Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

IMPRESSÕES SOBRE "A MARQUESA DE O...", DE KLEIST

Estas são algumas impressões de leitura, assistemáticas, incompletas, sobre a novela "A Marquesa de O...", de Kleist:

"Em M..., célebre cidade da alta Itália, a marquesa de O..., dama de reputação ilibada e mãe de vários filhos finamente educados, comunicou, pelos jornais, que ela, sem saber como, se tinha tornado grávida e, em consequência, o pai da criança que iria dar à luz deveria anunciar-se, uma vez que ela, por motivos de família, estava decidida a casar-se com ele. A senhora que dava um tão estranho passo, premida por circunstâncias irremediáveis, excitando o sarcasmo do mundo, era filha do senhor de G..., comandante do forte de M" (p. 135).

O parágrafo que abre esta novela de Kleist tem por efeito pretendido o choque imediato, ainda que realize esse choque numa narrativa que perfaz o oposto a esse inicial por-tudo-às-claras: há um constante encobrir, um obscurecer dos acontecimentos, a começar pelo nome dos personagens e lugares. O próprio contar da estória encontra obstáculos para se dizer. Parece-nos que são obstáculos morais. Kleist joga no terreno de um conto que faz pensar com um olhar distanciado os julgamentos e condenações no mundo social. Ao mesmo tempo abre o jogo e o fecha.

Há algo da ingenuidade romântica em sua linguagem, mas se percebe que o narrador mantém certa distância em relação a sua própria enunciação. A ingenuidade do discurso romântico leva a um pudor que obscurece as situações, deixa algumas passagens no âmbito da sugestão ou do implícito. Edgar Allan Poe no famoso conto "A carta roubada" ou o romance "O Processo" de Kafka são exemplos de escritos literários que trabalham com uma lógica análoga: obscurecer para esclarecer.

Nos três, contudo, a distância do enunciador e da enunciação gera efeitos de desestabilização do discurso ingênuo, em última instância, desestabiliza o pudor das elites, o discurso cortês, letrado. Kleist foi um escritor alemão do século XIX e, na novela, descreve o comportamento de ficcionais personagens aristocráticos e militares de sua época. A literatura, ligada a essas classes sociais, num ascendente cenário burguês, Kleist parece utilizar-se dela, sem endossá-la, mas de alguma maneira subvertendo-a por dentro, por meio desse distanciamento.

O caso da Marquesa de O... é o caso de uma literatura de guerra. No cenário inicial, uma guerra literalmente, com o pai da Marquesa, um general, perdendo território para inimigos russos, o que obriga a família a se mudar de casa. A "guerra" continua, fora do campo de batalha e dentro da sociedade civil, com os desentendimentos entre a Marquesa e sua família a respeito da gravidez, e também as táticas de um certo conde F..., um oficial russo, que insiste em casar-se com ela. A conjugação do bloco civil-familiar e do militar gera esse efeito de guerra permanente: nas cenas de violência pura do pai general, como autoridade incontestável; e mesmo nos contra-ataques da filha, através da carta, e da mãe, que ameaça separação definitiva do cônjuge.

A letra da ingenuidade evoca a concepção imaculada, cristã, porém a posição da mulher é impossível, porque num mundo hostil:

"O pensamento, todavia, de que, na sociedade burguesa, devesse aderir uma nódoa de vergonha ao pequenino ser, concebido na maior inocência e pureza, e cuja origem, exatamente porque vinha envolta em mistério, parecia mais divina do que a de outros homens, era-lhe intolerável" (p. 156).

Kleist já arma uma escrita de guerra, mostrando, à distância, os conflitos e a impossibilidade, personagens que que vivem uma vida pragmática, em contradição com a ingenuidade de seu discurso. Tudo isso de uma forma sutil. Sem recurso a uma ironia explícita. Mas por meio de uma operação implícita dentro da própria escrita, na montagem mesmo das personagens e da narrativa, que se mostra cada vez mais insustentável, e sem trégua.

Edição utilizada:

KLEIST, Heinrich von. Novelas. São Paulo: Editora Três, 1974. (Coleção Biblioteca Universal).  
André Serrano
Enviado por André Serrano em 28/06/2017
Reeditado em 05/08/2017
Código do texto: T6039381
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
André Serrano
Vila Velha - Espírito Santo - Brasil, 25 anos
25 textos (880 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/11/17 06:15)
André Serrano