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AMANDA IV - ENCOSTO DE OLHOS AZUIS - CAP. VII


                        VII – ENCOSTO DE OLHOS AZUIS

                                            Quando Amanda acordou no dia seguinte,
estava sozinha na cama. Estranhou. Levantou-se e foi até a cozinha. Marco já estava lá, conversando com Dalva e tomando café com ela. Ela apareceu na porta e os dois olharam para ela.
- Bom dia, minha boneca! falou Dalva, com um sorriso, levantando e indo abraçá-la.
- Dalva! Você já chegou! ela falou, abraçando a governanta, efusivamente. – Por que você não me acordou, Marco?
- Eu pedi, disse Dalva. – Eu sei que vocês estão de férias e têm o direito de dormir um pouquinho mais, mas quando eu cheguei, ele já estava acordado... Aí eu pedi pra não te acordar, fui passar um café fresquinho pra gente e ficamos conversando. Estava com tanta saudade de você, minha linda!
   Dalva lhe beijou o rosto. Amanda fez o mesmo com ela. Marco brincou:
- Ela está toda feliz desse jeito, porque não vai ter que comer mais minha comida, Dalva.
- Mentira! desmentiu Amanda. - Não é nada disso, Dalva. Ele faz um café delicioso e um macarrão super-gostoso também, mas é que a gente vai ter mais tempo pra descansar quando chegar da escola ou do trabalho. Eu estou muito feliz que você está aqui!
   Amanda a abraçou e deu vários beijinhos na governanta.
- Eu sei, amor. Mas venha tomar seu café. Eu já vi que tem muita coisa pra fazer lá na lavanderia e acho que vou começar por lá.
- Fica a vontade, viu? Qualquer dúvida, pode perguntar. Eu ainda vou tomar um banho.
- Eu sei. Pode ficar tranquila. Façam de conta que eu não estou aqui, como na casa do seu pai.
- Eu não conseguia fazer isso lá, Marco comentou, em voz baixa, não querendo muito que ela ouvisse.
- Porque lá vocês eram namorados. Aqui vocês são marido e mulher e eu sei a diferença. Fiquem sossegados.
   Ela foi para a lavanderia. Amanda se sentou diante dele, toda feliz. Marco sorria da felicidade dela. Ela juntou as mãos cruzadas sobre a mesa, diante do peito e olhou para ele nos olhos.
- Agora me conta: por que você acordou tão cedo?
- Eu não dormi direito, eu te falei que não ia.
- Ainda está encucado com a história da Rita? Não pensa mais nisso não. Eu entendi o que houve e peço desculpas também. Não quero que isso abale nosso casamento. É tão pouco perto do que você significa pra mim. Você não me traiu. Só tentou me proteger. Esquece isso.
   Ele balançou a cabeça, concordando.
- Eu te amo. Você é o ar que eu respiro, ele disse.
- E eu quero sempre poder mergulhar no verde do mar dos seus olhos.
   Eles aproximaram o rosto um do outro e se beijaram. Amanda ficou olhando dentro dos olhos dele e falou:
- Deu a impressão que você ia ficar doente, ontem. Você estava tão estranho...
- Eu só fiquei... assustado...
- Assustado?
   Marco cruzou os braços sobre a mesa.
- Quando você disse... que ia se separar de mim... foi como... se toda a minha vida não tivesse mais sentido. - Os olhos dele ficaram redondos e úmidos. - Eu perdi o chão...
   Amanda passou a mão pelo rosto dele.
- Não pensa mais nisso.
- Acho que ainda vou ficar anestesiado por causa disso por pelo menos uma semana... ele disse, sorrindo triste, tomando um gole de café.
   Amanda o beijou novamente.
- Eu vou tomar um banho e a gente já sai pra agência, ok?
- Ah, meu Deus... ele disse, colocando as mãos no rosto.
- Que foi?
- Lembrei que tem o episódio Roni pra terminar lá na agência.
- Já falei que pode deixar ele comigo, ela disse levantando e indo para a porta.
    Encostou-se no batente e finalizou:
- Eu vou parar com a festinha dele.
   Foi para o banheiro. Dalva entrou na cozinha enxugando as mãos.
- Vou deixar a roupa na máquina um pouquinho. Vocês já providenciaram o bebê, Marco?
   Ele foi pego de surpresa pela pergunta. Franziu a testa e gaguejou.
- Não... Acho que não... Está muito cedo ainda, Dalva. A gente não tem nem dois meses de casados. Quem sabe daqui um ano, um ano e meio...
- Eu vi algumas pessoas comentarem no casamento que vocês tinham aprontado alguma coisa para estarem casando tão jovens.
- Sério? Está brincando.
- Mas era gente que não conhecia vocês direito, que não sabia da estória de amor de vocês. Não se incomode com isso. Vocês não vêm almoçar em casa, vem?
- Não, eu sempre almoço na rua e como a Amanda vai estar comigo... a gente vai comer em algum restaurante lá perto da RR.
- Então eu vou fazer uma coisa bem especial pra vocês jantarem.
- O quê? ele perguntou curioso.
- Não vou dizer. Vai ser surpresa. À noite, você vai ver.
   Ele sorriu.
- Eu não quero ficar mal acostumado e muito menos engordar, Dalva.
- Não engorda, não. Você não parece ter tendência pra engordar... mas devia deixar a barba crescer.
- Por quê?
- Pra parecer um homem casado. Você ainda parece um menino. Nunca pensou nisso?
- Já. Alguns colegas meus sugeriram isso uma vez, mas eu quase não tenho barba e quando nasce é muito ralinha, fica esquisito. E de mais a mais, a Amanda tem a pele muito clarinha e sensível. Eu tenho medo de irritar a pele dela se deixar crescer.
- Você já perguntou pra ela, se ela gostaria de vê-lo de barba?
- Não, ele disse, sorrindo. – Talvez por eu não goste, nunca cogitei a ideia.
- Pergunte qualquer dia. Talvez ela te surpreenda.
- É, pode ser. Por falar nela, vou ver por que ela está demorando, ele levantou. – A gente volta já. Dá licença, Dalva.
- Fica à vontade, meu bem.
   Marco foi até o quarto e chegando lá viu Amanda, sentada diante do espelho, vestida no roupão de banho, cabelos molhados, parecendo estar chorando. Ele estranhou e se aproximou dela, ajoelhando ao seu lado, aflito.
- O que foi, amor? O que aconteceu? Você se machucou?
   Ela olhou para ele e enxugou o rosto, sem responder.
- O que foi, Amanda? Me diz. O que aconteceu?
- Eu não estou grávida... Estou menstruada...
   Ele ficou olhando para ela por alguns segundos, depois respirou, aliviado, por não ser nada tão grave. Pegou suas mãos e as beijou.
- Você está chorando por isso, amor?
- É a segunda vez que a gente transa sem proteção e nada acontece, Marco.
   Ele sorriu e a abraçou, carinhosamente, beijando sua testa.
- Você não vai ficar paranoica por causa disso, vai? A gente tem todo o tempo do mundo pra isso, Mandy. Não fica assim. Na primeira vez, foi até sorte nossa, porque ia ser meio estranho você entrar na igreja e se casar já com o bebê na barriga. Agora... Agora não era pra ser ainda, amor. Tem paciência.
   Ela abraçou-se a ele e foi aos poucos se acalmando.
- Eu sabia que você queria ter um filho, mas não pensei que fosse tanto, ele diz.
- Eu quero muito. Eu tive uma vida muito solitária como filha única e não quero que meus filhos passem pela mesma coisa. Quero encher a nossa casa com eles.
   Marco segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou.
- Eu sei o que você quer dizer. Eu também quero muito. Senti a mesma sensação por dezenove anos, mas não se preocupe. Eles vão vir, acredite. É que Deus está esperando ter espaço nessa barriga de menina pra caber um bebê... ou dois... Você não tem lugar aí ainda, ele disse, sorrindo e acariciando sua barriga por baixo do roupão.
   Ela sorriu.
- Promete que você não vai ficar pra baixo o dia inteiro por causa disso?
- Prometo...
- Então vai se trocar e tomar café. Eu vou ligar pra Rita...
   O telefone tocou na sala.
- Não vou mais. Acho que é ela.
   Ele enxugou no rosto dela uma última lágrima e a beijou.
- Te amo... boba! - disse baixinho.
   Quando chegou à sala, Dalva já tinha atendido ao telefone e falava com Rita. Elas trocaram algumas palavras e Dalva passou o telefone para ele.
- Oi, Rita.
- Bom dia, querido... Que bom que eu posso continuar te chamando assim... Está tudo bem?
- Está, ele respondeu rindo. - A gente já está indo.
- Só diz pra Amanda que ela vai fotografar pro outdoor da Coca-Cola sozinha hoje com o Gustavo.
- O Roni está no comercial também, ele...
- Só ela. Depois eu explico pra ele quando ele chegar. Diz pra ela ir pra maquiagem com a Cláudia logo que chegar.
- Ele vai chiar, Rita...
- Deixa que eu me entendo com ele. Quem manda nessa agência sou eu e ponto final.
   Ele sorriu.
- Que bom que você voltou...
- Também acho. Aquela Rita covarde não combinava comigo. Tchau, lindo!
- Tchau, chefe.

   Duas horas depois Roni entrava na sala de maquiagem e estranhou ver Amanda sozinha se arrumando.
- Oi, bom dia, Amanda... Tudo bem?
   Ela olhou para ele por cima do ombro.
- Oi, Roni, disse, continuando a arrumar os cabelos.
- Está sozinha?
- Estou. A Cláudia foi até o banheiro, mas ela já terminou de me arrumar.
   Roni achou tudo muito estranho. Ela estava muito calma em vista do que tinha acontecido no dia anterior.
- Está tudo bem com você?
   Ela se voltou para ele e respondeu.
- Está. Por quê?
- Eu pensei que... depois da discussão de ontem... você...
- Ah... Aquilo... - ela respirou fundo. - Olha, Roni, eu queria só te dar um conselho. A família Ramalho, que agora é minha família também... graças a Deus... é muito unida e honesta. É perda de tempo de qualquer um querer desestabilizar a relação entre eles. Eu conheci muita gente que já tentou e não conseguiu e se deu muito mal. Eles não são vencidos por qualquer mentira que digam sobre eles. Se você queria me colocar contra meu marido e minha madrasta perdeu tempo.
- Ninguém é tão perfeito assim, Amanda.
- Eu não disse que eles são perfeitos. São seres humanos como você, como eu. Meu namorado, como eu gosto de chamá-lo, é um ser humano e é do bem e eu me apaixonei por ele justamente por isso. Se você quer continuar trabalhando na RR, procura entender isso. Ele e a Rita são primos e se amam apenas como primos...
- Isso é o que eles querem fazer você acreditar...
- Isso é a verdade! - ela falou, começando a se exaltar, mas procurou se acalmar, respirou fundo de novo e continuou: - Pro bem da sua carreira, esquece esse assunto. Se você não consegue ver e entender o que está diante dos seus olhos procura pelo menos ignorar.
- É você que não está vendo o que está diante dos seus olhos. Você está cega por esse amor adolescente que nutre por ele. Nenhum homem é tão fiel assim. Você se casou muito novinha pra entender.
   Amanda sorriu.
- Você não conhece metade da nossa história pra estar falando isso. E você também é muito... novinho... pra estar enxergando tanta coisa errada nas pessoas. Isso tudo deve estar na sua cabeça. Tenta esquecer isso. Pensamentos negativos assim podem estragar o seu visual e até a sua carreira.
   Roni balançou a cabeça lentamente.
- Quer dizer que o Marco vai continuar trabalhando aqui? - ele falou, ignorando o que ela havia dito.
- E por que ele sairia? - ela perguntou. – Ah, o Gustavo vai fazer hoje as fotos do outdoor da Coca-Cola. Não te avisaram, não? - ela perguntou naturalmente, continuando a ajeitar os cabelos olhando para espelho.
- Não...
- Ah, acho que não precisava mesmo. Só eu vou estar no outdoor... sozinha.
- Por quê? Eu estava no comercial também.
- Não sei bem, foi decisão da Rita. Ela te explica depois.
   Gustavo entrou na sala, seguido por Marco e chamou:
- Vamos, Amanda? Está pronta?
- Estou, ela disse, sorrindo e indo abraçar o marido.
   Marco olhou para Roni e cumprimentou:
- Oi, Roni, tudo bem?
   Roni não respondeu apenas olhou para ele com cara de poucos amigos.
- A Rita quer falar com você na sala dela.
- Você acha que vai se safar dessa fácil assim, não é? - Roni perguntou.
- Por quê? Que outra carta você tem na manga? Que outra mentira você vai contar pra Amanda agora? Que outro pecado terrível você descobriu que eu tenho? Que eu não gosto de você? Isso não é novidade, nem pra ela, nem pra você, nem pra ninguém.
- Epa! Epa! Epa! - disse Gustavo, querendo já ficar entre os dois, caso os ânimos se exaltassem demais. – Vamos indo por estúdio, Amanda? Marco, vem com a gente? Eu queria umas opiniões suas pode ser?
- Pode...
  Gustavo pegou a mão de Amanda e a puxou levando-a com ele. Quando Marco ia saindo também, Roni o segurou pelo braço.
- Você tem sorte de ter se casado com uma garota ingênua como a Amanda. Eu tenho pena dela.
- E eu tenho pena de você. Me deixa em paz... e larga meu braço.
   Roni soltou o braço dele.
- A Rita quer falar com você... Ah, eu já disse isso. Não vai esquecer. Ela está meio com pressa.
   E saiu também.
   Roni se voltou para o espelho. Colocou as mãos sobre o balcão se apoiando nele e sentiu vontade de desferir um soco nele e espatifá-lo inteiro de tanta raiva que sentia. Deu as costas e foi para a sala de Rita. Quando entrou na sala a encontrou sentada atrás de sua mesa diante do computador.
   Ela o percebeu entrar pelo canto do olho, mas não olhou para ele no mesmo momento. Roni fechou a porta e apenas ficou esperando que ela o percebesse, pois sabia que a conversa ia ser um pouco tensa e não tinha muita certeza do que tinha acontecido entre ela, Marco e Amanda, mas sabia que os três estavam bem e ele com certeza não estaria, se não usasse a inteligência agora.
- Você quer falar comigo? - ele perguntou, já que ela não se manifestava.
   Rita fez um gesto com a mão para que ele esperasse um pouco. Demorou mais uns segundos para olhar para ele como se tivesse terminando o que havia começado no computador. Quando supostamente terminou, ela respirou fundo, virou a cadeira giratória, encostou-se no espaldar da cadeira e olhou para ele séria cruzando os dedos das mãos sobre a mesa.
   - Senta, por favor, ela mandou.
   - Não precisa. Estou bem de pé.
   - Como queira. Eu só queria te explicar o motivo de fazer o outdoor inicial do comercial da Coca-Cola só com a Amanda como ela já deve ter dito pra você. Eu e o anunciante queremos fazer um teste e ver como o público recebe a imagem dela sozinha no início. Depois de uns dias, de acordo com o que aconteça, podemos fazer outro e colocar você junto dela. Vai ficar meio caro, mas vai valer o investimento. A Coca-Cola tem um público cativo aqui no Brasil e acho que não vai ter problema.
   Ele não falou nada, mas concordou balançando a cabeça sutilmente.
- Quanto a pagar valores maiores sobre seu trabalho... eles não ficaram muito de acordo e acham que é justo o que estão pagando. Me disseram que, de acordo com a recepção do público a esse comercial, haverá outros e aí dinheiro é o que não vai ser problema pra você nem pra ela.
   Ela parou e ficou olhando para ele.
- Estamos de acordo?
- Estamos, ele respondeu lentamente, olhando nos olhos dela. – Eu já notei que com gente da sua família e com o poder aquisitivo que vocês têm, não se pode brigar muito.
- Do que você está falando agora, garoto?
   Roni se aproximou mais da mesa e falou em tom baixo de voz:
- Que essa safadeza entre você e o Marco dentro dessa agência vai continuar...
   Rita levantou-se e apontou o dedo bem perto do rosto dele. Roni chegou a se assustar.
- Olha aqui, moleque, você vai começar a dobrar a língua antes de falar do Marco aqui dentro. Ele é um cara muito decente. Ele tem muito mais honestidade, caráter e respeito pelas pessoas no dedo mindinho dele do que você tem no corpo inteiro, se é que você sabe o que significam essas palavras. Então, cale essa sua boca ou vou processar você por calúnia e difamação, se você continuar com essa historinha medíocre que você tirou não sei de onde.
   Marco e Haidée entraram na sala nesse momento e se assustaram ao vê-la tão perto do rapaz e perceberam que algo de ruim estava acontecendo. Ao vê-los entrar Rita, fechou a mão e a recolheu dando as costas e respirando fundo olhando pela janela.
   Haidée foi até perto dela e olhou para Roni que tinha conseguido voltar a respirar depois do pequeno discurso irado da publicitária.
- Está tudo bem com você, Ritinha? - Haidée perguntou, colocando a mão sobre seu ombro.
- Está, ela respondeu, simplesmente.
   Roni deu as costas para sair da sala e deu de cara com Marco. O rapaz o fuzilou com os olhos e saiu.
- Está tudo bem mesmo, Rita? - Marco perguntou, aproximando-se também da mesa.
   Rita voltou-se para ele e sentou em sua cadeira, aliviada.
- Graças a Deus, vocês entraram. Eu senti vontade de... ela fechou as mãos com força, respirou fundo e sorriu um riso nervoso. – Obrigada por salvarem minha vida, meus queridos.
- Afinal de contas, esse encostinho de olhos azuis vai continuar aqui na RR ou vai tomar o rumo dele? - perguntou Haidée.
- Nem sei ainda... Haidée, peça pro Gustavo vir pra cá logo que terminar com a Amanda. Eu preciso pedir umas coisas pra ele, por favor.
- Estou indo já. Você não devia tomar uma água com açúcar? Eu vou fazer um copo pra você no refeitório.
- Obrigada, amiga.
   Haidée saiu. Rita levantou-se e foi ficar em pé diante da mesa e encostou-se nela passando as mãos pelos cabelos e procurando colocar as ideias em ordem.
- Você não conseguiu mandar ele embora, não é? - Marco perguntou.
- Eu queria muito que ele mesmo decidisse isso. Seria mais fácil pra mim e pra todo mundo, porque se eu cancelar o contrato dele vou pagar uma fortuna por isso em multa.
- Não vale a pena? ele perguntou.
- Eu prefiro que ele esteja debaixo dos meus olhos do que longe de mim e tentando fazer alguma coisa ruim pelas minhas costas, se eu o mandar embora. Esse menino tem um sério problema de caráter. Você acredita que ele tem plena convicção de que eu tenho realmente alguma coisa com você?
- Eu não sei por que eu me surpreendo com isso, disse Marco. – Desde que eu comecei a namorar com a Amanda só aparece gente desse tipo perto da gente.
- Como é que vocês estão?
- Está tudo bem, mas eu nunca mais quero passar por isso. Você acredita que ela... chegou a falar em me deixar?
- Eu sinto muito, meu amor.
- A culpa disso tudo não foi sua, Rita. Eu falei pra você naquele dia que eu não devia ter te usado pra... você sabe. Não foi honesto com você, comigo, com ninguém... Eu basicamente mereci tudo que aconteceu agora. E, às vezes eu penso se... se eu mereço a Amanda. Vê-la chorando quando soube de tudo... acabou comigo. Depois, quando ela me perdoou, eu pensei ter nascido de novo. Eu não posso viver sem ela mesmo, Rita.
- Eu sei... e não diz besteira. Você merece ela sim. Seu coração é igual ao dela. Vocês nasceram um para o outro.
- Eu já ouvi essa frase em algum lugar...
   Rita riu e passou a mão por seu rosto. Marco a beijou.
- Agora vamos mudar de assunto. A Amanda já te falou que ela já escolheu o vestido do baile de formatura dela?
- Falou, mas ela também disse que você vai fazer o mesmo suspense que fez com o vestido de noiva.
- Vou mesmo, ela disse, esfregando as mãos, olhando para ele, com um sorriso de criança travessa.
- E que vantagem eu levo nisso?
- A vantagem de ser o padrinho da formanda mais bonita do colégio Paralelo. Ela vai ficar linda!
- Não posso nem saber a cor?
   Rita balançou a cabeça negando e encostando-se na mesa.
- O vestido de noiva não valeu a pena?
- Ah, desse eu sabia a cor.
- Estou falando do modelo, bobo!
   Marco riu.
- Muito... - ele disse, baixando o tom de voz. – Ainda mais depois que eu tirei... Foi muito fácil e... prazeroso pra caramba.
   Rita bateu de leve no braço dele.
- Olha o respeito, garoto! Ah, antes do baile, você também vai ser produzido pela equipe da RR, viu?
- Eu? Por quê?
- Eu não quero minha enteada e modelo se formando com qualquer um levando ela pelo braço no baile mais importante da vida dela.
- Qualquer um... sei... Você hoje resolveu pegar no meu pé.
- Eu estou nervosa e só estou com vontade de brincar com você e tentar esquecer um pouco daquele... encosto, como diz a Haidée.
   Amanda entrou na sala com Gustavo e Haidée.
- Sua gata está entregue, Marco. Chamou, chefinha? - perguntou Gustavo.
- Chamei, sim. E aí? Eu não pude ficar lá com vocês dirigindo a produção das fotos. Ficou tudo bem?
   Amanda já estava abraçada a Marco e Gustavo respondeu, olhando para ela.
- Tudo ótimo. Por mim eu não faria outras. Esse vai estar um arraso, mas... depois você dá o seu veredicto.
- Infelizmente as coisas não são tão simples assim. A gente vai ter que ser bem cauteloso com tudo por enquanto, mas está tudo tranquilo.
- Ele não se dispensou, Rita? - Amanda perguntou.
- Não. Não sei o que ele ganha com isso a não ser o meu dinheiro, mas... vamos ter que ter um pouquinho de paciência, ela disse, com um sorriso triste. – Você pode ir pra casa se quiser, Amanda. Está dispensada por hoje.
- Então eu estou indo. Te espero em casa, amor.
   Ele colocou a aliança de novo no dedo dela e a beijou.
- Tchau.
   Ela beijou Rita e saiu.

   Ao sair da sala de Rita, Roni estava tão nervoso que resolveu ir para casa tentar se acalmar e analisar onde seu plano de estragar a vida de Marco e Rita tinha dado errado. Maria Eugênia o tinha visto sair da agência e foi atrás dele.
- Roni! - ela o chamou, já perto do carro dele no estacionamento.
   Ele ouviu seu nome e parou voltando-se. Ele se aproximou dele.
- Eu posso falar com você um minuto? A gente pode ir tomar um suco no refeitório da agência...
- Eu já estava indo pra casa, Gini. Estou com um pouco de dor de cabeça.
- Um minutinho só. A gente toma um suco de maracujá com hortelã que é praticamente um analgésico. Vai aliviar a tua dor de cabeça tenho certeza.
   O sorriso dela era tão lindo que Roni não pode dizer não. Ele aceitou e os dois voltaram a entrar no prédio e foram para o refeitório. Sentaram numa mesa junto da grande janela de vidro que dava para a Avenida Giovanni Gronchi e Maria Eugênia pediu dois sucos. Roni tirou os óculos escuros e pendurou-o no bolso da camisa cruzando os braços sobre a mesa.
- O que você quer falar comigo?
- Eu... É só uma curiosidade profissional, ela começou, enrolando os cabelos compridos como se fosse fazer um rabo de cavalo e jogando-os para frente. – Por que você não gosta do Marco?
   Ele desviou o olhar do rosto dela e sorriu balançando a cabeça.
- Não acredito que você me trouxe aqui pra falar do Marco.
- Roni, você é um rosto conhecido na mídia. Aparece em vários comerciais em São Paulo inteiro e muitas capas de revistas adolescentes. Por que você se complica entrando em atrito com o primo da dona da RR? O que você ganha com isso?
- Você acabou de chegar a São Paulo e nem vai ficar no Brasil. Por que está se metendo nisso?
- Porque eu gosto demais da Rita. E tudo que magoa ela me magoa também. Ela é gente fina demais e me fez o que eu sou hoje. Eu devo tudo que sou a ela. Está bom ou quer mais?
- E ele é o bibelô dela. Ninguém me tira da cabeça que aqueles dois têm um caso. Tem cama naquela relação tão familiar.
- O quê?! Você está viajando. Ela é casada! E ele também!
- E daí?
- Tá... - ela disse, erguendo as mãos. – Digamos que você tenha razão. O que você tem a ver com isso?
- Que esse chamego entre os dois me prejudicou muito no início do ano. Era eu que devia ter estado no comercial da Bunny’s com a Amanda na campanha de abril e ele mudou de ideia no último minuto depois de eu já ter ensaiado tudo durante semanas e resolveu fazer ele mesmo. Ninguém me tira da cabeça que rolou cama entre ele e a Rita e ela mudou de ideia me tirando da jogada e colocando ele no meu lugar.
- Você ficou zangado com ele só por isso? Um comercial de três minutos.
- Não foi só pelo comercial de três minutos...
- Foi pela Amanda, não foi?
   Ele não respondeu. Baixou os olhos para as mãos unidas sobre a mesa e ficou em silêncio. O suco foi trazido e Maria Eugênia tocou a mão dele.
- Você está apaixonado por uma garota casada ou é impressão minha?
- Isso é problema meu, Gini.
- Está bom, não está mais aqui quem falou. Não quero entrar em atrito com você nem com ninguém, mas que isso não é muito inteligente, não é. E eu vou te dizer mais: o Marco não é esse monstro que você pinta. É claro que obviamente você não vai nunca morrer de amores por ele, porque ele é casado com a Amanda, mas pelo bem da sua carreira, desencana dessa paixonite sem futuro. Ele é mais forte que você de todas as maneiras.
- Eu não pedi sua opinião.
- Não mesmo, você tem razão, mas eu estou te dando um conselho de amiga. Eu não vejo o Marco e a Rita tendo nada mais do que a amizade e o amor de primos. Ele é doido pela Amanda. Eu fui testemunha de uma crise de ciúme que ele teve quando ficou aqui em São Paulo sozinho sem ela, enquanto ela estava lá em Campos com a equipe e... com você.
- Como assim, crise?
- Você deve imaginar. Você é homem. Se imagine com quase dois meses de casado com uma gata linda como a Amanda e tendo que ficar longe dela por uma semana. Imagine que o modelo trabalhando com ela fosse ele. Por que você pode não concordar comigo, mas o Marco é tão bonito quanto você. São belezas diferentes, mas não únicas.
   Ele encostou-se na cadeira e ficou pensativo olhando para o nada.
- Problema dele...
- Eu conversei muito com ele naquele dia e não ouvi palavras de um cara que parecesse ter um caso com mais ninguém a não ser a própria mulher. Ele me parece mais um adulto que acabou de sair da adolescência anteontem. Ele me disse que namorou uma garota só antes da Amanda. Um cara assim não teria um caso. Ele nem pensa nisso, Roni.
   Roni ficou mexendo com o canudinho o suco à sua frente e tomou um pouco ainda pensativo. Maria Eugênia viu Amanda de longe quando ia saindo da agência e acenou para ela sorrindo para que se aproximasse. A moça a viu e chegou perto deles.
- Oi, tudo bem? - perguntou, beijando Gini no rosto.
- Tudo. Está indo?
- É, a Rita me dispensou.
- E o Marco?
- Trabalhando, ela disse, erguendo a sobrancelha com um sorriso. – Ele fica até as cinco hoje. Ele trabalha aqui... embora tenha gente que ache que não.
   Ela disse isso propositalmente olhando para Roni que sequer levantou o rosto para encará-la, quando percebeu que a indireta era para ele.
- Não quer tomar um suco com a gente? - Gini convidou gentilmente.
- Não, obrigada. Eu tenho que ir mesmo.
- Você vai como? Eu nunca vi seu carro. Só vejo o Escort prata do Marco. Você não tem carro?
- Tenho... e não tenho. Eu tenho um Fiat desde os dezesseis anos, mas sofri um acidente com ele no ano passado e... bom, o Marco ganhou o Escort no aniversário de dezoito anos e ele sempre me leva e quando ele não pode, eu pego um táxi ou meu pai me pega, a Rita...
- Você ficou com medo de dirigir?
- Não é bem medo, ela disse, sentando-se na cadeira vazia na mesa. – O carro ficou no conserto por um tempo e já está tudo bem com ele. Está na garagem do meu pai, mas eu não tirei carta ainda.
- Você dirigia sem carta? - Roni perguntou, curioso.
- É uma longa história que começou lá em Minas. Mas o acidente não foi por isso, se é isso que você está insinuando... e, como eu disse: é uma longa história que eu não posso contar agora. Preciso ir.
   Ela beijou os dois no rosto e se levantou.
- Tchau... Ah! já convidei os dois pro meu baile de formatura?
- Não, disse Maria Eugênia.
- Os convites vão ser entregues esta semana e eu trago pra vocês. Estão convidados os dois. Vai ser no dia vinte e três de dezembro, no Clube Hípico de Santo Amaro. A sede é linda. Espero que vocês vão.
- Eu vou, disse Maria Eugênia, animada. - A Rita tinha me dito sobre ele, só não me convidou porque você é que tinha que fazer isso.
- Imagina. Ela podia convidar afinal, foi o marido dela que pagou tudo e ela é casada com ele desde que ele começou a fazer isso. Você vai estar no Brasil ainda?
- Vou. Eu vou passar o Natal com meus pais aqui. Se eu voltar vai ser só no início de janeiro.
- Legal. Bom, eu vou indo. Tchau.
- Tchau.
   Amanda se afastou. Maria Eugênia lançou um olhar travesso para Roni enquanto sugava seu suco com um jeito gracioso e sorria. Ele olhou para ela e perguntou:
- O que foi?
- Ela é um amor. Ainda vale a pena separá-la do marido que eu tenho certeza de que ela ama?
- Ela tem dezoito anos. É uma adolescente. Mudar de gosto é coisa que adolescente faz com muita facilidade.
- Ela é uma mulher e se eu fosse mulher daquele gato, jamais ia ter olhos pra mais ninguém.
- Isso a gente ainda vai ver...
   Maria Eugênia riu, balançando a cabeça, achando que o colega de trabalho estava sonhando alto demais.

                 AMANDA, ESCRITO NAS ESTRELAS IV
Velucy
Enviado por Velucy em 09/08/2017
Código do texto: T6078269
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Velucy
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