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GRAFFITI - VERDADE - VIII

                                  VERDADE – capítulo VIII

                                           Deise o abraçou forte.
- Espera mais um pouco. Você me mostrou um pouco do seu mundo. Me deixa fazer o mesmo.
   Ele sorriu e concordou. Delano entrou no quarto a procura dos dois e ao vê-lo vestido com as roupas do filho, zangou-se.
- Tire essas roupas, já!
- Eu vou voltar, como você quer, mas já que eu vou morrer naquela droga de estória que você criou pra mim, me deixa ser feliz aqui por algum tempo.
- Chega de se intrometer na minha cabeça, rapazinho.
- Por favor, Delano!
- Você já iludiu minha neta o quanto quis, agora não me faça pedidos que não tem o direito de fazer. Você se meteu num campo que é muito delicado pra mim. Esse quarto não faz parte das minhas estórias. Você não tem o direito de estar aqui.
- Eu o trouxe, Cris, interferiu Deise. - A culpa é minha. Dá um tempo pra gente!
   Delano não sabia negar nada à neta. Acabou concordando.
- Até o final da tarde. Nem mais um minuto. Até seis horas.
   Deise sorriu e foi beijá-lo.
- Obrigada!
- E você, garoto, comporte-se! Você sabe muito bem que a sua vida pode se esvair num minuto, apenas com o toque da borracha naquela prancheta e eu só não fiz isso até agora por causa da minha neta.
- O que foi que eu te fiz?
   Delano ficou olhando para ele, procurando por uma resposta e falou:
- Nada... Mas a vida inteira eu fui chamado de louco por não conseguir dominar minha mente... por viver meus pensamentos mais do que minha própria vida e tornar meus personagens mais vivos do que realmente são. Você é a prova disso. Só que nunca nenhum dos meus personagens interferiu na trama de um estória minha como você fez. Eu não sei explicar como nem por que, mas também não quero saber. Você vai voltar e vai deixar minha neta em paz.
- E quem garante que isso não vai acontecer outra vez?
- Isso não lhe diz respeito. Não vou ficar aqui discutindo com um... ser inexistente.
- É por isso que você nunca se realiza no seu trabalho, Delano. Você odeia tudo que cria desde que seu filho morreu, não é?
- Cale a boca!
- Eu estou entendendo agora, falou Murilo, aproximando-se mais dele. - Eu sou a projeção do seu filho nos seus desenhos. Só que você não pode me manter vivo pra não sofrer mais, porque ele também não pode estar vivo com você, não é?
   Delano não respondeu. Murilo sorriu, balançando a cabeça.
- Eu já estava na sua cabeça, antes de você me por no papel. Por isso consegui que você fizesse o que eu queria...
   Os olhos de Delano encheram-se de água.
- Eu vou estar na sua mente... mesmo que você acabe comigo na sua estória. Pra que estragar tudo?
- Não se pode evitar a morte de seres humanos... que são corpo e espírito... A sua vida é bem mais frágil. Você está aqui porque minha neta o projetou. Mas ela vai se esquecer de você e você vai desaparecer como todos os outros personagens de livro que ela já leu. Não se iluda.
   Murilo calou-se. O cartunista ia sair do quarto, mas Murilo o chamou:
- Posso te fazer outro pedido?
   Delano voltou-se e esperou.
- Eu posso voltar assim pra prancheta?
- A estória é em preto e branco. Não teria cabimento um personagem colorido numa estória de um jornal preto e branco.
   Murilo não insistiu. Delano saiu. Disposto a não retrucar mais as imposições dele, o rapaz começou a tirar a malha vermelha.
- Não! falou Deise, impedindo-o.
- Você ouviu o que ele disse...
- Mas fique assim até... até nosso prazo acabar. Por favor!
    Ele não discutiu.
- Vamos dar uma volta na praia?
   Murilo concordou e eles andaram pela praia a tarde inteira.

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                                  GRAFFITI - CAP. VIII
Velucy
Enviado por Velucy em 10/09/2017
Reeditado em 10/09/2017
Código do texto: T6109729
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Velucy
São Paulo - São Paulo - Brasil
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