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PATERSON

Paterson e #assimeuvivo

Minhas postagens no instagram (lucianapimentabh) mencionam na legenda #assimeuvivo e/ou #meusbensdepoesia ou, ainda, #poesiaviva, mesmo quando o se tem, na legenda, não é um poema. Por que isso acontece? Minha resposta poderia ser direta, mas escolho construí-la falando de PATERSON (2016, USA), o mais novo filme de Jim Jarmusch, ao qual assisti ontem, depois de minhas andanças pela exposição Entre Nós - A figura humana no acervo do Masp.

A película, que se passa como um diário - dia a dia da semana, do acordar ao fim do dia - mostra o cotidiano da vida de Paterson, um motorista de ônibus, poeta, que vive com Laura, sua esposa sonhadora, e Marvin, o cachorro que participa ativamente de suas noites, na pacata cidade da também chamada Paterson, uma construção extremamente interesssante do enredo, que coloca o poeta e a cidade com um e mesmo nome, evidenciando a dimensão de lugar que há em ambos.

O filme, cujo protagonista seria, supostamente, Paterson -  o poeta/ motorista de ônibus- não é sobre o poeta que há em Paterson, que registra seus poemas em um caderninho que vem a ser destruído por Marvin, o cachorro, por ter sido esquecido no sofá. O filme é sobre A POESIA vivida por Paterson (poeta) em Paterson (cidade), que por si mesmo é um lugar potencialmente poético. O pratagonismo do filme, assim, passa a ser da própria poesia que, ao contrário do que muitos pensam e dizem,  não é a mesma coisa que poema, tampouco é privilégio dos poetas que escrevem poemas.

Permito-me inserir, aqui, um poema de minha autoria, que aborda o tema.

O poeta, o poema e a poesia

Eu, aqui, nesse deslugar
Sediando a noite acontecer
Em meus ávidos ouvidos...

Eis que eu, aqui, areia
acolhendo as ondas e o sal
espuma branca em nossos pés...

Já antes de nós, antes daqui
o mar escrevendo o poema
que acontece no vir a ser...

E antes ainda, antes do antes,
a poesia respirando, antes do mar,
nos pulmões arvorecidos do universo.

Como esse poema, o #assimeuvivo e/ou #meusbensdepoesia ou, ainda, #poesiaviva e PATERSON, o filme, se encontram? O ponto comum é a possibilidade de compreender que a poesia é um modo de vida, uma maneira de ver e ser no mundo, um acontecer da vida, percebido por um olhar e um modo de ser poéticos, que algumas pessoas transformam em poemas escritos, outras não. Viver poeticamente não implica, então, necessariamente, em escrever poemas. E ninguém se torna poeta apenas porque escreve poemas, assim como Paterson não deixa de ser poeta quando perde seus poemas, estraçalhados por Marvin.

Eu sou poeta! Muito antes de sê-lo, todavia, eu vivo poeticamente. Cresci em um ambiente regado a poesia. Minha mãe, que nunca escreveu uma linha de um poema, sempre viveu poeticamente. Sua poesia era, sobretudo, social. Sempre enxergou os invisíveis - os que vivem às margens da arquitetura social. Meu pai, do mesmo modo, sempre fez de suas frequentes pescarias uma realização da leveza, uma fuga do caos da desumanização, de maneira que Pasárgada - o nome de seu barco - sempre foi lugar de poesia. Isso sem falar no que comíamos e no modo como realizávamos isso, desde o preparo à partilha, em torno da mesa, sempre de um modo poético.

A poesia, pois, não está enclausurada em letras ou palavras, tampouco em cada poeta, individualmente, mas se manifesta no mundo, absolutamente aí, à disposição da percepção e do olhar de cada um para o mundo - infinitos olhares, sobre infinitas pequenas grandes coisas. Quando o mundo e esse olhar se encontram, com ou sem texto escrito em palavras, aí acontece uma experiência poética - acessível a todos, dependendo apenas de abertura e sensibilidade para esse experimento, para esse modo de ser e viver.

O que se percebe, em relação àquele a quem comumente se denomina poeta - que verte poesia em palavra (poema) -  é que seus sentimentos e pensamentos são, com frequência, expressos em metáforas representadas pelos próprios seres do mundo, dos seres mais ínfimos aos mais gigantes, ao gosto de cada poeta, conforme sua percepção e leitura de mundo. Isso, aliás, é uma das grandes diferenças da linguagem poética para a linguagem comum. Na película, por exemplo, Paterson faz de uma caixa de fósforo, com seus palitos potencialmente em chamas, a metáfora do seu amor por Laura.

PATERSON, o belo filme de Jim Jarmusch, não é, pois, um filme sobre a vida de um poeta mas, antes, um filme sobre A POESIA: um modo de ser no mundo. Isso também o que quero dizer com #assimeuvivo e #meusbensdepoesia ou, ainda, #poesiaviva. Aliás, essa foi a razão pela qual eu, que crei uma conta no instagram para divulgar poemas, decidi partilhar - alargando meu próprio olhar - para além dos meus poemas, imagens e textos (toda imagem é já um texto) do meu viver, meu modo de ser e olhar para o mundo eis que a maternidade, o trabalho, as amizades,  as leituras, as viagens, o modo de alimentar (mais do que "o que se come"), enfim, todas as formas de viver e amar, em mim se realizam poeticamente. Eu respiro poesia! #assimeuvivo



Luciana Pimenta
Enviado por Luciana Pimenta em 07/05/2017
Reeditado em 07/05/2017
Código do texto: T5991943
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Luciana Pimenta
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Luciana Pimenta