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O grito justo da erudita ingênua
 

A medicina é o remédio
para todas as dores humanas,
apenas o amor é um mal
que não tem cura.

Propércio


Iniciamos com uma citação do Professor Julio Sanderson:

Sempre disse que o médico, no dia do registro do seu diploma, tem conhecimentos técnico-científicos incorporados à sua cultura, mas não tem a consciência crítica dos conhecimentos adquiridos. Só tem a consciência ingênua. No ato da diplomação é um erudito inexperiente. Depois da residência é um culto experimentado. Em linguagem sociológica, ou melhor, na filosofia do saber, significa capaz de realizar, de fazer. Quem cultiva e reconhece o saber anterior dos que chegaram antes, pratica o “Cultus”. Só quem, como nós, sentiu a barreira entre o saber ingênuo e o saber crítico é capaz de guardar e repetir o tempo da angústia.

Houve um tempo em que os cursos de pós-graduação não eram apanágio apenas das universidades. Chefe da Cirurgia do Hospital Getúlio Vargas, Júlio Arantes Sanderson de Queiroz criou um “Curso de Pós-Graduação Médico-Cirúrgica”. Assim estruturou uma residência médica com o nome trocado, na mesma época em que Aluísio Salles estruturava a residência médica do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro.
Título Provisório 279
O resultado foi de índole repressiva, nas palavras do próprio Júlio Sanderson: “... despertamos o dragão adormecido, ou seja,as desconfianças da elite burguesa, melhor, da pequena burgueses de Gorki”. No dia 5 de julho de 1954, Sanderson foi destituído da Chefia do Serviço de Cirurgia pelo Prefeito Coronel Dulcídio do Espírito Santo Cardoso. Entretanto, três anos depois, com Francisco Negrão de Lima como prefeito, tendo Mourão Filho como
Secretário de Saúde, foi promulgada a lei de constituição oficial da residência médica.
Segundo Sanderson:
A primeira reunião no Hospital Pedro Ernesto foi desapontadora. Alguns chefes preferiram não democratizar o ensino. Com o tempo foram vencidos, melhor convencidos e até convertidos, alguns, em apóstolos da residência médica. A residência foi aberta a candidatos de todo o país e oferecida a
serviços de nível elevado. Mais tarde, a oficialização, sem as devidas precauções, tornou--se vulnerável ao assédio da demagogia que assolou a categoria médica.
Sempre foi nosso propósito entregar a seleção dos serviços capacitados, bem como o recrutamento de habilitados à residência médica, às sociedades especializadas. Nunca ao pragmatismo burocrático, que acabou convertendo a bolsa de estudos em “salário” que traz o estigma da esquerda festiva e a transformação do residente em médico efetivo, ocupado em outros afazeres. Não é a regra, mas é mais frequente do que aceitável.
O resultado foi de índole repressiva, nas palavras do próprio Júlio Sanderson: “... despertamos o dragão adormecido, ou seja, as desconfianças da elite burguesa, melhor, da pequena burguesia de Gorki”. No dia 5 de julho de 1954, Sanderson foi destituído da Chefia do Serviço de Cirurgia pelo Prefeito Coronel Dulcídio do Espírito Santo Cardoso. Entretanto, três anos depois, com Francisco Negrão de Lima como prefeito, tendo Mourão Filho como
Secretário de Saúde, foi promulgada a lei de constituição oficial da residência médica.
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Entre os primeiros residentes do Hospital Universitário Pedro Ernesto, podemos relacionar Moysés Sklo, Ivan Mathias, Ronaldo Gazzolla, ainda nos anos sessenta. À época, e até meados dos anos 80 ao menos, o staff clínico do hospital, como consequência do entulho autoritário do largo período de existência da cátedra vitalícia, era indicado pelo professor titular de cada disciplina, e é óbvio ter sido levado em conta o critério de competência, não é demérito para nenhum dos professores terem sido contratados dessa forma, era assim e pronto, não só na antiga UEG, como por muito tempo na Faculdade Ciências Médicas da UERJ, isto é, ao menos até os anos iniciais da década de 1980.
“Quando o estagiário (médico ou acadêmico) faz o trabalho de um médico-funcionário, está roubando a sua própria oportunidade.”
Desde a chegada dos médicos-residentes ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, da mesma forma ocorrida em todos os hospitais do Brasil, os médicos em plantões noturnos transferiram para os residentes, de corpo e alma, gradativa e inexoravelmente, as atribuições de atendimento noturno, auxiliados por internos ainda sem graduação, sob a chefia do residente em treinamento no seu segundo ano de residência médica. Médico ainda em formação do senso crítico do conhecimento adquirido, passível, portanto, de
ter dúvidas quanto a melhor conduta ou diagnóstico.
Na sala dos médicos, onde se reuniam os médicos-residentes das diversas especialidades, todos estavam sob a chefia de outro residente, nas condições estabelecidas, o que configurava e configura mixagem de atividades de aprendizado durante a rotina, no horário de 8 h da manhã até as 17 h, isto é, trabalho de assistência médica sob a supervisão discente e exercício da atividade médica profissional à noite e nos fins de semana, horários em que o hospital ficava entregue à responsabilidade única dos residentes, algo incompatível com a situação estrita de treinamento orientado sob supervisão qualificada.
Ocorria, que, apesar de a Faculdade de Ciências Médicas da UERJ e o Hospital Universitário Pedro Ernesto terem sido Título Provisório 281 dos primeiros a remunerar seus internos e médicos-residentes, não havia nenhuma regulamentação trabalhista ou didática da residência médica.
No início de 1979, quando a turma FCM-1978 terminou seu internato, se graduou e começou a residência médica, houve um fato inusitado: na pediatria, a médica-residente Denise de La Reza, no vigor de uma humildade muito rara entre nós, onipotentes médicos, negou-se a dar plantão sem a presença de um médico do staff, porque achava não poder assistir aos pacientes, apenas sob a supervisão de um residente com a experiência de
um ano de formado.
Tomou essa posição de forma irredutível.
Foi convocada uma reunião dos residentes da pediatria. Durante cerca de uma hora o assunto foi discutido com tentativas debalde de convencimento da médica-residente no sentido de ser plantonista sem supervisão médica efetivamente qualificada e responsável.
Impasse.
“Ela tem razão, ela está certa.”
“Puxa!... Até que enfim apareceu alguém de bom senso”, disse Denise de La Reza.
A decisão de que os residentes da pediatria não aceitavam mais dar plantões sem supervisão de um médico já profissionalizado foi levada à Chefia do Serviço de Pediatria e Puericultura do HUPE-UERJ. Pareceu mágica: dias depois, efetivamente, no máximo uma semana, surgiram ex-alunos já bastante experientes para ocupar os plantões de segunda a sexta-feira, com rodízio de plantonistas nos finais de semana a fim de que os internos e residentes atuassem sob a supervisão de um médico já detentor de profissionalização completa. Mesmo assim, não raro, nossas condutas eram criticadas e discutidas pelos professores da rotina. O que, infelizmente, só nos hospitais oferecedores de residência médica é normal. Os novos plantonistas-professores chegavam ao meio-dia
e saíam às 8 h da manhã do dia seguinte.
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Fabio Daflon
Enviado por Fabio Daflon em 04/04/2017
Código do texto: T5961300
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Sobre o autor
Fabio Daflon
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 63 anos
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