Os filmes de Ken Loach e a Sociologia do Trabalho

A importância do trabalho do cineasta inglês Kenneth “Ken” Loach, para os estudantes e profissionais que atuam com a Sociologia do Trabalho foi destacada na tarde desta segunda-feira (15 de junho), pelo professor Romero Venâncio. Ele ministrou a aula do terceiro módulo do Curso de Formação Cinema & Marxismo, promovido pelo Centro de Estudos Karl Marx – Região Agreste.

Mestre em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), atualmente Romero Junior Venâncio Silva é professor do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Cinema, da Universidade Federal de Sergipe (UFSE). Atua com temas relacionados à Filosofia do Cinema e Teoria do Documentário; Estética e Filosofia Contemporânea: Marx, Nietzsche, Sartre e Hannah Arendt.

Durante quase duas horas, o professor falou da militância, da trajetória política e profissional de Ken Loach, considerado por ele como o cineasta do mundo do trabalho. “É o mais importante do mundo contemporâneo; o cineasta que mais representa hoje o que eu chamo de sociologia do trabalho. Ele é, sem e dúvida, o cineasta do mundo do trabalho e a sua obra é muito marcada por isso”, defendeu.

Para exemplificar essa afirmação, Romero Venâncio cita uma das obras mais recentes do cineasta: “Eu, Daniel Blake” (2016). Na sua opinião, é “uma das mais importantes dos últimos dez anos”. Aborda o desemprego, insegurança alimentar, sofrimento, a relação entre os idosos e o mundo da informática e outros temas do cotidiano. “É uma aula de sociologia do trabalho; um filme de cortar coração, mas extremamente necessário”, resumiu.

Quem é ele?

Na sua trajetória, Kenneth “Ken” Loach fez teatro. Produz longas metragens desde o final da década de 1960. Mas antes, de 1961 a 1969, trabalhou na BBC (Londres), onde produziu e dirigiu diversos documentários e curtas-metragens para a televisão britânica. No cinema, estreou com Kes (1969), baseado no romance "A Kestrel for a Knave", de Barry Hines (1968). O filme recebeu duas indicações para o British Academy of Film and Television Arts (Academia Britânica de Artes do Cinema e Televisão), o BAFTA: de Melhor Argumento e Melhor Realizador.

O cineasta, conquistou várias premiações, como as três vezes do Prémio FIPRESCI, no Festival de Cannes, com os filmes "Black Jack" (1979), "Riff-Raff" (1990) e "Terra e Liberdade" (1995); o Prémio OCIC, no Festival de Berlim, com o filme "De que lado você está?" (1984); o Prémio do Júri, no Festival de Berlim, por "Ladybird" (1994); o Prémio de Melhor Curta-metragem, no Festival de Veneza, por "11 de Setembro" (2002); e a Palma de Ouro, no Festival de Cannes, por "Eu, Daniel Blake" (2016), além do Leão de Ouro (1994), no Festival de Veneza, em homenagem à sua carreira no cinema.

A aula

O título do terceiro módulo do Curso de Formação Cinema & Marxismo foi “Ken Loach e o anticapitalismo”. Já na abertura da aula, Romero Venâncio se apresenta como fã número um do cineasta. Ele admitiu não ter visto todos os filmes do britânico, mas adorou todos os que assistiu.

O professor apresentou detalhes da vida e da condição ideológica do cineasta. “O cinema dele é anticapitalista por natureza e o capitalismo em Ken Loach é uma tragédia”, comentou. A aula ocorreu das 16h às 17h50. Foi transmitida pelo Facebook, na página do Centro de Estudos Karl Marx – Região Agreste (@centrokarlmarxagreste), seguida de perguntas dos participantes.

Para os interessados em se aprofundar no tema, Romero Venâncio sugeriu três leituras e um documentário: o ensaio “Free Cinema: o elogio do homem comum”, de Cecília Antakly de Mello (Revista USP, 2008); o ensaio “O cinema britânico: realismo, classe e televisão pública (1984-2007)”, de Mauro Baptista, no livro “O cinema mundial contemporâneo” (Papirus Editora, 2008); o artigo “Ken Loach ou um cinema a partir dos de baixo”, produzido pelo próprio Romero e publicado na revista eletrônica Esquerda Diária (novembro 2019); e o documentário “Ken Loach, um cineasta controverso” (Philos TV, 2018).

Romero dividiu a sua exposição em três tópicos: 1) O Free Cinema, a partir do texto de Cecília Antakly de Mello; 2) A tradição da BBC na produção de documentários e; 3) A trajetória profissional do próprio Ken Loach, influenciada pelo movimento Free Cinema, que durou de 1956 a 1959; pela sua experiência nos bastidores da TV londrina e pela sua militância de esquerda.

Filmografia

Para discutir a obra do cineasta, com mais de 30 longa metragens, de 1959 a 2019, foram escolhidos cinco filmes: “Kes” (1959), “Terra e Liberdade” (1995), “Uma canção para Carla” (1996), “Pão e Rosas” (2000) e “Eu, Daniel Blake” (2016).

Segundo o professor, os filmes de Ken Loach são muito sensíveis, dotados de realismo, com foco em dramas sociais. Na sua obra são observadas sete características: 1) O elemento central é sempre a pobreza em bairros operários e arredores londrinos; 2) Conflitos familiares por questões sociais (alcoolismo, concepção classista de família); 3) Crise do estado de bem estar social (encena a sociologia do trabalho nos filmes); 4) Ascensão do liberalismo e a ausência do Estado nas políticas públicas; 5) Conflitos com a Irlanda (sempre foi simpático aos católicos irlandeses); 6) Migração e vulnerabilidade; e 7) O mundo do trabalho capitalista e suas contradições (representa a sociologia do trabalho a partir da classe trabalhadora).

ALEXANDRE ACIOLI
Enviado por ALEXANDRE ACIOLI em 16/06/2020
Reeditado em 21/04/2021
Código do texto: T6979349
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