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Ficção científica sem ID

                    Fluam, minhas lágrimas, disse o policial

Segundo livro, segundo romance, que leio do Philip K. Dick; o primeiro foi We Can Build You, que eu gostei mais. Ele me parece um escritor muito irregular, seus protagonistas não tem personalidade, ou melhor, tem tanta personalidade quanto um narrador em terceira pessoa omnisciente, o que me lembra os protagonistas do J.G. Ballard, amorfos, delineados pelas luzes das circunstâncias e do cenário com alguns arroubos de individualidade devorados por personagens mais fortes; eles são, sem dúvida, os próprios autores inseridos na ficção que, conscientemente ou não, e em detrimento de uma maior riqueza literária, agem como alter-egos oníricos: são apenas olhos observadores, pontos que se movimentam no espaço em todas as direções do seu universo imaginado, onde o sonho que os envolve, ou melhor, a ficção na qual estão inseridos, é que revela a sua verdadeira personalidade como um espelho. Não sei se me expressei bem, mas é por isso que os personagens mais interessantes de Ballard e K. Dick, por exemplo, são os coadjuvantes; àqueles que devoram o protagonista que perde o fôlego e a voz diante deles, uma morte súbita como a da chama Gatbsy ao encontrar-se, depois de anos, com a delicada Daisy. O que são os protagonistas anêmicos de Ballard perto dos seus personagens obscuros e megalomaníacos como Vaughan? O que é Jason Taverner, super-celebridade, artista, cantor e apresentador, e não esqueçamos, um tipo 6, perto do general Buckman e sua irmã Alys? Ou Louis Rosen, de We Can Build You, perto de Pris Frauenzimmer? Sim, foi a mescalina. O ponto que quero chegar, e talvez isso não importe para mais ninguém, é que, para mim, a falta de personalidade de seus protagonistas, e aqui eu incluo o britânico também, prejudica demais a minha convicção na história toda. Taverner é, ora arrogante, ora destemido, ora atencioso, ora inteligente, ora estúpido, ora crédulo, ora astuto, ora vulnerável, ora passivo, ora solícito, ora frio... Buckman é um personagem muito mais forte, muito mais interessante; aliás o título tem a ver com ele. Alys e Kathy Nelson lembram um pouco Pris, e as duas, por sua vez, lembram um pouco, e mais uma vez, as figuras femininas em Ballard. São atraentes e ao mesmo tempo inatingíveis para o protagonista, em K. Dick fisicamente inatingíveis, enquanto em Ballard o abismo é emocional mesmo quando há carnalidade; são presenças aluadas, indiferentes e alheias na qual o ''herói'' passa a orbitar. Eu poderia chamá-las de ''garotas maníacas fadas sonhadoras'', expressão que eu geralmente vejo cunhada de forma pejorativa para destacar e criticar a futilidade e a artificialidade do papel feminino na obra, e, talvez isso se aplicasse aqui, se ao menos Taverner fosse sólido; e, quem sabe, talvez se aplique mesmo, e assim teríamos diante de nós várias personagens fáceis, sombras no cenário, tanto masculinos como femininos, o que explicaria minha falta de entusiasmo por histórias tão interessantes como as que K. Dick elabora; porque isso elas o são, deveras interessantes. Meu sentimento é de que além de interessantes, poderiam elas ter tido um peso e uma importância incontestável, indelével; em outras palavras, poderiam aproximar-se do que eu chamaria de arte.



Texto publicado originalmente no Skoob (16/03/2019).
vagas paragens
Enviado por vagas paragens em 15/04/2019
Reeditado em 23/04/2019
Código do texto: T6624335
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
vagas paragens
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 25 anos
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