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PUREZA (15)
            Tiago Menor, um dos discípulos de Jesus, apesar do nome era grande no equilíbrio das horas difíceis. Compreendia que o homem de bem não podia participar da ignorância e que toda alma iluminada o era pela sabedoria. Entendia que o saber não ocupa lugar, ele é dono de todos os lugares. Tinha por amor, zelo pela Pureza, que entendia ser irmã da sabedoria. Reconhecia que poucos ouvem e menos ainda entendem o que se fala. Participante da escola do saber, amava a Pureza, se dava ao trabalho mental e selecionava muito o que falava. Nunca tomava uma decisão pelo impulso. Discreto, deixava fermentar a massa para assar o pão. Ao comparar os feitos do Cristo com os anúncios proféticos, reconheceu o Cordeiro de Deus em figura humana. Esforçava-se para que o Evangelho fosse pregado em todo o mundo, para todas as criaturas.
Certo dia, que precede a noite de encontrar Jesus, foi abordado por uma velhinha que se dizia paralítica. Como pedia a caridade da cura com muito apelo, na frente de tanta gente, Tiago ao se aproximar ela descobriu a farsa e acusou Tiago de impostor, que não havia descoberto que ela não era paralítica. Terminou sendo injuriado pelos presentes, que jogaram nele até enxertos de cavalo.
Tiago, impressionado com essas acusações e agressões, caminhava amargurado pelas ruas de Betsaida ao encontro do Mestre, pois já estava próxima a reunião. Instalou-se na reunião na casa de Pedro, que fez a oração inicial. Notou a insistência do olhar do Mestre em sua direção, que desajeitado pelo que ocorreu momentos atrás, levantou-se entendendo o pedido silencioso de Jesus, e expressou-se, melancólico:
Mestre! Porventura podes nos falar esta noite sobre o que entendes sobre a Pureza? E por que eu me preocupo tanto com essa virtude? Não tenho direito de te pedir tanto, mas ficaria muito agradecido se pudesses responder-me, porque certos esforços meus parecem ficar em vão nessa conquista que tanto almejo.
Tiago sentou-se, sem conseguir se livrar da tristeza. Cristo, compreendendo o que se passava com o discípulo, fez-se ouvir, com grandeza d’alma:
- Meu filho! Jamais penses que se perde o que já se ganhou. Todo o teu trabalho buscando a perfeição é abençoado por Deus, e os resultados ficarão contigo eternamente, crescendo com a força do progresso. O sol desponta com toda a sua pujança divina, ilumina o mundo e depois desaparece. Mas torna a nascer de novo na sua missão incomparável. Assim são os nossos dons. De vez em quando eles se deparam com as trevas da incompreensão humana e desaparecem. Mas voltam a brilhar em obediência a lei do bom esforço.
‘Não turbes o coração com simples ruídos que se desfazem minutos depois. A Pureza de que falas é a nossa meta principal: perfeição em tudo. No entanto, exige de nós muito trabalho, muita dor e imensuráveis sacrifícios. O preço de alcança-la turba qualquer cálculo da razão.
‘Passastes por um vexame passageiro nesta tarde, por confiares somente na vigilância. Esquecestes da oração, porque vigiar é competência do saber, mas orar é força que movimenta a inspiração divina. Vigilância e oração se completam no esforço de evitar novas tentações.
‘De qualquer maneira, o escândalo te fez lembrar que é preciso algum reparo no modo como proceder diante dos outros. Estamos numa marcha que não pode sofrer interrupções. Se queres a Pureza, hás de te submeter às tuas exigências consigo mesmo.
‘Os primeiros dias da criança junto ao professor que estabelece planos de ensino e se entrega durante toda a vida para o esclarecimento de jovens e crianças, seria de brincadeiras, de ouvir contos de fadas, de sorrir nas suas ingenuidades que marcam as características infantis. Eis que o mestre, diante de tais circunstâncias, poderá falar coisas sérias aos homenzinhos em formação. Todavia, é bem provável que eles comecem a correr, a gritar e a sorrir da luz que está começando a aparecer em suas vidas.
‘O perdão é o apanágio natural do professor, sem que dele se apodere a intolerância. O faltoso compreende o erro e procura repará-lo, e a vingança assusta e distancia cada vez mais as trevas da luz.
Tiago deixou transparecer no semblante alguns raios de alegria, sentindo a sabedoria de Jesus acerca do que se passara com ele. “O Mestre tem razão”, pensou.
Jesus continuou:
- Tiago! Todos temos, de certo modo, razão, como todos somos úteis, de certa forma. Se não fossem os que nos atacam, os que nos apedrejam. Os que nos caluniam, como experimentar o coração que antes sorria? Como testar a alegria da paz interior? Como experimentar o amor ao próximo? Eis que é necessário o escândalo, mas ai daquele que ainda é escravo dele. Se te consideras livre pelas linhas da verdade que pretendes dominar e seguir, não dês muita atenção aos ruídos exteriores, pois eles somente espantam os que desconhecem as leis de Deus.
‘Quando nós nos preocupamos em nos servir dos extremos com alguma virtude, é devido a sua escassez no reino de nossa alma. É bom que as providências sejam tomadas, mas escuta bem, sem exagero, para que não se torne uma imposição para nós e para os outros. Se procuras a Pureza em todas as suas nuances, não te esqueças de vigiar todas as fraquezas, de vigiar todas as ideias, a começar por manter guarda, permanentemente, sobre o que falas e fazes, porque a Pureza é a unidade de todos os dons da vida.
‘Muito depende de ti, do teu esforço no auto aprimoramento. As bênçãos de Deus, pelo tempo, conferir-te-ão esse estado de espírito como glória de um bom lutador.
Tiago! Não esmoreças, meu filho. Segue avante nas tuas pesquisas e no teu impulso de ser grande, sem esquecer que, para ser maior, é de lei que deves aprender a ser também o menor de todos. O homem de valor é aquele que tira das decepções ensinamentos, das ofensas lições maiores e, sentindo a violência dos outros, nota, com urgência, o quanto vale o amor.
Aprendamos, pois, com os métodos que a vida nos propõe.
Jesus saiu e muitos o acompanharam. Alguns procuraram Tiago querendo saber o que houve com ele.
Tiago, já sorridente, abraçou Pedro e saiu contando a cura que ele operou, sem ter operado.
 
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 25/07/2019
Código do texto: T6704485
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Sióstio de Lapa
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 68 anos
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