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GRAFFITI - DELANO - CAP. II

                                 
                                 DELANO – capítulo II

                                                  Delano acabava de chegar de fora
 e colocava o casaco pendurado num cabide perto da porta.
- Olá, patinha! Tudo bem? Demorei?
- Oi, não... Não demorou não... falou ela, tentando disfarçar o susto.
   Delano aproximou-se dela e beijou seu rosto, um tanto desconfiado. Passou a mão por sua testa e viu que ela suava.
- Tudo bem mesmo?
- Tudo bem, falou ela sorrindo.
- Você está suada...
- Está muito calor aqui...
   Ele olhou para o alto da escada e perguntou:
- Você... esteve no meu atelier, não foi?
   Deise não sabia mentir para o avô, pois ele nunca mentia para ela. Sempre eram muito sinceros um com o outro por isso sua relação era sempre tão aberta. Ela teve que dizer a verdade.
- É, estive... mas eu não mexi em nada, juro!
- Tudo bem, não precisa jurar, mas eu já disse várias vezes pra você não subir lá sozinha, não disse?
- Fiquei curiosa pra ver sua última estória... Desculpe.
   Delano sorriu,
- E viu?
- Vi, mas não está terminada.
- Não... ele disse simplesmente e mudou de assunto. – Está com fome?
- Estou sim, ela falou, animada.
- Não temos nada pra jantar, mas... podemos fazer um lanche. Que tal?
- Topo qualquer coisa.

   Foram os dois para a cozinha e improvisaram juntos, um lanche. Enquanto comiam não tocaram mais no assunto do atelier.
- Se sua tia sabe que você está comendo lanche no jantar, ela me esfola! - disse ele dando uma mordida no sanduíche de queijo e presunto.
- Nunca ouvi dizer que matasse. E eu não sou mais criança. Queria morar aqui com você.
- Não, senhora. E os estudos?
- Tem uma escola aqui perto. Me transfiro pra cá.
- Não tem colegial. É uma escola só pros pescadores da região, pros filhos deles...
- Falta só um ano pra eu terminar. Deixa eu vir pra cá no ano que vem?
   Delano olhou para ela sério e respondeu:
- Aqui não é lugar pra você, princesa.
- Que eu saiba, você mora aqui desde os dezoito
- É diferente...
- Você cuidaria de mim, como cuidou do meu pai.
    A lembrança do filho deixou Delano triste.
- Acho que ele não quer isso pra você, Deise...
- Como você sabe?
   Delano levantou-se parecendo impaciente.
- Por que ele sempre pensou como eu e eu não quero. Acabado o assunto. Vamos lavar a louça?
   Ele começou a colocar os pratos e os talheres sobre a pia. Deise continuou sentada à mesa mastigando seu sanduíche e um pouco contrariada.
- Vamos dar um passeio pela praia amanhã cedo? - ele sugeriu, enquanto lavava a louça.
- Pode ser... ela respondeu sem muito ânimo.
- Vou te mostrar uma gruta que só eu conheço aqui. Um troço fascinante.
   Ela terminou seu sanduíche e começou a  ajudá-lo com a louça. De repente surgiu em sua mente o que lhe havia acontecido no atelier. Resolveu arriscar perguntar:
- Vô!
   Ele parou e fechou os olhos com as mãos ainda apoiadas na pia.
- Deise, nos não combinamos que você não me chamaria de avô ou de vô ou vovô, ou qualquer coisa parecida? Eu tenho cinquenta e dois anos e isso me deixa trinta anos mais velho.
   Ela riu.
- Desculpa... Cris! Melhorou?
- Duzentos por cento.
- O que é graffiti?
   Ele olhou para ela e sorriu maroto.
- Lá vem você... Tem certeza de que não sabe? Uma menina que faz o colegial deveria saber.
- Não, eu sei que é um mineral que serve para fazer a ponta do lápis que a gente usa pra escrever...
- E desenhar.
- É, mas...o que é graffiti na... estória que você está escrevendo? A palavra está escrita em francês, mas eu não vi ligação com a estória.
  Delano pigarreou, colocou a última xícara no escorredor e olhou para a neta.
- É o que eu também quero descobrir.
   Ele enxugou as mãos no pano de prato nas mãos dela, afastou-se e foi para a sala. Deise o seguiu.
- Como? Você criou a estória, deu o título e não sabe?
   Delano acendeu um cigarro e sentou numa cadeira de balanço junto à janela.
- É muito complicado para explicar. Não sei se você entenderia ou mesmo... se acreditaria em mim.
   Deise foi ajoelhar-se junto dele.
- Claro que acreditaria! Quanto a entender... Está me chamando de burra, Cristóvão Delano?
   Ele sorriu e segurou o queixo dela com as pontas dos dedos.
- Não, você não é burra, mas me faz cada pergunta!
   Delano começou a falar depois de um longo suspiro.
- Eu tive um sonho, há umas... três noites. Nesse sonho, um rapaz, o personagem principal dos quadrinhos, me pedia para escrever a estória e deu o nome a ela: “Graffiti”, e ele falou com um sotaque engraçado, diferente e eu escrevi em francês. Achei mais chique... e comecei a escrever e desenhar.
- Um sonho? - estranhou ela.
- É, mas desde que eu comecei a desenhar tudo, tive sempre a nítida impressão de que ele estava... agindo quase que... por si mesmo. É como se eu fosse apenas o instrumento, condutor do lápis. Ele fazia tudo...
  Cada vez mais fascinada, Deise exclamou:
- Poxa! Quer dizer que você só desenha o que ele quer?
- Mais ou menos. O que ele quer e quando ele quer. Só que não consigo definir bem quando ele quer que eu crie, mas tenho que parar quando ele quer que eu pare. Ultimamente por exemplo, não consigo criar nada naquela prancheta. Você viu o quadro negro na sequência final?
- Vi. Achei estranho um quadrado todo escuro no meio de uma estória sem final.
- Por mim, eu nunca teria feito aquilo. Nenhum editor aceitaria um quadro negro assim no meio da estória, o leitor não entenderia. Mas me vi fazendo aquilo e sei que foi pela vontade dele.
   Deise ficou pensativa. Tinha vontade de contar o que sentira no atelier ao avô, mas hesitou. Delano a observou e sorriu.
- Acredita em mim?
- Acredito... Posso ficar com você no atelier quando você for continuar?
- Por mim, pode, mas...alguma coisa me diz que não sou eu quem vai continuar aquela estória, Deise.
- Não? E quem é? Ele?
- Não sei, mas eu sinto que não sou eu.
   Deise franziu a testa sem entender. Delano sorriu novamente e propôs.
- Que tal irmos dormir? Já confundi sua cabecinha demais por hoje. Já é tarde e a gente tem que levantar cedo para o passeio de amanhã, não é?
   Ela concordou. Foram para seus quartos e ele foi lhe dar boa noite, mas Deise não conseguiu pregar os olhos.

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                                 GRAFFITI - CAP. II
Velucy
Enviado por Velucy em 07/09/2017
Reeditado em 07/09/2017
Código do texto: T6106860
Classificação de conteúdo: seguro

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Velucy
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