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AMANDA IV - DEPOIS DO SUSTO - CAP. II

                               
                                    II – DEPOIS DO SUSTO

                                      Algum tempo depois, Amanda ouviu barulho de motor e logo em seguida uma voz conhecida chamar:
- Ô, de casa!
   Era Teo que entrava na casa com Cleo pela mão. Ele entrou pela porta aberta e estranhou ver Amanda sentada sozinha na sala com o menino. Amanda chorou mais ainda, ao vê-lo. Teo apressou-se e foi até ela, preocupado.
- Oi, gata, o que foi que houve?
- Foi um anjo que te mandou, Teo.
- O que foi que aconteceu?
- O seo Antônio desmaiou, acho que teve um enfarte... Eu não sei direito...
- Cadê o Marco?
- Lá dentro, no quarto, com a Mariana...
    Teo se apressou a ir ver o amigo. Cleo sentou-se ao lado dela e a abraçou.
- Fica calma. Vocês estão sozinhos?
- Dona Laila foi com ele na ambulância. A gente ficou, porque alguém tinha que cuidar da Mariana e do Júlio César. A mãe dele teve bebê e está na UTI... Aconteceu de tudo hoje, Cleo.
- Calma, vem até a cozinha comigo. Me mostra onde estão as coisas lá. Vou fazer um copo de água com açúcar pra você. Você está muito nervosa. Não pode cuidar de uma criança assim.

   Ao chegar no quarto, Teo viu Marco sentado na cama, com os braços apoiados nos joelhos olhando para a irmã no berço. Sentou-se a seu lado devagar e colocou o braço sobre seu ombro. Marco olhou para ele e fechou os olhos, abraçando-se ao amigo com força. Ficaram algum tempo assim e Teo perguntou:
- O que é que ele teve?
   Marco se afastou dele e enxugou o rosto.
- Não sei direito. Ele estava bem... Hoje de manhã, eu fui levar a Débora na maternidade pra ter o bebê e... a filhinha dela nasceu bem, mas ela teve complicações e teve... teve que ficar na UTI... Acho que está até agora, não sei... A gente almoçou e estávamos conversando sobre o pai do Aldo que mora aí do lado, você sabe... Eu estava dizendo que seria bom ele saber que a neta nasceu... Talvez eles pudessem fazer as pazes... Voltarem a ser pai e filho. Minha mãe e a Amanda não acharam muito boa a ideia... Elas acham que não devia se mexer mais com isso. Eu e a Amanda estávamos tentando fazer o Júlio andar. O menino não anda e não fala quase nada até hoje, com quase um ano... E meu pai viu o Pagliuso olhando pra cá... Ele achou que seria uma oportunidade pra ele falar com o italiano, tentar reaproximá-lo do Aldo e foi falar com ele...
- Os dois discutiram?
- Não foi bem uma discussão. Ninguém brigou, ninguém gritou... Meu pai falou pra ele que a neta tinha nascido, mas o italiano ficou irredutível quanto ao fato de fazer as pazes com o filho. Disse que não tinha mais filho, pior ainda, neta. Ainda me culpou por isso. Me chamou de moleque e deu as costas.
   Marco massageou a testa e fechou os olhos.
- Aí, meu pai... ia entrando em casa e... se apoiou na parede, colocou a mão no peito, parecendo sentir alguma dor muito forte, se voltou pra mim e caiu, desmaiou nos meus braços... Eu não soube o que fazer.
   Marco escondeu o rosto nas mãos, chorando.
- Eu não estou pronto pra perder ele ainda, Teo! Não posso!
- Calma, cara, não vai acontecer nada. Teu pai é um cara forte. Ele está só precisando de descanso, de férias. Você não vem falando isso há muito tempo? Quem sabe isso que aconteceu tenha sido só pra dar um chacoalhão nele e ele sossegar na marra.
- Enfarte não é brincadeira, cara!
- Não estou dizendo que é, Marco, mas você já ouviu a frase que diz que há males que vêm pra bem?
- Que bem pode vir do fato de meu pai morrer, Teo?
- Ei! Ei! Ei! Vamos parando por aí, garoto. Você não é descontrolado desse jeito. Focaliza, cara. Eu não conheço cara mais centrado que você. Respira! Ele não morreu! Foi só um susto, vai passar. Você previu que a Amanda ia ser sua e ela é agora. Na sua bolinha de cristal, você não vê também que seu pai ainda tem uma filha pra criar e que Deus ainda não pirou pra levar ele embora agora?
    Marco levantou a cabeça e olhou para Mariana, enxugando o rosto. Levantou-se e foi ficar perto do berço, segurando a mão da irmã.
- Tem fé, Marco. Teu pai vai sair dessa. Vamos fazer o seguinte: a Cleo veio comigo. Ela está aí com a Amanda. As duas ficam cuidando das crianças e eu te levo no hospital pra ver seu pai. Tudo bem? Você fica mais calmo?
   Marco olhou para ele e balançou a cabeça concordando.
- Marco, lembra quando meu pai morreu?
   O rapaz balançou a cabeça de novo.
- Eu tinha dezesseis anos e você quatorze. Você não podia fazer nada por mim, mas não saiu do meu lado um minuto. Você passou a noite do velório toda do meu lado, a noite inteira, sem dizer nada, porque eu falei que não queria ouvir nada. Você dormiu na minha casa e, no dia seguinte, quando eu falei que ia deixar o colégio, no segundo ano, pra poder cuidar da minha mãe, você disse... que eu ia ter tempo mais tarde e que ia voltar quando desse. E depois você me encheu tanto o saco que eu acabei voltando mesmo. Eu nunca te agradeci por isso. Agora é a minha vez de te encher o saco. Eu não vou sair do teu pé, se você deixar, até teu pai voltar pra casa.
   Marco sorriu entre as lágrimas e aproximou-se dele, abraçando-o demoradamente.
- Obrigado...
   Cleo e Amanda apareceram na porta do quarto e Amanda falou:
- Marco, o Aldo ligou avisando que a Débora já saiu da UTI. Ela já está no quarto com a Juliana. A mãe dela está com ela e está tudo bem.
- Graças a Deus... o rapaz disse.
   Cleo se aproximou dele e o abraçou.
- Fica tranquilo, Marco, vai ficar tudo bem com seu pai.
- Obrigado, Cleo.
- Meninas, vocês duas vão ficar aqui cuidando da Mariana e do JC, que eu vou levar o Marco no hospital pra ver o seo Antônio. É possível?
- Claro, disse Cleo, aproximando-se do berço de Mariana e pegando a menina no colo. – Oi, gatinha! Vem com a tia Cleo.
- Ela deve estar com fome, disse Marco.
- Eu faço a mamadeira, disse Amanda. – Vou aproveitar e fazer logo pros dois. Me ajuda, Cleo?
- Claro.
   Os quatro foram para a sala e, antes de sair com Teo, Marcos abraçou Amanda e a beijou.
- Eu ligo se tiver alguma notícia concreta.
- Faça isso, amor, por favor.
- Obrigado...
- Por quê?
- Por você estar aqui... do meu lado. Eu te amo.
- Eu te adoro, ela disse beijando o marido novamente. - Vai ficar tudo bem.
   Marco beijou Júlio no colo dela e foi beijar Mariana também.
- Obrigado, Cleo.
   A moça apenas sorriu e os dois saíram.
- Você sabe dar banho em criança? Amanda perguntou.
- Nunca dei, por quê?
- Se a gente desse banho nos dois e depois desse a mamadeira, quem sabe eles dormiriam.
- É uma. Vamos? Cleo disse, animada.

   Quando chegaram ao Centrocor, Marco chegou até a recepção e procurou obter informações sobre o pai.
- Por favor, eu gostaria de saber sobre um senhor que entrou aqui hoje à tarde na emergência.
- Qual o nome dele?
- Antônio Carlos Ramalho, 44 anos...
   A moça verificou nas fichas e encontrou:
- Ele subiu da emergência para o CTI. Está sendo observado pelo doutor França.
- Eu posso subir?
- Você é o que dele?
- Filho, e esse é um amigo.
- Seu nome?
- Marco Antônio Ramalho.
- É, o doutor França autorizou você a subir se viesse. Sua mãe já está lá em cima, não é?
- Já.
- Podem subir então. Primeiro andar, quarto 119.
   Quando entraram no elevador, Teo falou:
- Está vendo? Seu pai está bem, foi só o susto mesmo.
- Tomara que sim.
- Está com dúvida ainda?
- Só vou sossegar quando o vir.
   Chegando ao primeiro andar, procuraram o quarto 119 e viram a porta aberta. Marco entrou e viu de longe o pai deitado na cama, conversando com Laila. Ela passava a mão carinhosamente por seu rosto.
  Marco parou e colocou a mão sobre a boca, começando a chorar novamente, mas fazendo grande esforço para não fazer isso ali dentro. Voltou para fora do quarto e encostou-se na parede.
- Que foi, cara? Teo perguntou.
- Meu pai está bem! Ele está bem, Teo...
- Claro que está, Teo disse, rindo e colocando a mão em seu ombro. – Quer um copo de água?
   Marco balançou a cabeça negando e enxugou o rosto. Respirou fundo, ajeitou os cabelos e entrou no quarto novamente, mais calmo. Aproximou-se dos pais e chegou junto da cabeceira da cama. Antônio sorriu ao vê-lo. Marco pegou sua mão.
- Oi, pai.
- Oi, filho. Desculpa o susto. Oi, Teo.
- Tudo bem, seo Antônio?
- O que foi que aconteceu, mãe? Marco perguntou.
- Foi só um início de enfarte, mas o resgate veio logo e deu tempo de medicá-lo. O doutor França estava aqui até agora a pouco. Já está tudo bem, graças a Deus.
- Vai tirar férias, agora? Marco perguntou.
- Na marra, o médico mandou. Disse pra eu ficar de molho por uns quinze dias, Antônio disse, sorrindo.
- Aleluia! Ele só obedece com um chicote nas costas, como não tinha ninguém pra bater...
   Todos riram.
- Tenho uma notícia boa: a Débora já saiu da UTI, disse Marco.
- Que bom, filho, disse Laila. – E a sua irmã?
- Está com a Amanda e a Cleo lá em casa. Está tudo bem, ele disse, acariciando a mão do pai na sua.

   Depois de dar banho, trocar e alimentar as crianças, com a ajuda de Cleo, Amanda ligou para o pai para avisar do que tinha acontecido com Antônio, e José e Rita foram para lá, prestar solidariedade. Quando Marco chegou em casa, eles estavam lá e ele contou a história toda aos dois, mais tranquilamente.
- Ele vai ficar no hospital, hoje? José perguntou.
- Vai, Marco respondeu. - Só passar a noite, em observação. A gente vai ter que fazer outro plantão aqui, amor. Minha mãe pediu pra gente ajudar mais um pouquinho, tudo bem?
- Tudo bem, ela disse, sorrindo e segurando sua mão.
- Eu disse que ficaria com ele, mas ela não quis.
- Ainda bem que foi só o susto, falou José. – Mas há males que vêm pra bem. Agora ele vai poder descansar um pouco.
   Marco olhou para Teo e os dois sorriram um para o outro.
- Bom, a gente já vai indo, disse Teo. – Eu vou levar a Cleo em casa, mas à noite eu passo por aqui.
- Obrigado pela ajuda, Cleo, Amanda disse, segurando as mãos da moça.
- Foi um prazer, disse Cleo, beijando-a no rosto. - Sempre que precisar, conta com a gente. Tchau, Marco. Até segunda?
- Até segunda, ele disse apertando a mão dela. – Obrigado.

   Os dois saíram. Amanda sentou-se ao lado do pai e ele a abraçou, carinhoso, beijando sua testa.
- Cansada?
- Um pouquinho.
- As crianças dormiram, amor? Marco perguntou.
- Os dois. Tomaram banho, comeram e capotaram. Estão no quarto da sua mãe.
- Então vai descansar também um pouco.
- Eu vou... Tchau, pai, ela disse beijando o pai no rosto. - Tchau, Rita.
- Tchau, meu anjo.

   Amanda foi para o quarto e Marco sentou-se numa poltrona e passou as mãos pelo rosto.
- Pelo que a Amanda contou, o dia foi complicado, não é? - José perguntou.
- Nem fale... Mas já está ficando tudo bem.
   Ele olhou para Rita que olhava pare ele em silêncio e estranhou isso nela.
- Que é que você tem, Rita? Não me diga que está triste por causa do meu pai. Vocês vivem que nem cão e gato.
   Ela sorriu.
- Não desejo isso que ele passou nem pro meu primo mais chato, garoto.
- Estou brincando, ele disse. – Mas o que você tem?
- Nada. Vocês vão passar a noite aqui?
- Vamos. Nós dois e as crianças. Vocês podiam fazer um favor pra mim: passem no nosso apartamento e vejam se está tudo bem lá. Só pra garantir.
- Pode deixar, a gente passa. Vocês precisam de roupa, alguma coisa mais?
- Se você puder fazer o favor de trazer pra gente, Rita, eu vou adorar.
- Eu trago.
   Os dois saíram e Marco começou a fechar a casa. Foi para a cozinha, onde Amanda e Cleo já tinham deixado tudo ajeitado e resolveu fazer um chocolate. Viu Sherlock deitado em seu cantinho ao lado da geladeira e falou:
- Oi, Sher. Onde você estava? Passou fora o dia inteiro, safado?
   Ele pegou o gato no colo e acariciou seu pelo, colocando-o de novo no mesmo lugar. Colocou ração para ele e para Max e entrou de novo na cozinha, trancando a porta. Pegou dois copos de chocolate quente e foi para o quarto dos pais. Amanda estava deitada do lado direito da cama, ao lado de Júlio César e ele se acomodou nos pés da cama, tentando relaxar um pouco. Não conseguiu dormir, mas fechou os olhos e ficou pensando nas coisas que haviam acontecido naquele dia.

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Velucy
Enviado por Velucy em 06/08/2017
Código do texto: T6075962
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