texto: T6739066
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Hemerenciano
Salvador - Bahia - Brasil, 43 anos
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