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Oito Meses de Um Brasil Diferente

Refiro-me, claro, ao período do governo Bolsonaro, que, goste-se ou não, é diferente dos anteriores. A ideia é fazer uma análise desapaixonada do tema, tentar ver prós e contras, “sem viés ideológico”, ou ao menos, sem enfoque bolsonarista, nem petista, já que não sou de nenhuma dessas correntes de radicais belingerantes.

O PIOR

Com absoluta certeza, a pessoa Bolsonaro é o que há de pior em seu governo. O ex-capitão prova todos os dias que é incapaz de ter uma postura de presidente da república, representante máximo de um país. Não se passam 24 horas sem que fale alguma coisa ofensiva a alguém ou totalmente desprovida de embasamento, chutes puros sobre quaisquer assuntos. Governa para os seus militantes, não para toda população. Não quer mover a maioria num rumo, só quer atender quem pensa como ele.

Seria um problema pequeno se o mandatário limitasse suas brigas aos desafetos nacionais. Estes podem processá-lo e o país não será afetado. Já quando agride representantes de outros países, a coisa muda bastante. Já insultou os chineses, por estarem querendo comprar empresas nacionais (investir no Brasil); os árabes com a mudança da embaixada (inútil para o Braisl); os argentinos, principalmente a presidente anterior, sendoque logo vão voltar ao peronismo; o presidente da França, com deselegantes ofensas pessoais; e a chilena embaixadora das ONU, Michele Bachelet.

Todos essas infantis declarações nada acrescentam para o país e põem em risco nossas exportações. Os chineses são simplesmente os maiores parceiros comerciais do país, se não queremos seus investimentos, eles investem onde quiserem, por exemplo, na vizinha Argentina. Os árabes são grandes importadores de carnes e de aves, que podem comprar nos EUA, os argentinos são um dos poucos importadores de produtos industrializados brasileiros, junto com os chilenos. Já os franceses, são concorrentes em produtos agrícolas e tudo que os agricultores franceses querem é que Macron crie obstáculos para o pacto com o Mercosul para manterem barreiras a nossas exportações. Comprar brigas com eles não nos traz ganhos, pode trazer enormes prejuízos.

É tolice esperar que Bolsonaro mude o que sempre foi, um criador de atritos e polêmicas, ele acredita que foi isso que o levou ao poder, e não o fato de ser a alternativa com mais chances de vencer o PT nas eleições. Torço para que ao menos mire seus canhões para as minorias locais, que já aturam problemas piores, deixe seu filho brincar de embaixador e pare de atrapalhar o comércio internacional, nossa única esperança de inserção no mundo civilizado.

Dentro do pior, em distante segundo lugar, temos um grupo de ministros que simplesmente não têm a menor noção do trabalho nos ministérios que gerenciam. Damares, Weintraub, Ricardo Salles, Onix Lorenzoni e Ernesto Araújo são apenas cópias pioradas do despreparado presidente. Não é exclusividade deste governo ter ministros ruins, ao contrário, eram exceções os bons nos governos anteriores. Assim, vamos em frente, essa gente vai se perder ao longo da história, igual ao ministro anterior da Educação e as instituições que lideram têm mostrado razoável resistência às suas bobagens.

O MELHOR

Bolsonaro promoveu mudanças importantes. A melhor que acho é que não deixou os partidos indicarem ministros para formar base no Congresso. Rompeu-se um paradigma que vinha desde a Constituição e que era muito ruim. No Poder Executivo, trocamos políticos ladrões por ministros que na maioria são militares, com razoável formação técnica e conhecimento, e não tivemos em oito meses denúncias de corrupção por atos deste governo (alguns ministros tiveram denúncias do passado). Não é pouca coisa comparado ao nível de ladroagem que tivemos nos últimos 30 anos.

Embora do lado do Executivo isso tenha sido ótimo, arrisco dizer que no lado do Legislativo pode ser ainda melhor. Pela primeira vez, temos um Congresso que não tem um enorme poder de chantagem. O resultado é que nossos parlamentares têm de propor leis para exercerem influência. Na mais importante questão dos primeiros meses, a Reforma da Previdência, o Congresso foi fundamental, apropriou-se do projeto e fez ele melhor. Não fosse sua atuação, os piores pontos que eram as normas draconianas para o BPC e para a aposentadoria rural teriam passado. Da forma que ocorreu o processo, Rodrigo Maia ganhou protagonismo e hoje o Poder Legislativo não é mero subordinado do Executivo.

Isso pode ser a semente para um dia chegarmos ao parlamentarismo, que é usado na maioria dos países desenvolvidos, é um regime menos dependente de uma só pessoa e muito mais capaz de lidar com instabilidade, que é a única certeza em terras tupiniquins. Tendo tentado salvadores da pátria à esquerda e à direita em toda nossa história, a única evidência que temos é que apostar em um presidente para mudar o país não funciona quase nunca.

AS GRANDES DÚVIDAS

Economia

O maior problema que temos hoje é que temos é a economia, que não cresce, mantém uma desigualdade enorme, um desemprego gigante e um Estado Leviatã, que gasta mal grande parte do que tributa.

Paulo Guedes sempre foi um liberal. Quer reduzir o Estado, a tributação sobre os ricos e privatizar o máximo. Sua Reforma da Previdência reduziria gastos e benefícios ainda mais do que a aprovada, há um projeto de Reforma Trabalhista, que vai tirar mais direitos do trabalhador, e um de Reforma Tributária, que apenas vai facilitar o trabalho de pagar tributos, não distribui renda. Pretende também controlar gastos com servidores, o que precisa ser feito, porém, duvido que vá atingir quem precisa, que são os que ganham por quaisquer formas acima do teto, gente poderosa em todos os poderes .

Um dos problemas é que diminuir o Estado é difícil, teria de fazer nova Constituição e enfrentar o os Poderes Legislativo, Judiciário e Ministério Público, onde está a elite dos servidores.

O maior, entretanto, é que os ricos são poucos, não consomem o suficiente de produtos e serviços para ativar a economia, seria necessário dar ganhos salariais aos pobres e à classe média, o que depende de uma Reforma Tributária, que a elite não deixará ocorrer.

Até agora, Guedes conseguiu o mesmo que Meirelles, que as coisas não piorem ainda mais, o PIB deixou de cair. Se não é pouco, também não vai resolver os problemas do país. A grande dúvida é se o Ministro seguirá sua cartilha e continuaremos assim, ou se vai perceber que para o Brasil crescer mais precisa que a maioria da população tenha mais renda.

Não resisto a dar meu palpite, de que o caminho do desenvolvimento começa pela correção da tabela do Imposto de Renda, mais dinheiro para o assalariado no fim do mês. Só com a maioria da população melhorando de vida poderemos sair do buraco.

Lava Jato

Quando Moro virou ministro parecia que a Operação Lava Jato chegava ao poder. A reação contrária veio com as denúncias do Intercept Brasil e com o STF reagindo contra o MPF. Ficou claro que houve erros graves em julgamentos e processos legais e também que os poucos políticos punidos por ela ainda têm muito poder e podem conseguir melar tudo que foi feito.

A grande dúvida é se a Operação Lava Jato vai afastar os que erraram, como Deltan Dallagnol, corrigir seus erros e prosseguir, ou se os poderosos políticos e seus fantásticos advogados e ministros do STF vão enterrá-la do mesmo modo que tantas outras do passado e como a opinião pública vai reagir a seu fim.
Eu gostaria que a Operação corrigisse seus erros e continuasse, ganhamos muito com o desmonte da parceria políticos e empreiteiras. Perderam-se empregos, é verdade, mas precisamos de empresas que sejam capazes de produzí-los sem ser a custa de corrupção.

A Grande Questão: A Vida Vai Melhorar?

Essa é a pergunta que realmente importa, nesse ou em qualquer governo. Você pode não gostar dos militares, mas deve ter gostado de quando o Brasil cresceu com eles. Pode não gostar de FHC, mas deve ter aprovado quando o Real controlou a inflação, da LRF que pôs algum controle nos gastos públicos e dos serviços melhores de telefonia pós-privatizações. Pode não gostar de Lula/Dilma, deveria gostar de terem aumentado programas para reduzir a miséria e do crescimento econômico. Já se gostar de Sarney, Collor ou Temer, desculpe dizer, tem algo muito errado com você.

Assim será com Bolsonaro. Se a economia e a vida das pessoas melhorarem, será suportável conviver com o presidente. Não votei nele, mas acredito na democracia e não quero nenhuma tentativa de impeachment. Até quando era contra a péssima Dilma fui contra, porque o processo de troca de governo paralisa o país e foi o motivo dos quatro péssimos anos que tivemos desde 2015. Logo, se vou estar no barco Brasil com ele de presidente no controle pelos próximos 3 anos, vou torcer para que não afunde, ao contrário, que vá bem. Com sorte, aparece alguém bom para votar em 2022.

Pense você como pensar, lembre-se que passado não volta, gostando ou não do que estamos passando, o caminho é em frente, não se pode mudar o que já ocorreu, inclusive as eleições passadas. Lamentar não resolve, propor coisas para melhorar pode ajudar. Vale mais isso do que ficar brigando com quem não vê as coisas como você.
Paulo Gussoni
Enviado por Paulo Gussoni em 14/09/2019
Reeditado em 15/09/2019
Código do texto: T6745196
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulo Gussoni
Santana de Parnaíba - São Paulo - Brasil
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