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Na caverna da noite



Quando a noite emerge toda das profundezas,
Naquela hora,
Em que a madrugada acorda os mortais de seu primeiro sono
A janela aberta se torna entrada para outro mundo
Onde o ar é metálico e o vento cortante arrepia os ossos
Onde não se teme a sombra, pois tudo é negror
Visto a mortalha celeste e vago sobre as folhas lívidas
Sou o andarilho errante do vale
Onde o silêncio uiva pra os que sabem ouvir.

Adentro na caverna da noite
Sob a abóboda púrpura estilhaçada de diamantes e ametistas
Onde paira a coruja branca com suas asas de mármore
E farfalham os morcegos entronados nas estalagmites retorcidas.
Ao chão, duendes espiam com seus olhos esmeralda
Aqui e ali, elfos saltam flauteando entre as ninfas
E fadas de asas castanhas marcham debaixo da terra.
Ao redor, barqueiros sonolentos vão
Solitários pelos rios prateados
Lumiados por fogos fátuos das cores mais lúgubres
Ladeados das torres negras
Apinhadas de inocentes e culpados miseráveis
Enxertadas como tristes orquídeas
E em algum lugar ouve-se
O borbulhar da passagem das almas descendo o vale.

Na hora seguinte, a mais esperada,
A caverna vai se aquietando
Todo choro, gemido ou estalido cessa
É a hora em que a boca seca e o coração salta da alma.
Passeava ela
No recôndito da gruna passeava ela, a noiva da noite,
Como um farol alvo a guiar-me
Esther, aura de ágata, em seu vestido de seda enevoado
A pele perolada qual o puro leite
O cabelo espumando sobre os ombros nus
Flutuava, a voz dos lírios chamando por mim
—Aqui estou por ti, Esther, abraça-me!
E no âmago do ermo nos tocamos
Seus braços gélidos me envolviam
Minha pele carnal em pele etérea
Filho do corpo e filha da alma.
Seu toque era o da malva
Sua cintura eram ondas bravias
Seus seios que me tocavam eram montes nevados
Seu coração tilintava como sinos de cristal
Seus murmúrios tinham o perfume do sândalo
O frescor de seus beijos exangues
Tinha o gosto acre inebriante.

Saciávamos nosso destino
Colhendo os segredos da eternidade
Dançando no leito da terra
Sussurrando poemas ecoantes pelo abismo
Onde os desacordados cegos se sentem e se tocam
Vendo o invisível, atingindo o inatingível
Inebriados do vazio do firmamento
Pousávamos no altar de ônix
Repousávamos no ninho frágil do mundo das fantasias
Perdendo-nos nas horas – as horas! – as horas!

Já ouço o choro dos que adormeciam
O revoar dos primeiros anjos e suas trombetas ao clarão
Mãos e rostos cuspidos eclodindo da sepultura de seus leitos
Enxugo a última lágrima de prata
De seus olhos diáfanos outrora cintilantes
Seu espectro cada vez mais lânguido
Seu condão sucumbindo
Seu toque fenecendo
Seus lábios se evaporando
Sedentos pela próxima visita inesperada, na próxima vida
Morria... morria...
Recolhendo-se na caverna que também se retirava
Degelando-se pavorosamente
Curvando-se, esvanecendo diante dela – a outra
Marchante, avassaladora
A vândala dos sonhos livres
No fim, até o orvalho sagrado ela tomaria
No fim, ela – Aurora!
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 20/03/2017
Código do texto: T5947216
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Vitor Pereira Jr
Maringá - Paraná - Brasil, 37 anos
402 textos (153543 leituras)
3 e-livros (339 leituras)
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Vitor Pereira Jr

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