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Sobre o ENEM de 2020

Escrever esse texto não é das tarefas mais fáceis, primeiro, porque falar sobre o que é educação, aprendizagem, ensino, é algo bastante variado, existindo diversas possibilidades de abordagens para esses problemas de pesquisa. Pensemos a educação como um construto histórico que se modifica no decorrer dos séculos, temos por exemplo na filosofia antiga o exemplo dos gregos, mais especificamente os sofistas, que para alguns teóricos foram os primeiros professores da humanidade, ensinando a arte da retórica em troca de mantimentos para viver na pólis. Deixando um pouco de lado as divergências com Sócrates, já vemos que a educação nasceu de uma perspectiva onde o conhecimento se torna uma ferramenta para a formação de futuros líderes, políticos, etc.

Dando um salto histórico, vamos a transição  do período helenístico para o início do que se tornaria a idade média, vemos grandes líderes se convertendo ao cristianismo, o surgimento de filósofos que se apropriando do pensamento platônico começaram a pensar uma filosofia que tinha como Deus o centro do conhecimento, e aliado a isso, as escolas, que nasceram com o objetivo de formar pessoas para o conhecimento sagrado, nelas, as leituras bíblicas, exegeses, e demais estudos sagrados eram feitos com o objetivo de formar líderes religiosos, vemos nesse período por exemplo as monarquias, onde existia uma forte ligação com o aspecto religioso.

Pulando novamente o tempo, vamos para meados do SÉC XV  ao XVII, onde influenciado pela época das luzes, o pensamento religioso fica de lado, dando lugar a racionalidade, nessa perspectiva, o humanismo assume novos ares, tornando agora o homem o centro do universo, podendo ser estudado o corpo, a subjetividade, e os demais fenômenos humanos que antes eram dependentes dos saberes da religião. No que se refere a educação, é interessante pensar que mesmo nesse período, com uma mudança significativa, ainda existia uma forte separação entre grupos sociais, que agora era validada por um discurso científico, que dizia por exemplo, que pessoas vindas de países europeus tinham superioridade intelectual.  Nesse período vemos por exemplo, a separação entre modelos de educação, existindo escolas voltadas apenas para os filhos dos aristocratas e as escolas técnicas, destinadas para as demais pessoas que eram formadas para servir aos mais abastados.

Pensando na modernidade, vemos um pensamento marcado fortemente por teorias críticas, que denunciam as desigualdades sociais, sejam elas relacionadas a classe, gênero, raça ou orientação sexual, nessa perspectiva, podemos notar por exemplo, como no decorrer da história a educação foi desenvolvida com moldes visivelmente desiguais, fazendo com que majoritariamente o conhecimento fosse produzido por homens, brancos, de origem europeia, heterossexuais e de classe alta, provocando uma das grandes falhas epistemológicas do campo da educação, a naturalização de um saber universal supostamente neutro que atenderia a todos os grupos.

Não vou me demorar nesse aspecto, mas basta um pouco de pesquisa para descobrirmos grandes nomes nas mais diversas áreas, de pessoas negras, mulheres, lgbt’s, indígenas, e demais grupos silenciados, que sempre existiram, mas devido aos processos de colonização e epistemicídio decorrentes disso, foram esquecidos na história. Nos últimos anos, devido a forte pressão de movimentos sociais que buscam a mudança de paradigmas que mantém desigualdades profundas, aconteceram mudanças significativas, como o surgimento do ENEM, das políticas de cotas raciais, etc.

O ENEM(Exame Nacional do Ensino Médio) surgiu como um modo de democratizar o acesso a educação, levando em conta as profundas desigualdades no Brasil, esse modelo passou a dar acesso a mais jovens, aliado a políticas afirmativas como a das cotas, nos últimos 10 anos presenciamos algo muito significativo, a presença cada vez maior de grupos minoritários dentro das universidades, muitas dessas pessoas que atualmente já são formadas, e ocupam postos de trabalho, dando espaço para outras pessoas chegarem no mesmo lugar.

Chegando agora no ponto central desse texto, falar do Enem desse ano é denunciar um tipo de pensamento no mínimo retrógrado, baseado em uma suposta meritocracia, se vende a ideia de que todos podem estudar mesmo de casa, no entanto, nem todas as famílias tem capital intelectual, acesso a livros, a internet, fazendo com que na prática esse discurso sirva apenas para retornar a algo que começou a ser derrubado nos últimos anos depois de muita luta social, a presença de pessoas pretas, pobres, lgbt’s, mulheres, indígenas, PCD’s, dentro do ambiente acadêmico, ou seja, estamos  presenciando uma nova tentativa de silenciar vozes que começaram a ser ouvidas, e incomodaram os que sempre tiveram privilégios.

Diante disso fica o convite, nós, que furamos essa bolha, e que pertencemos a esses grupos sociais que ganharam voz nos últimos anos, precisamos mais do que nunca gritar para o mundo, mostrar todo o nosso conhecimento, pois é ele quem transforma realidades, somente quando nós deixarmos os nossos falarem, algo realmente vai mudar pra melhor.
tccunha
Enviado por tccunha em 06/05/2020
Reeditado em 06/05/2020
Código do texto: T6939334
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
tccunha
São Luís - Maranhão - Brasil, 29 anos
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