Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Tabaco.

       Descido ao reino das sombras, eu me perdi vertiginosamente em teus abraços que transpiram o vício mais vil, me vi perambulando sem rumo por vielas do esquecimento de mim mesmo. Cedo ou tarde, sem ter opção alguma, tive de me reencontrar com os funestos demônios que com suas correntes, me prendiam miseravelmente a ti.  Fui obrigado a andar por pontes feitas de crânios corroídos, pelo câncer da escravidão, que é gerada pelo teu coito maléfico.  Duramente tenho de reconhecer a mim mesmo, que apenas vozes sombrias me falavam ao ouvido, enquanto eu acompanhava teus sórdidos passos.

       Agora, minhas asas já não são mais brancas, pois, elas estão sujas de fuligem, falo da fuligem deste mal esfumaçante, que sem eu perceber, está me matando aos poucos. Conheci uma amiga tão bonita que gosta de me beijar nos lábios, mas, sinto em seu beijo, a frieza da doença que paulatinamente me devora os pulmões. Perguntei seu nome e ela me respondeu: Nicotina, mas, pode me chamar de Tina. Ah, agora tenho dentes amarelos, estes, que possuem um sorriso, que atraem a mim, as “moscas da desilusão”.

       O filtro do meu fumo não consegue filtrar toda mentira que existe por detrás deste meu apego a ti. Tão cilíndrico, branco, macio e cínico, feito de feltro, papel e fumo escandinavo. Ontem, meu avô morreu porque o alien que vivia dentro da sua garganta finalmente o consumiu, fiquei sabendo que a Souza Cruz vai enviar à família dele uma coroa de flores para homenageá-lo, afinal, ele, o meu velho patriarca, o senhor Hollywood, sempre foi em sua vida “um sucesso”!

       Meu coração anda meio atabalhoado, e isto tem uma só razão: é que eu não consigo viver sem ti, sem acender-te com o fogo da minha própria dependência anímica. Mas eu sou dependente do que mesmo? Do tabaco produzido em Cuba ou no sorriso fértil das prostitutas que me aparecem por entre as brumas do inverno saudita? Ah, o que falo eu? Pelo jeito estou perdendo a razão. Minha respiração já é ofegante, não consigo correr do Oiapoque ao Chuí como outrora, tu duvidas que os meus dias de glória já se findaram?

       Disseram-me que tem um sniper que está atrás de mim, e ele é dos bons, com um só tiro será capaz de me eliminar, fiquei sabendo que o seu nome é Carlton, ele costuma usar um chapéu de feltro vermelho. Vou me esconder na casa do meu fiel escudeiro, João Tabaco, ele é um bom sujeito, sua família, os Nicotina(nos) são gente muito boa.

       Estou pensando em, um dia desses, fazer uma viagem a Paris, quem sabe, andando pelas ruas, consigo me deparar com Rimbaud sendo beijado na boca por Verlaine, talvez eu possa contemplar Oscar Wilde frequentando os grandes salões, defendendo a sua teoria sobre a “beleza,” como a grande redentora da arte e do mundo. Pode até ser ainda, que eu conquiste o inusitado, meu caro, que é o de me livrar para sempre, do teu tabagismo tão cheio de pirilampos e salamaleques.
Elton Sipião o Anjo das Letras
Enviado por Elton Sipião o Anjo das Letras em 12/08/2017
Reeditado em 12/08/2017
Código do texto: T6081963
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Da autoria de Elton Sipião o Anjo das Letras.). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Elton Sipião o Anjo das Letras
Cubatão - São Paulo - Brasil, 50 anos
39 textos (538 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/08/17 23:04)
Elton Sipião o Anjo das Letras