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A depressão enquanto uma negatividade existencial : Compreensão a partir da perspectiva de Gerd Bornheim e Martin Heidegger

A depressão é um quadro psicopatológico  cada vez mais comum nos dias atuais, sendo por vezes tratada com uma certa banalidade, existindo termos do cotidiano como “hoje eu estou deprimido(a)”  entre outros, que mostram como ela de certa maneira está inserida no imaginário popular, se tornando uma linguagem corrente, mesmo entre aqueles que não vivenciam tal experiência.

Para compreender como a depressão é vista atualmente, é necessário fazer um percurso histórico sobre a mesma, e baseando-se nessa retomada histórica, pretende-se através desse artigo, salientar outras possibilidades de compreensão do adoecimento psíquico. Para tal, serão utilizados como referenciais, a psicologia de base existencial-hermenêutica de Martin Heidegger, além da própria investigação feita por Gerd Bornheim acerca do pensamento filosófico e suas várias características específicas, tentando trazer um paralelo entre a depressão vista de modo tradicional pelas neurociências, e apontando possibilidades de novos caminhos a partir da hipótese de que a depressão pode também ser vista enquanto uma postura filosófica que em seu empreendimento existencial, não atingiu seu objetivo emancipatório, desvelando-se assim em um adoecimento existencial profundo e em uma total perda de sentido de vida.


1. A depressão na tradição científica positivista

Pensar o olhar sobre a depressão é retomar necessariamente à própria história da Psicologia, que em seu surgimento, inicialmente como uma disciplina da filosofia, buscou se tornar independente fazendo uso do conhecimento das ciências naturais, entre elas principalmente a biologia, a neurologia, etc. Nesse sentido podemos destacar a importância de Wundt, considerado o criador da Psicologia enquanto ciência independente, pois ao estudar a relação entre o psiquismo e as reações orgânicas do corpo, fez uso de uma linguagem que já trazia consigo uma tradição de um método cartesiano de pesquisa, método esse que fundamenta quase todas as ciências atuais.

No que se refere ao estudo do adoecimento psíquico, podemos retomar ao próprio conhecimento sobre os transtornos mentais, que inicialmente eram vistos como manifestações espirituais, e só após o advento de estudos científicos, principalmente os da neurociência, passaram a ser vistos como alterações orgânicas que causavam modificações comportamentais significativas, alterações essas que provocavam perda significativa ou baixa nas atividades sociais e laborais dos indivíduos.

Vindo de uma tradição das neurociências, a depressão passou a ser convencionada então como resultado na diminuição de determinados neurotransmissores que provocam a sensação de prazer, para se compreender essa diminuição, faz-se necessário um estudo de diversos fatores, entre eles os ambientais, a história de vida de cada pessoa, os hábitos, crenças, histórico médico, entre outros, fazendo com que a depressão seja um quadro bastante complexo de ser estudado, variando de pessoa para pessoa. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – V), a depressão pode ser dividida em vários subdiagnósticos, dependendo da maneira como aparece, do tempo, entre outros  fatores, mas se percebe em comum entre esses vários possíveis diagnósticos a perda do prazer em atividades que antes geravam satisfação, desânimo, vontade de chorar com uma certa frequência, em casos mais graves a pessoa passa a ouvir vozes, tem pensamentos suicidas, etc.


2. O olhar fenomenológico - existencial sobre o adoecimento psíquico

Pensar a psicopatologia por uma olhar fenomenológico-existencial é partir de outro ponto de vista, ponto de vista essa que busca romper com a tradição positivista instaurada na psicologia científica, mais especificamente, na de base neuropsicológica. Parte-se então do pressuposto que o homem pode ser visto além de uma relação causal – relacional com um mundo que o cerca, ou seja, buscasse uma superação do postulado de Descartes ao compreender o homem em uma relação sujeito-objeto, onde este sujeito através puramente da razão, consegue interagir e controlar o mundo. Para os filósofos e teóricos de base existencialista, a relação sujeito-objeto traz consigo uma dualidade, uma separação entre o homem e o mundo, sendo que a consciência seria sempre uma consciência para, ou seja, o homem e o mundo estão intrinsecamente ligados, não existindo separação entre eles.

Baseando-se nessa perspectiva, se inaugurou toda uma forma diferente de pensar a existência humana, inicialmente com Husserl, e com a ajuda de outros teóricos, passou-se a considerar que o homem, pode ser visto em uma dimensão de liberdade, ou seja, consegue superar seus determinismos, saindo de uma condição ôntica, onde sua existência já é dada apriori, indo para uma dimensão ontológica, onde pode fazer escolhas na sua vida, escolhas essas que podem inclusive contrapor padrões já pré-estabelecidos socialmente.

Nesse sentido, Heidegger nos trás que o ser está lançado radicalmente no mundo, ou seja, nossa existência existe independente de nossa escolha, estando lançados no mundo, temos a responsabilidade com nossas escolhas, no entanto, por vezes caímos em uma impessoalidade, ou seja, deixamos que os outros escolham por nós, ou seguimos planos de vida já socialmente estabelecidos como padrões, sendo que a dimensão ontológica da liberdade perpassa escolhas de vida que partem de um projeto de vida pessoal, como salienta Sartre.  Ao falar sobre a liberdade radical ao que estamos lançados, Heidegger acaba por trazer também a dimensão da angústia, da solidão, do tédio, da morte, que são aspectos que perpassam necessariamente o existir humano.

No que se refere ao adoecimento psíquico, podemos pensar a psicopatologia por um olhar de Karl Jaspers, que a compreende como uma fechamento de possibilidades existenciais, ou seja, o ser lançado em sua existência acaba por se cristalizar em modos de ser que não o possibilitam se adaptar a novos contextos, fazendo com que adoeça psiquicamente. Ao nos referirmos a existência, é necessário levar em conta as várias dimensões, entre elas temos a orgânica, sendo assim, seria um erro desconsiderar os conhecimentos da neuropsicologia, no entanto, busca-se uma superação de uma perspectiva puramente orgânica, tendo uma preocupação mais com ser-doente, ou seja, com a condição existencial da pessoa que vivencia a doença, do que com o diagnóstico em si.


3. Um olhar sobre o filosofar a partir de Gerd Bornheim e sua relação com a existência

Gerd Bornheim é considero um dos grandes filósofos brasileiros, sendo ele responsável pela popularização dos pensamentos de Martin Heidegger no país, tendo uma relevância no contexto acadêmico filosófico. Em seu livro  “Introdução ao filosofar” o autor trás uma reflexão acerca dos fundamentos do ato de filosofar, diferenciando-o com a maneira como pensamento ocorre no cotidiano, mostrando também características específicas que tornariam o filosofar um tipo de pensamento diferenciado, que por vezes perpassa a vida do cidadão comum, mesmo que este não seja consciente disso.

Inicialmente o autor trás que a condição básica do filosofar passa por três aspectos, sendo eles a admiração, a dúvida e a insatisfação moral.  A admiração seria a condição primeira, sendo esta o encanto da pessoa pelo mundo, o homem que se detém diante de um fenômeno e este fenômeno lhe causa admiração, trazendo sua atenção para ele. O segundo aspecto, a dúvida, é aquele que permite ao homem sair da doxa, ou seja, do pensamento comum irreflexivo, e formular um problema diante da realidade, podendo ser ele “por que tal situação acontece?” inaugurando assim o que pode se tornar o agir filosoficamente, e também o agir cientificamente, por fim, temos a insatisfação moral, que passa pelo questionamento de ideias e valores moralmente naturalizados, valores esses que são repetidos como verdades absolutas desde a primeira infância, ao se questionar esses posicionamentos, tem-se a possibilidade de alcançar uma postura de cunho filosófico.

O autor também trás outro aspecto importante do agir filosoficamente, sendo ele o pensamento dogmático, que pode ser compreendido como um conjunto de conceitos acerca do mundo, que trazem ao cidadão comum um senso de pertencimento, um sentido dado apriori, o homem dogmático é aquele que não se questiona sobre sua existência, pois ela já tem sentido por si própria, através de crenças que são comuns, podendo ser elas a religião, o trabalho passado por gerações, etc; a superação do pensamento dogmático passa por um ponto que o autor chama de negatividade. Este conceito pode ser compreendido como o processo no qual o homem se questiona sobre suas verdades naturalizadas, dando-se conta que elas quando revistas, não se sustentam sozinhas, tendo assim uma consciência da angústia, do nada, que perpassa a existência humana, ou seja, o homem diante da negatividade, vê-se em sua dimensão de liberdade, podendo escolher livre das verdades que acreditava guiar sua vida, mas ao tempo percebendo seu distanciamento e falta de sentido no mundo.

Essa experiência da negatividade é o que Bornheim acredita ser um dos pressupostos do agir filosoficamente, pois segundo o autor, este é um modo que engloba necessariamente o sofrimento e a dor, ao fazer uma analogia com o mito da caverna em Platão, deste homem que ao buscar o conhecimento, tem que necessariamente também lidar com a dor que esse conhecimento trás. O autor vai diferenciar os tipos de negatividade, sendo  que nos interessa nessa reflexão, a negatividade existencial passiva, que se caracteriza por ser aquela onde a pessoa se vê diante de sua existência, questionando valores, crenças, e como este homem do cotidiano por vezes ele está inserido em um pensamento dogmático, acaba devido a situações limites, como morte, perda de um emprego, entre outras situações marcantes, se vendo existencialmente frágil, questionando suas verdades pré-estabelecidas, podendo cair em um adoecimento psíquico.


4. A relação entre o filosofar em Bornheim e a depressão na base existencial

Por fim, podemos pensar em uma possível relação entre a existência humana enquanto intrinsecamente filosófica, pois enquanto seres, estamos lançados em uma existência, tendo que fazer escolhas, que podem ou não ser livres, dependendo do grau de engajamento existencial que a pessoa faz, e o filosofar, pois se considerarmos a atitude filosófica como nos propõe Bornheim, independente se a pessoa está no meio acadêmico ou não, somos perpassados pela filosofia e a pela postura filosófica em vários momentos de nossas vidas.

Ainda segundo o autor, podemos perceber que o existir humano possui uma característica fundamentalmente dogmática, sendo as ciências objetivas bastante perpassadas por esse dogmatismo, sem questionar teses centrais, apenas produzindo conhecimento devido a uma demanda prática social. Esse aspecto se percebe por exemplo, quando nas neurociências se fala sobre a depressão, e sobre o pensamento suicida como um sintoma psicopatológico, mas em nenhum momento se propõe a questionar sobre a tese central do valor da vida como bem máximo, tanto é que quando alguém questiona isso, logo é enquadrado em um diagnóstico clínico. A partir de um olhar filosófico, poderíamos por exemplo, trazer um questionamento sobre até que ponto esse se questionar sobre a validade da vida não pode ser visto também como um agir filosoficamente? E se talvez, ao mudar a abordagem, o que normalmente é visto como doença, não possa ser visto como um dado existencial da vida daquela pessoa que questiona, ou seja, deixar de ser um sintoma e passar a ser mais um aspecto existencial?

Deve-se deixar claro que em nenhum momento os demais fatores devem ser deixados sem consideração, como o sofrimento atrelado a um quadro depressivo, as alterações bioquímicas, o risco que a pessoa corre, a seriedade da situação,  o que se propõe nesse breve artigo é trazer uma reflexão sobre as próprias bases de como se compreende a depressão, e se talvez não haja um reducionismo ao olhar ela apenas como um quadro clínico passível de reversão por um tratamento psicoterapêutico e farmacológico.

Talvez através de um olhar filosófico, possamos compreender a depressão como uma abertura existencial dessa pessoa diante de sua negatividade, ou seja, esta pessoa passa a questionar pensamentos dogmáticos que sempre o guiaram, e com uma postura não de censura, mas de acolhimento dessas questões existenciais, levando-as a sério, poderia ocorrer um acolhimento bem mais aprofundado desse paciente, que deixa o status de doente, e passa a ser visto em sua singularidade existencial.

Esse ponto pode ser percebido através do próprio uso da palavra depressão no cotidiano, sendo vista como qualquer situação onde a pessoa sai do que é considerado padrão, ou seja, um projeto idealizado de felicidade coletiva e de uma liberdade ilimitada, sem responsabilidades, angústias, que esconde por trás do discurso, um dogmatismo no pensamento. Partir dessa análise e de como o próprio conhecimento científico de certa forma reforça parte desse mito de uma felicidade plena, é trazer à tona a dimensão existencial defendida por Heidegger, e reforçada por Bornheim, mostrando como um olhar filosófico sobre uma condição vista puramente como doença, enriqueceria os debates acerca da depressão, e de sua capacidade transformadora da existência.
Thales Coelho
Enviado por Thales Coelho em 21/05/2019
Reeditado em 21/05/2019
Código do texto: T6653142
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Thales Coelho
São Luís - Maranhão - Brasil
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