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POR UMA GRAMÁTICA DA FANTASIA



“Para mudá-la – a sociedade – são necessários
 homens criativos que saibam usar sua imaginação. ...
desenvolvamos... a criatividade de todos para mudar o mundo.”
(Gianni Rodari)

POR UMA GRAMÁTICA DA FANTASIA

Quais são os limites entre a realidade e a fantasia? Existe uma fronteira que separa o que existe daquilo que é apenas imaginado? Como podemos melhorar o potencial do nosso pensamento criativo, da nossa imaginação? A criatividade pode contribuir para melhorar o mundo?
 
Gianni Rodari (1920 – 1980), autor italiano,  escreveu uma obra intitulada “Gramática da Fantasia” (SP: Summus, 1982). Nesse livro, Rodari, escritor e educador, registra as experiências de suas oficinas com professores e com crianças na área do incentivo à criatividade, na busca de desvendar os códigos que regem a imaginação e a fantasia. Ele sugere várias técnicas de abordagem que favorecem o processo criativo e a invenção de histórias. Aqui veremos apenas um pequeno recorte de algumas de suas ideias. Importante salientar sua preocupação com o desenvolvimento da criatividade a serviço da transformação do mundo: um mundo alegre, divertido, mais feliz.

O autor parte de uma metáfora: a pedra no pântano. Ele diz que uma palavra atirada à nossa mente se assemelha a uma pedra atirada a um pântano, a um lago. A pedra, ao tocar a superfície das águas, forma círculos concêntricos que vão se espalhando até os limites possíveis. Ao afundar, a pedra mexe com todo aquele ambiente, assusta os peixes, revolve o lodo depositado no fundo. Do mesmo jeito, a palavra atirada à mente traz uma série de modificações através de associações que ela estabelece com outras palavras. Esta palavra dispara os mecanismos de lembranças remotas ou recentes. Uma simples palavra tem o poder de revolucionar a nossa mente e colaborar com o processo criativo.

Tomemos como exemplo a palavra “flor”. Atirada à mente, em cada pessoa trará uma determinada evocação, provocará alguma associação correlata ou não, despertará algum sentimento ou emoção. Alguns pensarão em “jardim”. Outros, em “rosa” ou em “perfume”. Alguém poderá pensar em “espinho”. Outros, ainda, poderão pensar em “amor”. E assim por diante.

Aí o autor avança na sua “gramática da fantasia” e discorre sobre o conceito que ele denomina de “binômio fantástico”. Se agregarmos à palavra “flor” uma outra palavra, daí poderá surgir alguma variável interessante. Por exemplo, se colocarmos ao lado da palavra “flor” a palavra “rinoceronte”, isso, com certeza, trará um pouco de incômodo, mas também poderá sugerir novas vertentes para a criação de histórias envolvendo duas coisas tão diferentes: a leveza da flor e o peso de um animal grotesco como o rinoceronte. O binômio fantástico funciona assim: uma palavra modifica o sentido da outra, agrega novas possibilidades de trânsito para a imaginação e a fantasia trabalharem.

Com base no binômio fantástico de Rodari, e valendo-me das palavras “flor” e “rinoceronte”,  criei o seguinte microconto:

“Era uma vez um rinoceronte que amava cultivar rosas. O cheiro das flores o inebriava e o fazia sentir-se mais leve, tão leve quanto uma pluma. Certo dia, ao passear pelo seu jardim, o rinoceronte apaixonou-se por uma linda borboleta azul. E, desse dia em diante, nunca mais foi o mesmo. Dizem que criou asas e passou a voar. Com mais leveza que uma bolha de sabão.”

Existem outras possibilidades de exploração desse “binômio fantástico”. Vejam, por exemplo, um terceto que elaborei sob a forma de poetrix, que é um gênero poético brasileiro vindo da Bahia, codificado pelo poeta Goulart Gomes. (http://www.revistadeouro.com/2017/08/o-que-e-poetrix-um-artigo-de-jose-de.html)
 

RINOCERONTE
Na ponta do focinho,
espeta-se
delicada rosa-flor.

A verdade é que o “binômio fantástico” descortina um horizonte infinito de possibilidades, todas elas contribuindo para os voos imaginativos, para o despertar do potencial criativo latente em cada pessoa. Quem é professor ou professora, poderá se valer dessa estratégia para despertar o prazer de criar em seus alunos e fazê-los viajar nas asas da imaginação.

Assim, tente você também, atirar, não uma, mas duas palavras à sua mente. A partir delas você terá o seu binômio fantástico, as duas palavras mágicas que lhe abrirão os portais da  imaginação criativa. Elas serão o seu “abre-te Sésamo” para os reinos da fantasia, onde tudo é possível: os sonhos viram realidade e as utopias poderão se concretizar. Quem sabe, aventurar-se no desenho de um projeto de uma sociedade mais digna e mais justa para os homens aqui na face da Terra? Solte a sua imaginação. Vale a pena tentar.



*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Membro da SPVA/RN e da UBE/RN.Autor de literatura infantil (A Marreca de Rebeca, A Cozinha da Maria Farinha, Poemares, O mundo em minhas mãos, Poetrix, Dicionário Engraçado, Poemas brincantes, Vaca amarela pulou a janela).  Contato: josedecastro9@gmail.com

LEITURA RECOMENDADA

RODARI, Gianni. Gramática da Fantasia. SP: Summus, 1982. 9ª. ed.



José de Castro
Enviado por José de Castro em 27/08/2017
Código do texto: T6096798
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Sobre o autor
José de Castro
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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