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Psicologia e Ciências Sociais: primas distantes ou irmãs?

O presente texto tem por objetivo trazer a relação entre a Psicologia enquanto área do conhecimento voltada para o estudo do psiquismo, e as Ciências Sociais, estando nelas incluídas disciplinas como Sociologia, Antropologia, Filosofia, Política, etc. O tema surgiu de um incômodo a partir de observações de profissionais da área que afirmam com certa frequência que só pode ser considerado cientifico aquilo que é estritamente da aérea da psicologia positivista, ou seja, conhecimentos advindos de laboratório, tendo sua maior proeminência em visões teóricas como a análise experimental do comportamento, terapia Cognitivo comportamental, visões estas que estão com os holofotes voltados para si, na atual conjuntura social na qual vivemos.

Mas afinal, o que é a Psicologia?

A psicologia enquanto área independente do conhecimento é ainda nova, tendo pouco mais de 50 anos de existência, ela surgiu inicialmente como uma disciplina da filosofia, e para se tornar autônoma, teóricos que se dedicavam ao estudo dos processos psíquicos, passaram a se utilizar de conhecimentos advindos da medicina, da anatomia, e também experimentos feitos em laboratório com animais. Já podemos perceber aí que para que houvesse uma emancipação, foi necessário que a área fizesse uso de um método científico que passou a vigorar como padrão, método esse que vem de filósofos renomados como Comte, e Descartes, que através de suas sistematizações filosóficas, influenciaram todo o pensamento moderno de como se fazer ciência.

Seria então a psicologia o estudo da alma, da subjetividade, do eu, do comportamento, das contingências, do desvelamento, etc, e para se compreender esses vários aspectos, tornou-se necessário fazer uso de meios para se mensurar, provar através de métodos replicáveis, entre esses vários instrumentais, consagrou-se o uso de testes, da escuta psicológica, e principalmente, do setting terapêutico como local sagrado onde a pessoa passa a ser ouvida em sua subjetividade, popularizando assim principalmente a psicologia clinica como principal área de atuação deste profissional.

No entanto, é importante pesarmos que existem diversas áreas na qual esse profissional pode se inserir, sendo algumas delas a hospitalar, jurídica, social, escolar, organizacional, e várias outras, sendo a clínica apenas uma das várias possibilidades. O que se percebe é que mesmo com a abertura de outras possibilidades, ainda existe uma forte tendência a profissionais da área irem para a psicologia clínica, sendo a escolha da maioria dos estudantes durante a graduação, e no imaginário popular de pessoas leigas, o psicólogo ainda é visto sob o estereótipo da pessoa com roupas finas, usando jaleco, em um consultório.

Esse ideal construído sobre o profissional clínico traz consigo uma raiz histórica, pois a própria psicologia se popularizou por figuras como Sigmund Freud, que foi um dos precursores da escuta psicológica, e que não por acaso, veio da psiquiatria. Podemos perceber aí que a psicologia clínica traz consigo então uma influencia muito forte da medicina, sendo perpassada bastante por conhecimentos da neurologia,da anatomia, da psiquiatria, fazendo com que se associe a imagem do psicólogo apenas ao do médico, desconsiderando que este não atua apenas junto a essas áreas do conhecimento.

Mas afinal, é uma psicologia ou são psicologias?

Eis o ponto que traz o tom plural para a Psicologia, existem diversas visões teóricas dentro dessa área do conhecimento, visões que divergem e convergem entre si sobre diversos pontos, no entanto, busco nessa tese trazer os pontos de convergências e como estes podem somar para um conhecimento mais amplo sobre as várias áreas de atuação deste profissional.

Primeiro é necessário pensarmos de onde surgem essas visões teóricas, tendo como principal base quatro bases epistêmicas de pensamento filosófico, sendo elas: o positivismo e o método cartesiano, o materialismo histórico dialético de Marx e Engels, a psicanálise freudiana, e a fenomenologia husserliana.

Do positivismo e do cartesianismo surgiram abordagens como a análise experimental do pensamento, a terapia cognitivo comportamental, a ACT, e tantas outras variações que partem do pressuposto epistemológico de que o conhecimento surge a partir de uma relação entre sujeito e objeto, e através da razão, este sujeito pode dominar a natureza, segundo os moldes de Descartes.

Já do materialismo histórico dialético de Marx e Engels, surge a psicologia sócio-histórica, vertente que estuda o psiquismo a partir das relações histórico sociais na qual esse sujeito está inserido, compreendendo sua construção subjetiva como um microcosmo de um macrocosmo cultural.

A psicanálise freudiana deu origem a psicanálise ortodoxa, a psicologia analítica de Jung, a psicologia do ego, entre outras vertentes que beberam do pensamento de que o sujeito possui um inconsciente que passa por uma luta de forças entre o id, o ego e o superego.

Por fim, a fenomenologia husserliana deu origem a diversas abordagens como o a abordagem centrada na pessoa de Rogers, a Daseinanálise de Heidegger, a Gestalt-Terapia, a Logoterapia, etc. O que elas compartilham entre si é um ser que tem uma relação imediata com o conhecimento, ou seja, ele se lança para sua realidade em uma abertura existencial, se desvelando no próprio vir-a-ser de suas escolhas. Nesse sentido, concebem um ser livre e responsável.

Apesar das diferenças de bases epistemológicas, e por consequência dos métodos utilizados, pode-se notar que as várias abordagens trabalham com os mesmos objetos de estudo, o seres humanos em suas relações. Isso coloca uma questão importante: Não seria mais sensato pensar nas convergências entre as várias visões? Em como cada uma pode contribuir para o crescimento da outra?

O epistemicídio, ou a injustiça epistemológica, o que é isso?

Chegamos talvez no cerne da questão deste argumento, afinal, o que torna tão impalatável para certas pessoas da psicologia a possibilidade de conhecimentos advindos de outras fontes que não as tradicionais do método cientifico cartesiano? Me refiro aos conhecimentos das ciências sociais, que possuem objetos de pesquisa diferentes daqueles estudados por cientistas naturalistas por exemplo, pois enquanto um biólogo estuda o comportamento animal, estando ele em um laboratório com um ambiente controlável, o sociólogo estuda o ser humano em suas relações, em um processo de mudança contínuo.

Nesse ponto do texto cabe ressaltar um aspecto interessante nos debates dentro do meio psicológico, a psicologia é da área da saúde ou das humanidades? Esse debate surge por exemplo, no momento em que vão ocorrer as formaturas, na escolha da cor das faixas e dos apetrechos da beca. Parece bobagem, mas essa pergunta tem uma relevância epistemológica profunda para a psicologia enquanto área do conhecimento, explico melhor.

Ao se considerar a psicologia enquanto área da saúde, se está indo pelo viés historicamente homogeneizado da medicina, que produziu conhecimentos que em sua grande maioria trazem um sujeito global, que não possui especificidades e características culturais singulares. Podemos perceber isso por exemplo no DSM-V, manual diagnóstico da psiquiatria, muito utilizado por psicólogos também, que apesar de trazer em suas linhas que o diagnóstico deve respeitar as condições sociais do paciente, dificilmente esse aspecto é levado em conta, dando-se diagnóstico de maneira generalizada para pessoas as vezes de situações contextuais completamente diferentes.

Nesse ponto surge o tema do epistemicídio e da injustiça epistemológica, que em linhas gerais, podemos compreender como a maneira como as bases do conhecimento foram construídas a partir de grupos dominantes, na sua maioria europeus, brancos, e de classe média alta. Esse dado nos trás que por exemplo, nas diversas áreas do conhecimento, como a filosofia, psicologia, antropologia, história, os saberes vieram de pessoas com pensamentos específicos, de uma realidade específica, ocorrendo de maneira tendenciosa um silenciamento de por exemplo, teóricos e teóricas negros(as), mulheres, surgindo teorias de cunho eugenistas que traziam em suas linhas discursos racistas, misóginos, homofóbicos, etc.

Pensar nessa realidade na psicologia, é questionar por exemplo, porque existe tanta resistência por parte de vários profissionais, de se considerar o adoecimento da população negra como sendo reflexo de um racismo que afeta também o psiquismo, profissionais estes que se fundamentam em teorias que desconsideram os aspectos sociais e levam em conta apenas complexos bioquímicos individuais, confirmando a teoria da injustiça epistemológica, já que essas teorias pensam em um sujeito universal, generalista, calando os debates sociais, e perpetuando pensamentos dominantes de uma elite que deteve o poder na construção do conhecimento cientifico.

E então, o que fazer com isso tudo?

A proposta que levanto enquanto profissional da psicologia, é trazer uma aproximação entre conhecimentos da psicologia e das ciências sociais, justamente como um meio de revertes essas injustiças epistemológicas construídas em um longo percurso histórico, trazendo novamente o lugar de fala a pessoas negras que tem sua legitimidade na fala, e que ocupam um lugar socialmente menos privilegiado do que outros grupos, das mulheres, que por anos sofrem com assédios, e apenas recentemente tiveram lugar de fala, da população LGBTQ+, que possuem demandas específicas voltadas também para sua situação histórico social.

Pensar em uma aproximação entre as diversas abordagens e a relação disso com o epistemicídio, ou a injustiça epistemológica, é pensar como a própria psicologia se deixou levar por um pensamento dominante, colonizador, e se fechou em facções, não dando abertura e diminuindo conhecimentos que vem de métodos e bases epistêmicas diferentes, esse caminho também nos leva a uma reaproximação da psicologia enquanto uma área fundamentalmente social, como já nos aponta Silvia Lane, nesse sentido, é impossível pensar um ser humano que não esteja sendo influenciado por fatores histórico-sociais, como nos aponta a psicologia sócia histórica, assim como também não podemos desconsiderar o orgânico, como nos ensina a neuropsicologia, e também não devemos esquecer o aspecto da liberdade, da possibilidade do ser humano, como nos diz a fenomenologia.

Em suma, pensar em uma psicologia que se une com as ciências sociais, compreender que elas possuem conhecimentos válidos para o saber psicológico, é reaproximar a psicologia de sua condição interdisciplinar e multiprofissional, é tirar o profissional da saúde mental de seu trono dourado e de seu suposto saber hegemônico e fazer ele voltar para o mundo real, mundo este onde seu conhecimento depende do conhecimento de outros profissionais, onde pessoas reais enfrentam problemas reais a serem percebidos de maneiras sincera por parte de nós profissionais dessa área.


Thales da Cunha Coelho
Psicólogo
CRP 22/02418

Contato: psicologothalescoelho@gmail.com
Thales Coelho
Enviado por Thales Coelho em 19/07/2019
Reeditado em 19/07/2019
Código do texto: T6699552
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Thales Coelho
São Luís - Maranhão - Brasil
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