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CASIMIRO DE ABREU: DOIS ENFOQUES DE UM AMOR CASTO

RESUMO: O artigo presente objetiva aprofundar na poesia do escritor Casimiro de Abreu, apresentando suas duas formas de olhar para o amor casto como temática do Romantismo.

PALAVRAS-CHAVE: Romantismo. Poesia. Casimiro de Abreu. Amor casto.


INTRODUÇÃO

Considerando o fundo teórico da pesquisa “Amor romântico”, de Thuany Barbosa da Silva (SILVA; 2007, p. 11), parto do pressuposto de que “todos os seres humanos querem amar e ser amados, buscando sempre um amor incondicional”. Não é diferente com Casimiro de Abreu. Escritor da segunda geração da Poesia Romântica, ele revela o amor de forma profunda e sublime. Sem falar que ele o apresenta com dois enfoques – enfoques esses que centralizam o objetivo deste artigo. Mas antes de partirmos para tais enfoques, é necessário conhecer o autor dessa profundidade e sublimidade de ver o amor.
Casimiro José Marques de Abreu é um poeta, destacado, na Literatura Brasileira, pela popularidade da obra “Meus oito anos” – poema que se situa na coletânea “Canções do exílio”, publicada em 1854. Vale levantar o seguinte questionamento: por que tal obra é tão popular? A resposta é um dos enfoques – como dito anteriormente – que serão tratados neste artigo. Resta dizer que Casimiro é membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 6.
Este artigo será subdividido em dois capítulos, conforme os dois enfoques casimirianos, a saber: a) Amor: uma nostalgia da infância; e b) Amor: uma relação de gozo.


AMOR: UMA NOSTALGIA DA INFÂNCIA

O próprio título pressupõe que o amor, como um dos enfoques casimirianos, é um sentimento nostálgico dos momentos da infância. Vale observar o seguinte fragmento (ABREU; 1974, p. 19):

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
[…]


A priori, ele utiliza a palavra "saudades". “A palavra saudade é única em seu significado da língua portuguesa. […] Somente a língua portuguesa conseguiu colocar, ao mesmo tempo, a força do coração e da memória na palavra saudade.” (BERTINI; s/d, p. 1). Lendo o fragmento acima, percebo que, quando Casimiro traz em sua memória lembranças de sua infância, tais lembranças provocam em seu coração um sentimento nostálgico, resultando na saudade – palavra que foi utilizada no plural (saudades) para remeter ao pluralismo de nostalgias dos recortes de sua infância relatados em todo o poema, como, por exemplo, as “tardes fagueiras”.
A expressão “aurora da minha vida” é uma metáfora que se refere aos momentos principiantes de uma criança. Casimiro de Abreu nasceu em 1837. Ciente de que o poema foi publicado em 1854, Casimiro tinha, portanto, 17 anos. É notório que, a essa altura, ele ainda se recordava dos primeiros momentos de sua vida – especialmente seus oito anos. Nessa época, ele residia, por intimação de seu pai, em Portugal, onde escreveu boa parte de seus poemas. Imagino Casimiro vivendo longe de casa e, ao mesmo tempo, sentindo saudade do Rio de Janeiro, sua terra-natal.
Ao utilizar a expressão “Que amor […]”, Casimiro manifesta o amor como sentimento nostálgico, ou como “a força do coração” – dita pela autora Fátima Bertini (BERTINI; s/d, p. 1).
Na introdução, levantei o seguinte questionamento: por que tal obra é tão popular? Antes de tudo, é necessário saber que uma das características do Romantismo é o saudosismo. Segundo o dicionário online Significados, “saudosismo é a admiração excessiva por aspectos do passado, desde comportamentos, hábitos, princípios e outros ideais obsoletos e ultrapassados”. Saudosismo pode ser sinônimo de saudade ou nostalgia. A saudade, por sua vez, “[…] é a expressão de sentimentos e lembranças pessoais. Uma das pessoas que melhor conseguiu exprimir este sentimento em palavras, versos e poemas, foi Casimiro de Abreu […]” (FARIAS; s/d, p. 72). O poema “Meus oito anos” é a obra que melhor exprime a saudade, visto que contempla uma admiração excessiva pela infância. Essa saudade é um dos enfoques casimirianos a respeito do amor. É essa saudade que torna tal obra tão popular.
Em 1859, ele publicou, na coletânea “As primaveras”, o poema “Infância”, que também revela, como o próprio título sugere, uma nostalgia da infância. Veja o seguinte fragmento (ABREU, 1974, p. 97):

[…]
Ó anjo da loura trança,
Não descansa
A primavera inda em flor;
Por isso aproveita a aurora,
Pois agora
Tudo é riso e tudo amor.
[…]


Percebo, nesse fragmento, que há um diálogo entre o eu lírico e um anjo. Tal diálogo caracteriza o Romantismo, logo que os escritores dessa época, como Casimiro de Abreu, tendem a resgatar, em suas obras, a cultura grega, bem com sua mitologia. Em outras palavras: o contato entre o homem e seres metafísicos – como os anjos, os deuses etc. – é uma das principais características do Movimento Romântico.
Ao afirmar “aproveita a aurora,/ pois agora/ tudo é riso e tudo amor”, posso deduzir que Casimiro, quando criança, teve bom proveito da infância. (Como se o mundo girasse em sua volta, como se tudo fosse encanto, como se o amor fosse casto em todo o tempo). Isso é o que talvez lhe fizesse admirar excessivamente os momentos de sua infância.


AMOR: UMA RELAÇÃO DE GOZO

Outro enfoque casimiriano é a natureza, a qual lhe encanta e, ao mesmo tempo, se relaciona com a simbolização feminina. Essa relação provoca-lhe gozo. Esse enfoque revela-se no poema “Primavera”, da coletânea “As primaveras” (ibid.). Confira o seguinte fragmento (p. 59):

[…]
Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores,
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.
[…]
São flores murchas; – o jasmim fenece,
Mas bafejando s’erguerá de novo,
Bem como o galho de gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.

Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem de seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe intumesce o seio.

Na primavera – na manhã da vida –
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.

Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida – a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, s’extasia e goza.


Como dito anteriormente, Casimiro expõe seu tamanho encanto pela natureza e, ao mesmo tempo, seu gozo pela relação natureza-mulher. No fragmento acima, destaco elementos que têm essa relação simbólica com a mulher, a saber: as flores – como a violeta e o jasmim e o vergel florido –, a voz mimosa, a alma virgem e adjetivos – como doce, bela e querida.
Por partes, a flor reflete tudo que é passivo e feminino, portanto, tudo que esteja ligado à beleza, à juventude, à paz, ao espírito e à primavera . A violeta – como o próprio nome anuncia – tem uma cor simbólica. Violeta é a cor do segredo . Sendo assim, posso concluir que a mulher é misteriosa. O jasmim, por sua vez, significa sorte, doçura e alegria . Logo, o jasmim está associado, como dito anteriormente, à voz mimosa e ao adjetivo doce. Vergel florido é sinônimo de jardim. O jardim representa a fertilidade, a união e o amor . A fertilidade, portanto, remete à alma virgem, como dixi. Essa alma virgem refere-se à mulher casta – mulher essa que é apta à paixão que reserva o seu desejo erótico para amar de forma mais pura e consciente, sem se tornar escrava dos próprios impulsos e desejos .
Esse amor puro e consciente é a temática que leva Casimiro de Abreu a ser nomeado ultrarromântico.
Retomando a relação de gozo como enfoque casimiriano, o poema finaliza da seguinte forma: “E a alma virgem nesta festa imensa/ Canta, palpita, s’extasia e goza.” Tamanho é o encanto de Casimiro pela natureza e sua relação simbólica com a mulher, que tal encanto excita sua alma, levando-o à satisfação da mesma.
Para dar continuidade a essa relação simbólica entre a natureza e a mulher, é que a coletânea “As primaveras” (ibid.) segue compreendendo obras significativas ad hoc. Um dos exemplos é “Juramento” (p. 60):

[…]
“Pelas ondas, pelas flores,
“Que se estremecem de amores
“Da brisa ao sopro lascivo;
“Eu juro, por minha vida,
“Deitar-me a teus pés, querida,
“Humilde como um cativo!

“Pelos lírios, pelas rosas,
“Pelas estrelas formosas,
“Pelo sol que brilha agora,
“Eu juro dar-te, Maria,
“Quarenta beijos por dia
“E dez abraços por hora!”
[…]


A priori, a palavra "ondas" é uma metáfora que remete à exposição ondulada dos cabelos da mulher. A onda simboliza a força incontrolável da natureza, que provoca agitação e mudanças . Essa força incontrolável da natureza seria a força do vento agitando os cabelos, enquanto essa agitação seria o comportamento dos cabelos provocado pela passagem do vento, e essas mudanças seriam os estados em que se encontram os cabelos após a agitação.
E os lírios? O lírio simboliza a pureza, a brancura, a inocência e a virgindade. Essa virgindade faz diálogo com a alma virgem do poema “Primavera”, citado anteriormente, ao passo que essa pureza e essa inocência se referem à castidade do amor e, assim, à mulher casta.
Para completar o ramalhete de Casimiro, é que ele escreve “Perfume de amor” (p. 60):

A flor mimosa que abrilhanta o prado
Ao sol nascente vai pedir fulgor;
E o sol, abrindo da açucena as folhas,
Dar-lhe perfumes – desejar-lhe amor.
[…]
Aqui se junte, qual num ramo santo
Do nardo o aroma e da camélia a cor,
E possa a virgem, percorrendo as folhas,
Sorver perfumes – respirar amor.

Encontre a bela, caprichosa sempre,
Nos ternos hinos d’infantil frescor,
Entrelaçados na grinalda amiga
Doces perfumes – e celeste amor.
[…]


Nesse fragmento, as expressões "bela" e "caprichosa sempre" aparecem como qualidades simbólicas para descreverem a mulher.
Como dixi, para completar o ramalhete de Casimiro, é que destaco, no fragmento acima, três espécies de flores, a saber: açucena, nardo e camélia. A simbologia da açucena está relacionada à angústia e à tristeza, frequentemente associada à perda de um amor . Ao utilizar essa flor em seu poema, Casimiro trata do sofrimento no profundo da alma. Como todo ser humano, a mulher também tem seus momentos difíceis. Algumas carregam feridas emocionais, oriundas geralmente de relacionamentos destruídos.
Enquanto isso, o nardo representa a humildade , e a camélia, a beleza da alma. Através de uma linguagem sublime, Casimiro mostra que a mulher tem um coração humilde e uma beleza interior, que, para mim, é inexplicável.
Observe agora um fragmento do poema “Segredos” (p. 61):

[…]
Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,
Seus lábios de rosa, a fala é de mel,
As tranças compridas, qual livre bacante,
O pé de criança, cintura de anel.

– Os olhos rasgados são cor das safiras,
Serenos e puros, azuis como o mar;
Se falam sinceros, se pregam mentiras,
Não quero, não posso, não devo contar!
[…]


É notória, nesse fragmento, uma descrição minuciosa do corpo de uma mulher. E o que tem de simbólico? A cor rosa, o mel e a safira. Na cultura ocidental, rosa é uma cor usada para expressar feminilidade. Além disso, ela simboliza romantismo. Então, quando Casimiro diz que os lábios são de rosa, ele atribui a esses lábios um caráter feminino, associando tal caráter ao Romantismo.
O mel é sinônimo de doçura e símbolo de riqueza. Logo, ao afirmar que a fala é de mel, Casimiro quer expressar que a fala da mulher é doce e enriquecedora.
A safira é conhecida como a pedra da sabedoria. A sabedoria é uma das virtudes da mulher. Porquanto o grande Salomão, com sua magna sabedoria, afirma que a mulher sábia edifica a sua casa.
Para fechar a lista de símbolos femininos (lembrando que essa lista é inacabada), resta apresentar o poema “Borboleta” (p. 66):

Borboleta dos amores,
Como a outra sobre as flores,
Por que és volúvel assim?
Por que deixas, caprichosa,
Por que deixas tu a rosa
E vais beijar o jasmim?
[…]


É evidente que aí aparece um dos símbolos naturais que representam a mulher: a borboleta, a qual simboliza felicidade, beleza, inconstância, efemeridade da natureza e da renovação . Para ser bem sucinto, a mulher não depende de fatores internos e externos para ter felicidade; sua beleza exterior reflete e transparece sua alma; sua criatividade com o mistério e o silêncio é o que a torna inconstante e volúvel; assim como as estações mudam, ela renova em todo momento.
Toda essa simbologia é possível, porque Casimiro é um homem que sabe amar.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através deste artigo, onde busquei me aprofundar na literatura do poeta Casimiro de Abreu, aprendi que o amor, sendo casto, pode ser visto de dois ângulos (ou dois enfoques): uma nostalgia da infância e uma relação de gozo. Dessa forma, pude perceber que é importante quando a infância nos deixa lembranças e quando essas lembranças nos permitem sentir saudade. Além disso, fiquei surpreso em descobrir a simbologia da mulher. A cada descoberta, eu sentia um grande êxtase.









REFERÊNCIAS

ABREU, Casimiro de. Poesias Completas. Rio de Janeiros: Tecnoprint, 1974.
ARQUITETURA das flores: significado das flores. Disponível em: http://www.arquiteturadasflores.com.br/. Acesso em 20 dez 2018.
DICIONÁRIO de símbolos: significado dos símbolos e simbologias. Disponível em: http://www.dicionariodesimbolos.com.br/. Acesso em 20 dez 2018.
MONTEIRO, Wellington. Amor castro: sim, é possível viver a castidade! Disponível em: http://amorcasto.blogspot.com/2015/09/o-que-e-um-amor-castro_11.htm/. Acesso em 20 dez 2018.
MULHER virtual. Disponível em: http://www.mulhervirtual.com.br/flor/Camelia.html/. Acesso em 21 dez 2018.
SIGNIFICADO dos símbolos. Disponível em: http://www.significadodossimbolos.com.br/. Acesso em 21 dez 2018.
Danilo Bittencourt
Enviado por Danilo Bittencourt em 21/08/2019
Reeditado em 21/08/2019
Código do texto: T6725976
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Danilo Bittencourt
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