Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Os Exercícios Espirituais e o meu caminhar CVX

Após o casamento, sentíamos que o Treinamento de Liderança Cristã – TLC, movimento do qual participávamos em Belo Horizonte, não mais estava atendendo aos nossos anseios e necessidades. Foi então que nos chegou a surpresa. O Pe. Roberto Albuquerque sj, contava-nos ter conhecido algo mais apropriado. Chamava-se Comunidade de Vida Cristã – CVX e originava-se das Congregações Marianas. Num primeiro momento torci o nariz, pois que conhecíamos bem o conservadorismo das Congregações, mas logo em seguida entramos de cabeça na novidade. Pouco tínhamos podido viver dela quando, passados poucos meses, por conta do trabalho, mudamos para a Amazônia. Somente quando viemos para o Rio de Janeiro em 1988, foi que retomamos a experiência inaciana através da CVX.

Ser CVX é viver a dinâmica dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, por isto falar dela é também tratar dos Exercícios. Afinal, a CVX não se sustenta sem eles. O Princípio Geral 5 não poderia ser mais explícito: “...consideramos os Exercícios Espirituais de Santo Inácio como a fonte específica e o instrumento característico da nossa espiritualidade.” (1)

Digo, com muita tranquilidade, que não conseguiria explicar minha vida de discípulo missionário, sem que houvesse nela a vivência continuada dos Exercícios Espirituais. A minha vocação é ser CVX e sou comprometido permanentemente com ela. Por isto, posso afirmar que são os EE que dão sentido ao meu modo de ser e de viver a fé.

Tal como uma tatuagem, a marca da espiritualidade inaciana, através dos Exercícios Espirituais e da CVX, realizou mudanças profundas na imagem de Deus que eu carregava. O Deus no qual creio é muito diferente, muito maior, mais bonito e bondoso, do que aquele que me foi apresentado lá nos idos da infância. Imagens idolátricas foram deixadas de lado, para que surgisse em mim a imagem do Deus de Jesus, o Deus dos Exercícios. Como num cristal, esta imagem divina se multiplica e dentre um número bem grande delas, considero dez como mais significativas, ei-las:

1 - DEUS É BOM
Os Exercícios fizeram com que os fantasmas de falsos deuses dos tempos de menino e que teimosamente me assustavam vez ou outra, fossem exorcizados. Aos poucos me foi surgindo a imagem da bondade de Deus. Essa imagem de que o Pai é sempre bom, posta em todo o Evangelho, se faz mais plena ainda nessas palavras de Jesus ditas pelo Evangelista: “Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!” (Lc. 11,13). Deus é bom e disto não tenho dúvida. Tão profunda está em mim esta imagem que a assumi como consigna durante os meus Exercícios de Trinta Dias. (1)

2 – DEUS É LIBERDADE
Os Exercícios são experiências libertadoras. Realizá-los é se tornar mais livre. Eles me libertam das amarras de experiências cristãs pequenas e negativas. Das imagens de um deus mesquinho, semelhante a um capataz sisudo, chicote na mão, a anotar minhas faltas para punir. Era um deus que me prendia a uma religião de preceitos e piedade pessoal. Recordo-me de um amigo chegado há pouco dos Exercícios a me dizer que a liberdade que sentia era tamanha, que até tinha receios de chocar pessoas que estivessem muito presas à Lei. “A gente retorna tão livre...”, ele me disse. Não por acaso, observo hoje o quanto a liberdade que o Papa Francisco apresenta, incomoda a tantos. Deus é liberdade e essa imagem se reforça cada vez mais em meu coração.

3 - DEUS É MAIS
Os Exercícios me presentearam com um Deus que jamais me acomoda, me estabiliza. Ele é sempre mais. Tal verdade se apresenta desde o começo da experiência. Já no Princípio e Fundamento, Santo Inácio me apresenta o “magis”. Viver os Exercícios é não se contentar com as agradáveis “zona de conforto”, as “cebolas do Egito”. O Deus mais dos Exercícios está sempre a me impelir para o maior, o mais alto, o mais universal e portanto mais divino. Essa busca do “magis” me incita a dar o máximo de mim, me convida a me perguntar a cada passo: e se fosse mais? Deus se manifesta na montanha e esta imagem bíblica constitui-se em significativa metáfora a me lançar para o cume.

4 - DEUS INTERIOR
Já na primeira anotação dos Exercícios, o Santo me fala das “afeições desordenadas”. Ensina-me que a experiência tem por objetivo tirá-las, para que possa ser buscada a vontade divina. Viver os Exercícios é mais me conhecer. É ter ânimo e coragem para virar os olhos. Deixar de mirar em volta e volvê-los ao próprio coração. “Deus é mais íntimo em mim do que tudo o que há no meu íntimo”, dizia Santo Agostinho. Nessa busca do mais me conhecer, encontrei uma sabedoria antiga que muito me auxilia. Trata-se do Eneagrama, também chamado de “As Nove Faces de Deus” (3). Através dele vou me conscientizando e me libertando do que me afeta, da raiz que se oculta por trás das minhas desordens, os meus pecados. O Eneagrama é uma ferramenta eficaz de apoio na espiritualidade inaciana e é pena que alguns instrutores não o tenham ensinado com o devido cuidado. Isto fez com que seja visto com reservas por várias pessoas. A imagem do Coração de Jesus denota para mim esse Deus interior dos Exercícios.

5 - DEUS COMUNIDADE
Da mesma forma que a Trindade Santa, também a CVX se faz comunidade. É interessante reparar que tal verdade me é dita no singular, como que a me provocar a que não me veja separado mas, como a Trindade, no interior de uma comunidade única, distribuída em pequenas células. É impossível para mim conceber a espiritualidade inaciana cerrada em si mesma, ou focada na piedade pessoal. Os Exercícios têm como meta me inserir no corpo maior da Igreja. Fazem-me membro dela como CVX. Não por acaso, antes de dar por encerrada a sua obra, o Santo deixou registradas as Regras para Sentir com a Igreja (EE 352 a 370). Obviamente que algumas estão datadas, mas o seu espírito, desde que atualizadas, permanece vivo. Como filho da Igreja, preciso cuidar dela e lhe ser obediente. Não uma obediência passiva, feita só do “sim, senhor”, mas ativa e discernida. Uma obediência profética, ouso dizer. Há na Igreja coisas necessitando serem mudadas e ao repará-las, bem poderá ser que a minha obediência ativa, feita no discernimento, gere incômodos. Por conta dela a Companhia de Jesus foi supressa e muitos dos seus filhos viveram, e continuam a viver, problemas com a hierarquia eclesial.

6 - DEUS SERVIDOR
A Trindade Santa se reúne, mira o mundo e se condói com as guerras, pecados e sofrimentos. Decide então enviar o Filho para salvar a humanidade. É assim, deste jeito singelo, que Santo Inácio nos apresenta a Encarnação. Jesus se humaniza não para ser servido, mas para servir. É para ajudá-lo na obra da salvação que me são apresentadas as meditações da Jornada Inaciana e também se me fazem, insistentes, as três perguntas: “que fiz, que faço e que farei por Cristo?” Jesus é o servidor por excelência e contemplá-lo tem por objetivo me fazer servidor do Reino. Ele serve para que eu também sirva. Num jogo bobinho de palavras acho que posso dizer que “aquele que não serve, não serve para nada”. O servir me leva, muito além do que a ser bom, que é passivo, a uma atitude ativa de fazer o bem. A CVX não tem apostolados específicos. O campo para o serviço do membro CVX é o mundo, também está a me ensinar os Princípios Gerais. O Documento de Aparecida ao me apresentar a figura do “discípulo missionário”, bem como o Papa Francisco a me dizer que quer uma Igreja em saída, que “prefere uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”, reforçam em mim o apelo feito pelo Senhor, para que me torne um discípulo servidor.

7 - DEUS POBRE
A imagem refulgente e plena de glória do Cristo Rei com cetro, trajes de veludo vermelho e coroado com ouro e brilhantes, me encantava. Achava, bem no espírito da cristandade, ser necessário mostrar aos homens tal riqueza e poder. Os Exercícios vieram me mostrar que, ao contrário, Deus é pobre, totalmente pobre, o mais pobre de todos. Ele nada tem e por nada ter, Ele é tudo. Deus não tem, Ele é. Não foi simples para mim chegar até aqui. Houve muita contemplação, meditação, estudo, e oração para me livrar daquele Deus todo poderoso, tal como o são os poderosos do mundo. Se para mim, que nunca vivi sob a monarquia essa imagem falsa foi complicada de ser tirada, imagino o quão complexo isto se dá, para quem vive sob o regime monárquico. A partir dessa imagem da pobreza de Deus entendi melhor o Evangelho. A história a respeito da mãe de Jesus, que me foi contada pelo Pe. José Luís Caravias sj, espanhol no Paraguai, ilustra esta dificuldade com o Deus Pobre. Vivia-se por lá as agruras da ditadura do general Stroessner. Para não ser eliminado, eis que o buscavam, ele se exilou. Peregrinou por alguns países sem poder parar em nenhum. Nuvens escuras cobriam quase toda a Região. No Equador, seu porto seguro, assumiu uma paróquia nas periferias de Quito. Incomodava-o a pompa com que trajavam a imagem de Nossa Senhora. Eram mulheres, pobres, com dificuldades de comprar a própria roupa e a comida da família, que gastavam do essencial para cobrir a Mãe de Deus com vestidos pomposos, semelhantes aos das velhas cortes europeias. Aquela roupa não combinava com a comunidade paupérrima e umas freiras o ajudaram a mudar a indumentária de Maria. Vestiram-na com roupas coloridas, bem bonitas e alegres. Ficou parecida com as paroquianas de lá. A comunidade se pôs em polvorosa, a mudança não deu nada certo: “Esta mulher, com as roupas feias, não é a nossa mãezinha”, reclamavam chorosas. E Maria teve que retornar à sua pompa estrangeira antiga. Deus é todo poderoso sim, mas não todo poderoso em bens. Ele é todo poderoso na pobreza do Amor.

8 – DEUS MISERICÓRDIA
Cultivei uma imagem dura de Deus, aquele do Primeiro Testamento, e os atributos dele que se sobressaiam eram os de guerreiro, força e até mesmo de retribuição (era um deus vingativo). Naquela imagem anterior aos EE, havia um deus com grandes dificuldades de perdoar. Um deus com um caderno terrível, no qual tudo permanecia, indelevelmente, registrado. Ao contrário, hoje o tenho como absolutamente misericordioso. Deus paciente que nunca se cansa de mim, mesmo que, em vários momentos, tenha me cansado dele. Passar pela Primeira Semana é se dar conta dessa misericórdia. Não conseguir se sentir redimido, amado por esse Deus tão misericordioso, impede que se prossiga adiante nos Exercícios. Sou pecador, sim, mas pecador perdoado, os EE insistentemente me repetem. Uma história para crianças, aprendida de uma catequista, retrata bem essa extensão da misericórdia e perdão de Deus: Somos ligados a Ele por um fio invisível. A linha sai dos nossos corações e sobe aos céus nos atando ao coração de Deus. A questão é que quando pecamos cortamos esse fio. Ao me reconhecer pecador e buscar o perdão, o Senhor pega o cordão que eu parti, e o amarra novamente. Fato é que quem tem mais amarras na linha se encontra mais perto de Deus. Não será por isto que os santos se consideram grandes pecadores? Esse aspecto da misericórdia divina, me faz compreender melhor a Sequência Pascal de Santo Agostinho e assim posso cantar mais forte: “Óh culpa tão feliz que me há merecido a graça de um tão grande Redentor”.

9 - DEUS JUSTO
O Deus da minha infância morava em um imenso tribunal. Era um deus juiz e passava todo o tempo me vigiando e me julgando. A justiça dele era implacável. Sem dúvidas, que era um deus justo, só que duríssimo e frio como o aço. Aquela imagem de deus me provocava pavor. Era evidente que, por conta da sua dureza e frieza onisciente, onipotente e onipresente (6), eu não conseguiria em nenhum momento me safar dele. Aquela justiça, bruta demais, me gerava o grande medo de que poderia terminar no fogo eterno. Contaram-me, por aquela época, uma história que me marcou bastante. Dizia de um homem idoso e que só tinha feito o bem nos seus oitenta anos de vida. Uma noite, esse velho, retornando para casa, sentiu fome. Parou diante de uma banca de frutas e escolheu uma maçã. Meteu a mão no bolso e se deu conta de que deixara o dinheiro em casa. Esticou o braço para devolver a fruta e então reparou que o vendeiro olhava para o outro lado. Veio a tentação e ele enfiou a maçã dentro do paletó. Despistou e saiu como quem não queria nada. Depois de virar a esquina pôde se deliciar com a fruta. Ainda a saboreava quando, ao atravessar a avenida, foi atropelado por um caminhão. Morreu em pecado mortal e aí não havia mais jeito: o pobre ladrão da maçã passa a eternidade no mais profundo dos infernos. Que terrível ter um deus assim, tão bruto, tão duro, tão insensível. Vieram os Exercícios e me trouxeram um Deus totalmente diferente: o Deus de Jesus. Ele não é um juiz frio e implacável. Deus é Amor e o Amor se recusa a fazer julgamentos assim. Creio em um Deus que chora com a injustiça e o sofrimento. Deus que se entristece com as faltas e os corações duros dos seus filhos. “Quem me vê, vê o Pai”, “Eu e o Pai somos um”, dizia Jesus. Sim, Deus é justo, infinitamente justo. Mas Ele também é misericordioso, totalmente misericordioso. E aí me dei conta de que a minha dificuldade de perceber, desta maneira, esse atributo da justiça divina se devia a que não junto justiça e misericórdia. Ou sou justo e cobro ou, ao contrário, sou misericordioso e perdoo. Em Deus essas são faces da mesma moeda: Deus é justo e misericordioso. Totalmente justo e totalmente misericordioso. Aprendi também que esta imagem de Deus contém uma tentação: a de vê-lo como um bonachão, um vovô sem voz ativa, com quem os netos podem fazer gato e sapato. Deus é bom na sua infinita justiça misericordiosa, mas Deus não é bobo e muito menos um banana.

10 – DEUS CRIADOR
Reparando hoje na imagem de criador do deus da minha infância, me dou conta de que ela se parecia bem mais com um personagem também daqueles tempos, o excêntrico “Professor Pardal” das revistas em quadrinhos. Era um deus que ficava tomando conta da sua criação, que vigiava os astros, calculando suas rotas e cuidando para que não se perdessem das suas órbitas e causassem tragédias. Entendia a criação do mundo na poesia do Gênesis com os verbos apenas no passado: “Deus criou e não como uma metáfora do presente: Deus cria. Essa imagem de deus, era a que me dizia que tudo aquilo que ninguém soubesse explicar, nada mais eram do que os tais famosos “mistérios de deus”. O deus do trovão era o clássico exemplo disto. O problema é que, na medida em que a ciência caminha e vai explicando os mistérios, esse deus, obviamente, murcha na mesma proporção. E Deus mesmo, o verdadeiro, jamais diminui, ao contrário, Ele sempre cresce. Dizia um teólogo que “quando Deus trabalha, o homem sua”. Sinto que essa imagem explica bem a imagem de Deus criador que fui ganhando na CVX e nos Exercícios de Santo Inácio.

1 – Princípio Geral 5 - A espiritualidade da nossa Comunidade está centrada em Cristo e na participação no Mistério Pascal. Brota da Sagrada Escritura, da liturgia, do desenvolvimento doutrinal da Igreja e da revelação da vontade de Deus através dos acontecimentos do mundo de hoje. Dentro do contexto destas fontes universais, consideramos os Exercícios Espirituais de Santo Inácio como a fonte específica e o instrumento característico da nossa espiritualidade. A nossa vocação chama-nos a viver esta espiritualidade que nos abre e nos dispõe para qualquer desejo de Deus em cada situação concreta da nossa vida diária. Reconhecemos particularmente a necessidade da oração e do discernimento, pessoal e comunitário, do exame de consciência diário e do acompanhamento espiritual, como meios importantes para buscar e encontrar a Deus em todas as coisas.

2 – Quando dos EE de 30 dias, no Paraguai, assumi essa imagem da bondade de Deus. Algo que muito me consolou foi saber que Dom Luciano Mendes de Almeida também tinha uma consigna semelhante.

3 – Os sufistas muçulmanos nomeiam o Eneagrama como as Nove Faces de Deus na humanidade.

4 – Uma curiosidade: nessa fuga o Pe Caravias passou também pela Argentina e, por lá foi acolhido pelo então provincial jesuíta, Pe. Bergoglio, hoje o Papa Francisco.

5 – Vale ressaltar que a espiritualidade inaciana também me ensina, que sou eu, e não Deus, quem corta o fio. Recordo-me que, terminada a historinha, a catequista me fez rir, reforçando que, em absoluto, aquela história se tratava de uma “propaganda de liberação do pecado”.

6 – Nos banheiros da minha escola católica havia um triângulo com um olho no meio. Abaixo dele estava escrito: “Deus me vê”.
 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 20/06/2020
Código do texto: T6983047
Classificação de conteúdo: seguro

Comentários

Livros à venda

Sobre o autor
Fernando Cyrino
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 68 anos
1037 textos (460575 leituras)
8 e-livros (5884 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/09/20 21:05)
Fernando Cyrino

Site do Escritor