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QUANDO O AMOR DE MÃE É PERIGOSO?
Deveria ter lido quando era adolescente, teria feito muita diferença nas minhas escolhas políticas.
Baltar
Certo dia vinha andando apressada no Centro de Maceió e vi na vitrine da antiga Livraria Caetés a seguinte frase: "consideramos o amor de mãe muito mais perigoso para a humanidade que todo o arsenal de armas atômicas." Como já era mãe na época,  entrei imediatamente e comprei o Livro que explicaria aquela frase: UTOPIA E PAIXÃO, autoria de Fausto Brito e Roberto Freire, Editora Cultrix.
 O texto continuava dizendo assim: "Estas armas servem às chantagens do jogo de poder internacional. Mas isto tudo é controlável, pois faz parte de um jogo mais ou menos ético e universal. No fundo, apesar de tudo, temos pavor, horror das armas nucleares. Agora, quanto ao amor de mãe, é justamente o contrário. Nós o veneramos. E é através dele que o autoritarismo penetra nas pessoas e provoca um outro tipo de desintegração. Em vez de nuclear, é uma desintegração bioenergética que nos torna dependentes e impotentes diante do autoritarismo, venha ele de onde vier, da família, do Estado, do céu e do inferno. Nós nos habituamos a viver com ele e não conseguimos mais viver sem ele: é a morte da originalidade, é a impotência e incompetência para a liberdade. O amor de mãe de que falamos é aquele desenvolvido acima do necessário, acima do biológico, acima do real, acima do amor. O amor de mãe que é necessário, que todo mundo precisa e nós não podemos viver, realmente, sem ele, é o amor de base mamífera. Freud, sempre muito trágico, não percebeu a ludicidade gostosa de nossa primeira paixão ontológica. O “excesso” de amor do tipo “mãe” ou do tipo “complexo de Édipo” enfraqueceu o homem de tal forma que ele aceita o poder, a dominação, a injustiça social, as armas nucleares, enfim, todas as faces do autoritarismo. Ninguém nasceu autoritário. O ser autoritário se produz através de um processo pedagógico que começa nas relações afetivas familiares. É importantíssimo desmitificar a “mãe” tanto quanto Freud fez com a “criança”. Quando ele disse que a criança tinha uma sexualidade dirigida em relação à mãe, ocorreu um grande escândalo. Não se admitia isso porque a criança era sinônimo de anjo e pureza. Para além do verdadeiro amor de pai e mãe — uma coisa absolutamente saborosa, insubstituível, maravilhosa — existe uma degradação deste amor. Os pais e as mães não sabem que muitas vezes estão trabalhando a serviço do poder do Estado para destruir nosso poder de contestação, de identidade pessoal, de espontaneidade criativa. Estão impedindo que se realize plenamente o que eles próprios produziram em nós com o seu amor inconsciente e antropológico. A sociedade requer dos pais, dentro da pedagogia da opressão, o desempenho de papéis exercidos de uma maneira afetuosa, seguindo um esquema de chantagens afetivas. Aliás, nas relações mais tipicamente amorosas, em grandes e falsas paixões, nós acabamos exercendo chantagens afetivas que subordinam a outra pessoa ao nosso autoritarismo, e ela responde a isso se fazendo de vítima, o que é outra chantagem, igualmente autoritária e poderosa.
Shakespeare conseguiu passar essa imagem, essa idéia, mostrando como o poder familiar, a competição pelo poder entre as famílias torna impossível a felicidade amorosa dos filhos. Não se pode amar porque não se estabeleceu um acordo político de poder entre as famílias. E se insistirem em se amar, vão ter de se destruir. A peça Romeu e Julieta fala com clareza disto: os dois se matam, se destróem porque não estão obedecendo à autoridade familiar, não conseguem se libertar dela, então dão-se à morte em lugar de ao amor. Nós odiamos a ideologia que está por trás dos belíssimos versos de Shakespeare.
É fácil vermos as relações autoritárias na atuação do Estado, da escola ou das chamadas instituições formais. Mas no caso da família, elas se escondem socialmente. Sem dúvida, é uma grande arma ideológica essa, de se esconder a opressão que passa através das relações afetivas. Não falamos só da família chamada burguesa, o mesmo ocorre com as famílias mais pobres e proletárias. Estas, indiscutivelmente, estão cheias de problemas de trabalho, moradia, renda, emprego etc. São sérias dificuldades, socialmente impostas, que convivem com um rigor moralista às vezes muito maior que o da família burguesa. O paternalismo, na classe proletária, existe com uma força incrível. A chantagem afetiva permeia toda a miséria imperante. Temos certeza de que esta é uma das causas fundamentais da destruição da eventual energia revolucionária do proletariado junto com a degradação humana produzida pelas condições em que se processa o trabalho no regime capitalista (e mesmo no socialismo burocrático). As relações afetivas são, então, as típicas “relações perigosas”. Por elas podem passar as maiores violências contra o ser humano. Contra os nossos inimigos, nós sabemos, de um certo modo, nos defender. Sentimos o cheiro deles, nos armamos e nos defendemos. Mas estamos indefesos contra as pessoas que amamos, nossos amigos, parentes, amantes. Estamos totalmente abertos para eles, eles penetram em nós como quiserem, sejam quais forem suas intenções. É uma contradição terrível: se não nos abrimos totalmente para receber o outro, nós não conseguimos amar. O amor não se faz com pedaços ou porcentagens. E se nos abrirmos inteiramente, estamos sujeitos ao risco de manipulação autoritária. Essas manipulações, quando são próprias do amor, fazem parte do jogo amoroso, são lindas — manipulações lúdicas, dentro do jogo natural do amor. Agora, existem manipulações trágicas, que praticamos sem saber, sem querer  e sem controle. Não há necessariamente más intenções, geralmente achamos que estamos fazendo bem à pessoa amada, ao próprio amor, nessas manipulações. Mas, na verdade, estamos servindo de carrascos e executamos amorosamente as liberdades, a serviço do Estado e da sociedade autoritária, que permanecem de mãos limpas e impunes nesses sombrios assassinatos ou genocídios cotidianos. Quando dizemos “eu te amo”, quando nos dizem “eu te amo”, e nós acreditamos e fazemos acreditar sinceramente nisso, não percebemos que possa ser este o mesmo sentimento que levou o piloto norte-americano a apertar o botão que fez cair a bomba atômica sobre Hiroshima, matando cerca de cem mil pessoas em poucos minutos e abrindo caminho para o genocídio final da humanidade, justificado pelo amor à liberdade em dois conceitos congênitos, embora ambos, historicamente, mentirosos e incompetentes. Hiroshima, meu amor não é apenas o belo título de um filme.
E a respeito desse pequeno livro poderia ser muita coisa dita. Deixo aqui como pista algumas resenhas, algumas observações escritas por leitores sobre o mesmo e o endereço autorizado dele em PDF.

Resenha 1 - Anônimo
Companheiros de muitas batalhas, Roberto Freire e Fausto Brito perceberam, na militância política tradicional, a limitação do mesmo jogo de poder que contestavam. E foram fundo, enxergando o vírus da mentira totalitária não só no sistema político do Estado, mas em todas as relações cotidianas, na
família, na escola, na sexualidade, no lazer, na disciplina, nos
valores morais, nas mínimas regras de comportamento que estru-turam a nossa vida em sociedade. Este livro é resultado das reflexões gravadas e editadas a partir de um longo papo entre os dois autores, num momento difícil, em que Roberto Freire encontrava-se temporariamente cego. Mas “a escuridão é luz bastante para a experiência revolucionária”, diz ele. Lançando mão de suas ferramentas de trabalho — a psicologia, a pedagogia, a sociologia e, sobretudo, suas paixões e utopias -Roberto e Fausto procuram compreender e curtir o mundo pela dinâmica do cotidiano, pois somente aí pode ocorrer uma verdadeira revolução. Utopicamente possível.
Utopia e Paixão, lançado em 1984, agora recebe novo tratamento gráfico, revisão do texto, novo prefácio dos autores, visando à sua atualização face às transformações por que passou o mundo nesse período.
O interesse permanente dos leitores pela obra, bem como a reflexão e os debates que provoca, sobretudo entre os jovens, tornou-a um marco original e importante na cultura brasileira contemporânea.

Resenha 2 Iran
Apaixonante
Uma obra apaixonante, libertária, sem marcas, mas com todos os pricípios de uma vida abundante e transbordante. Escrita de uma forma simples, mas cheia de paixão, nos fazendo perceber que a utopia não só é possível como necessária aqueles que querem viver uma vida baseada numa ousadia construtiva, sem limites impostos pela sociedade. Ou seja, nesta obra os autores cnseguem demonstrar que o homem é o agente da sua vida de maneira transformadora e libertária deixando de ser um mero espectador da sua própria existência. E a Paixão que por muitos teóricos é criticada, neste livro é exaltada como sendo o combustível de uma vida pulsante, pois não existe utopia sem paixão e nem paixão sem utopia. Uma obra para ser lida e indicada para outros, espero que gostem da leitura.

Resenha 3 Diego
Política do cotidiano
O livro é um soco no estômago da acomodação. Exorta que a mudança é algo que fazemos no cotidiano com nosso corpo, que o tempo de mudança é o aqui e o agora. E vai passeando por diversos âmbitos da vida, dos maiores aos menores, tecendo pontos de vista muito lúcidos sobre cada um deles. A leitura desta obra é um convite a correr o risco de seguir os seus sonhos, radicalizando a forma de viver.

Resenha 3 Aline
Fui atraída de cara pelo título. A política do cotidiano é a que me interessa. Eu não consigo acreditar que existam soluções para grandes problemas como corrupção ou concentração de renda se primeiro não se resolverem problemas "pequenos" de civilidade e tolerância. Infelizmente isso me põe em classificações bem radicais, como caxias, cdf, caga-regras e hipócrita. Como se eu quisesse que todos seguissem a minha cartilha. Bem autoritário. Mas, na verdade, eu vejo a vida em sociedade como um exercício de convivência, em que todos temos que ceder um pouco para que todos vivam com mais conforto. Traduzindo para o dia a dia: se eu quero viajar num ônibus limpo, eu não posso largar o copo de refrigerante (nem a embalagem de biscoito de polvilho, o papel de bala, o jornal...) no banco ou no chão. E se eu não dou importância a essas frescuras eu continuo não podendo fazer isso em respeito aos frescos que se importam. Parece bobagem, mas são essas bobagens que me chamam a atenção. É nessa esfera que eu posso agir para transformar. Eu não milito por partido ou igreja, mas cuido do meu entorno. Pego lixo e jogo na lixeira na frente do porcalhão. Sinto uma pressão muito grande pra parar de fazer show e ir cuidar da minha vida.

Resenha 4 Baltar
As relações com o autoritarismo em nossas vidas e como somos educados para aceitar a submissão como natural e confortável.
A verdadeira revolução, não é política é pessoal, começa em quebrar essa dependência emocional com a figura autoritária e começar a construir a liberdade no dia-a-dia. A liberdade é dolorosa.
Deveria ter lido quando era adolescente, teria feito muita diferença nas minhas escolhas políticas.
 

http://api.ning.com/files/FsK-aYJZjVO2j3Pt4j3bMXn1UKQSnSPs9yV1-jvzocvbqoISKgTi4warTcPyItWfKHeg-rvBxH6m3vjSFlBZH-8JPxdSsLXl/Utopia_e_PaixaoA_Politica_do_Cotidiano.pdf


 
Roberto Freire e Fausto Brito
Enviado por Tânia de Oliveira em 10/05/2017
Reeditado em 12/05/2017
Código do texto: T5995264
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Tânia de Oliveira
Maceió - Alagoas - Brasil
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Tânia de Oliveira

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