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AMANDA IV - FORMATURA - CAP. IX


                                      IX – FORMATURA


                                                          Dia 23 de dezembro de 1989. Dia da formatura dos terceiros anos do colégio Paralelo. Amanda tinha dormido na casa do pai, porque Rita queria que ela fosse tratada como uma modelo sua e até Cláudia, a maquiadora da RR e Luíza, a cabeleireira, tinham se deslocado para lá para fazer a produção da moça.
   Por conta disso, Marco também tinha ficado na casa dos pais e aproveitava para matar as saudades deles e da irmã, Mariana, agora com quase cinco meses.
- Quer dizer que a Rita roubou a Amanda de você? - Antonio perguntou, sentado à mesa da cozinha com ele e Laila, que tinha Mariana de pé no colo dela com as mãozinhas apoiadas na mesa.
   A menina já com cinco meses, batia com uma colher na palma da mão de Marco e balbuciava alguma coisa que só ela entendia.
- Pois é, ele respondeu. – Ela quer sempre que a Amanda se transforme numa capa de revista em todo evento que ela vai e... como eu já acho que ela consegue, deixo. Hoje o dia é dela, ele finalizou dando de ombros...
- A Rita é muito boa nisso, falou Laila.
- A Amanda já é bonita e já parece uma capa de revista mesmo com a maquiagem simples que faz todo dia, disse Antônio. - Não precisa de tanto.
- Eu digo isso todo dia... Marco falou com um sorriso, segurando a mão da irmã. - ...mas eu já perdi essa briga faz tempo. Elas são mulheres que se entendam.
- É impressão minha ou você está meio tristinho, filho, Laila perguntou. – Afinal de contas, você é o padrinho, devia estar mais animado.
- Não, mãe, não é desânimo, é preocupação mesmo.
- Está preocupado com o quê? O que pode dar errado hoje?
- Eu tenho a impressão de que vou encontrar nesse baile algumas pessoas que não queria ver de novo tão cedo.
- Quem, filho? - Laila perguntou.
- O André e o Caio, por exemplo... pra não falar do Otávio...
- Eles vão estar lá? - Antônio quis saber.
   Marco apenas confirmou balançando a cabeça.
- Pensei que eles tivessem parado de estudar depois daquela confusão que aprontaram com você e não pudessem mais nem entrar no prédio do colégio.
- O Paralelo tem duas unidades em São Paulo e é uma escola, pai, e o André e o Caio são estudantes pagantes. Eles se arrependeram do que fizeram, prometeram se comportar e de alguma forma conseguiram terminar o terceiro na unidade de Interlagos, como o Otávio fez.
- E o que o Otávio vai fazer lá? Ele já não se formou? Antônio perguntou.
- O Caio convidou.
- Como você sabe?
- A Amanda me falou.
- A Amanda? - Antônio estranhou.
- Ela encontrou com ele no colégio e ele contou pra ela.
- Quem, o Caio?
- O Otávio, pai.
- O Otávio?
- É... Ele tinha ido até lá pra regularizar a vida da Lídia que parou de estudar, você sabe... Aí eles se encontraram e ele contou pra Amanda.
- E ela, como lida com o Otávio? - Laila perguntou. – Tudo bem?
- Tudo. Ela já superou, graças a Deus, ele disse, passando a mão pelo rosto.
- E por que você está preocupado com o fato de que vai encontrá-lo no baile? - Antônio perguntou. – Você também já superou, não? Pelo que pareceu em agosto...
- Não, está tudo bem... Encontrar um, não é problema, agora... encontrar os três juntos... me faz voltar tudo aquilo de novo e não é uma sensação muito boa, sabe?
- Vai ficar tudo bem, filho, disse Laila. - A Amanda é sua mulher agora e você não é mais um estudante do Paralelo.
- Isso é verdade, mãe, mas eu não sei até onde as outras personagens dessa história mudaram como a gente.
- O que você quer dizer com isso, querido?
   Marco respirou fundo.
- O Otávio está com a Lídia, vocês sabem...
- E...? - Antônio indagou.
- Ele mesmo disse pra Amanda que ela ainda fala em mim.
- E daí, Marco? Do que você tem medo? De que ela apareça no baile, grávida de sete meses e queira fazer alguma coisa contra vocês ainda? Você não acha que é um pouco de paranoia demais, não?
    Marco sorriu e passou a mão pelo rosto, novamente.
- É, pai, de repente você tem razão. Mas é que eu já passei por tanta coisa por causa dessa garota, que eu estou meio... escaldado.
- Eu te entendo, filho, disse Laila. – Mas eu acho que você deve relaxar. O dia vai ser especial, você vai ver.
- Quer dizer que o tal do André vai estar lá também? - Antônio perguntou.
- Vai...
- Então há probabilidades de o pai dele ir também.
  Marco olhou para o pai rapidamente e depois se voltou para a mãe.
- Não sei... Talvez... Mas, pai...
- Então eu não vou a esse baile, disse Antônio levantando-se e pegando Mariana dos braços de Laila e saindo da cozinha.
- Pai! - chamou Marco.
- Deixa, deixa ele, Marco, disse Laila. – Depois eu falo com ele. Eu vou colocar o almoço na mesa. Você não quer ir tomando banho? Já, já a gente almoça e você vai se trocar.
   Eles ouviram barulho do motor de um carro entrando na garagem da casa.
- Chegou alguém, disse Laila.
   Ela nem precisou sair da cozinha. Os dois logo viram Amanda chegar com Benê entrando atrás dela.
- Bom dia! - disse Benê, aparecendo na porta. – Eu encontrei essa princesa perdida lá fora. Alguém conhece?
  Todos se cumprimentaram alegremente. Laila abraçou o irmão e recebeu seu beijo no rosto. Amanda aproximou-se de Marco e os dois se beijaram. Ela estava meio produzida para o baile, vestia roupas normais, uma bermuda jeans e camiseta, mas do pescoço para cima, já tinha sido penteada e maquiada. O cabelo amarrado para trás já tinha estrasses colados nele e a maquiagem dava a seu rosto uma aparência diferente.
- O que você está fazendo aqui? Fugiu da Rita? Como conseguiu essa façanha? – Marco perguntou.
- Dessa vez eu não fugi, ela me liberou.
- Ela liberou? Pra você vir ficar aqui comigo? Eu sei que ela é corajosa, mas não sabia que era tanto. Eu vou desfazer toda essa maquiagem te beijando...
- Não! - exclamaram Laila e Amanda juntas.
   Benê riu.
- Calma! Estou brincando, Marco disse baixinho, rindo em seguida. - Mas por que você veio assim, meio produzida?
- Vim avisar que é pra você ir me buscar na casa do meu pai às cinco.
- Podia ter ligado.
- Eu estava com saudade também, desde ontem a gente não se vê... ela disse beijando seu rosto de leve.
   Laila e Benê fizeram um ah... de admiração e Marco olhou para os dois, dizendo com ar maroto.
- E eu nem estou pronto ainda, hein?
   Os dois riram.
- Não vá borrar a maquiagem dela, Marco, disse Laila. – Você está linda, filha.
- Obrigada, dona Laila. Vim avisar também que meu pai e a Rita vão passar aqui pra todo mundo ir junto pro clube às seis.
- Você aproveita e almoça com a gente, já que está aqui, convidou Laila.
- Não, obrigada, eu já almocei. Rita só me deixou vir com a condição de eu voltar logo. Ela está esperando por mim.
- Ditadora como sempre, Marco falou. – E quem te trouxe?
- Eu vim sozinha.
- De táxi?
- No Fiat, ela disse sorrindo, orgulhosa.
- No Fiat?! Sem carta?
- O que é que tem? Eu fazia isso antes, quando namorava você, lembra? E da casa do meu pai até aqui é pertinho.
- Perdeu o medo, amor? Já é alguma coisa. Estou orgulhoso.
   Ele a beijou de leve.
- Mas acho melhor eu mesmo te levar de volta.
- Não precisa. Eu volto sozinha como vim.
- Nada disso. Agora o responsável por você sou eu e eu não estou a fim de pagar multa, porque minha mulher está dirigindo sem carta, nem tirar você da cadeia por causa disso. A gente te matricula numa autoescola e depois você volta a dirigir. Não antes... tio, você faz o favor de levar ela pra Chácara Flora de novo?
- Claro, com todo prazer, disse Benê.
- Benê, você não quer almoçar coma gente, mano?
- Não, já almocei na rua também. Só vim ver vocês e avisar que não vai dar pra ir à formatura. Tenho umas coisas pra fazer em Campinas ainda hoje.
- Na antevéspera de Natal? – Antônio perguntou.
- É... negócios são negócios. Não vou poder ficar mesmo.
- Que pena, Benê.
- Mas no ano novo eu baixo por aqui.
- Está valendo.

                 **************************************

   Quinze para as cinco. O Escort parou na frente da casa da Rua Angra dos Reis. Marco desceu do carro vestido num terno preto muito elegante e entrou na casa. Parou para cumprimentar José que estava sentado na garagem conversando com Kleber e Gustavo.
- Boa tarde!
- Chegou o noivo, todo de preto! - cantou Kleber, abrindo a mão para que Marco batesse nela.
- Não, hoje eu sou só o padrinho.
- Ih! Vai morrer gente aí dentro, hein? Gustavo falou.
- Por quê? - Marco perguntou.
- O que tem de mulher aí dentro não está no gibi. Já vejo as exclamações: “Você está tão gato, Marco!”, “Ai, meu Deus, eu com um desses lá em casa!” - Gustavo imitou a voz fina de uma moça falando, rindo em seguida.
- Meu sogro está aqui do seu lado, sabia? - Marco perguntou, corando meio sem jeito.
- E daí? Seo José já sabe da tua fama.
- Que fama? - Marco perguntou mais sem graça ainda.
- De ser o cara mais gostoso da RR, ele finalizou sorrindo maroto.
   José sorriu discretamente.
- Obrigado, Gustavo, se você queria me deixar sem graça, conseguiu. Agora chega de gracinha. Vou pegar minha formanda. Se me dão licença...
   Ele entrou na casa.
- Esse cara é o exemplo vivo do desperdício dos dons de Deus, falou Kleber quase que com raiva, como sempre, empunhando sua máquina fotográfica.
- Por que você diz isso, Kleber? - perguntou José.
- Não pense mal de mim, seo José. Eu não sou gay. Adoro mulher. Mas esse seu genro devia ter se jogado de cabeça na profissão de modelo e manequim masculino e ganharia uma grana pretíssima se fizesse isso. - Você acha?
- O senhor não acha?
- É... Eu nunca parei pra pensar nisso. Sempre o enxerguei como apenas o namorado da minha filha, depois meu genro, mas... é... ele é um rapaz bonito sim
- Mas ele, absurdamente, não quer! Não foi por falta de insistência da Rita.
- Quando a gente não tem aptidão pra coisa, não adianta insistir. O Marco nunca me pareceu ser deslumbrado com essas coisas...
- É... Nisso o senhor tem razão... Como eu sempre digo: dá até nojo! Eu tenho vontade de enforcar ele, às vezes...
   José e Gustavo riram.

   Quando entrou na casa, Marco encontrou a sala cheia de mulheres exatamente com Gustavo tinha tido. As maquiadoras e cabeleireiras da agência e várias modelos. Quando ele entrou, todas viraram para olhar para ele ao mesmo tempo e um silêncio quase constrangedor se fez dentro da sala.
   Ele olhou para todas e sorriu.
- Boa tarde... meninas.
- Boa tarde, responderam todas.
   O silêncio continuou e ninguém disse mais nada. Maria Eugênia veio de dentro da casa e aproximou-se dele com seu jeito de menina e lhe beijou o rosto.
- Oi, Marco! Nossa! Você está lindo! - ela disse, medindo-o de alto a baixo.
- Obrigado, ele disse, já acostumado com os elogios.
   Haidée também veio e como já se tinha intitulado fã número um do rapaz, ao entrar na sala, abriu a boca em admiração e deu um grito histérico. Todos se assustaram, inclusive Marco, mas ela pegou a mão dele e disse:
- Desculpa... frescurinha, amore.
   Todas as moças riram. Marco balançou a cabeça.
- Meu bem, você caprichou desta vez, hã?
- Menos, Haidée, ele disse. - Cadê a Amanda?
- Quem é a Amanda, gato? - ela falou, brincando.
   Todas as moças riram novamente e Marco também.
- Ela está no quarto com a Rita e, menino, acho que está difícil que vá aparecer um casal mais lindo nesse baile. Ela está combinando com você ou vice versa!
- Então me dá licença que já teve suspense demais nessa história pro meu gosto...
   Amanda apareceu na sala, dentro de um lindo vestido longo azul “royal” que deixou Marco sem fala. Ele ficou parado e olhou-a de alto a baixo. Ela sorriu e aproximou-se dele pegando sua mão.
- Vamos?
- Eu sei que você já ouviu isso quinhentas vezes, mas... você está linda.
- Você também está, amor.
   Ele pegou a mão dela e colocou em seu pulso o buquezinho de flores do campo que era de praxe toda formanda usar e tirou do bolso do paletó um anel de brilhantes que pôs no dedo de sua mão esquerda junto da aliança. Amanda olhou para o anel, admirada e exclamou:
- Que lindo!
- Meu presente de formatura.
   Amanda sentiu que ia começar a chorar e ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou longa e apaixonadamente.
- Sem choro, senão a Rita me mata, ele disse. - Vai borrar toda a maquiagem.
- Eu te amo! ela disse, num sussurro.
- Também te amo, ele disse no mesmo tom.
   Ele a fez segurar se braço e saíram da casa, debaixo dos suspiros das moças que os assistiam.

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Velucy
Enviado por Velucy em 11/08/2017
Código do texto: T6080356
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