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AMANDA III - RETORNO IMPREVISTO - CAP. XIII

                                   XIII – RETORNO IMPREVISTO


                                                     Quando Marco chegou em casa, já no corredor, percebeu a luz acessa no apartamento pela fresta da porta e estranhou. Então se lembrou que havia prometido ir jantar com a mãe no dia anterior e que havia esquecido completamente. Encostou-se na parede e passou a mão pelos cabelos, mas estava muito cansado pra voltar. Talvez fosse ela, cobrando a visita.
   Abriu a porta e entrou. Não viu ninguém na sala. Chamou:
- Mãe! É você?
   Amanda apareceu na porta da cozinha, com o rosto sério e vermelho de quem tinha chorado.
- Oi! ele falou e sorriu surpreso por vê-la. – Você não ia... voltar amanhã à noite?
- Eu resolvi voltar antes...
   Ele aproximou-se dela devagar e a beijou. Ela não correspondeu.
- O que foi? ele perguntou, percebendo que ela estava fria.
- Onde você estava?
- Na quadra de Squash da faculdade, jogando um pouco... O que aconteceu?
   Ela afastou-se dele devagar e sentou-se no sofá. Tinha uma revista enrolada na mão e a colocou lentamente sobre a mesa de centro e a revista se abriu, mostrando a capa.
- Era com ela que você estava? perguntou com a voz sumindo na garganta.
   Marco foi sentar-se a seu lado, ainda olhando para ela.
- Ela quem? Eu estava sozinho...
- Com ela... Amanda falou, apontando para a capa da revista com um movimento da cabeça.
   Era uma Playboy, cuja capa tinha a foto de Maria Eugênia, nua.
   Ele olhou para a revista e a pegou. Ficou olhando para a foto, boquiaberto. Não tinha a mínima ideia de que a moça tinha ido tão longe.
- Onde é que você achou isso?
- Estava em cima da mesa da Rita.
- Você esteve na RR... hoje?
- Eu voltei de Campos e cheguei a São Paulo às quatro. Vim com a Cris. Passei primeiro lá pra te ver e... a Haidée me contou... que você tinha saído pra almoçar com a... com ela, e que não voltaria mais hoje. Como eu não sabia quem era e a Cris a conhecia e viu a revista em cima da mesa... me mostrou. É ela?
   Marco ficou totalmente sem chão e colocou a revista de volta na mesa devagar. Não respondeu logo, porque percebia que a resposta não ia ser tão simples como um sim ou não.
- Como é que essa revista foi parar na mesa da Rita? De manhã ela não estava lá.
- É ela? Foi com ela que você foi... almoçar? ela perguntou, sem olhar para ele.
- Foi... mas...
   Amanda passou as mãos pelos cabelos e se levantou rapidamente, afastando-se dele.
- Amanda, eu nunca soube dessa revista. Eu só...
- Você foi conhecer pessoalmente, ao vivo e a cores, não é?
- Não! ele respondeu, quase rindo de tão nervoso que estava. – Eu fui almoçar com ela e depois a deixei no prédio onde os pais dela moram, no Morumbi, mas...
- E por que não voltou mais pra agência? Hoje é quinta-feira, Marco. A Rita confiou em você pra cuidar da RR e não pra cuidar da modelo dela!
   Ele sorriu e cruzou as mãos, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando para o chão. Respirou fundo.
- Eu não quero brigar com você, ele falou calmamente. – E eu não vou brigar com você...
- Não quero brigar também, Marco, só quero que você me explique o que estava fazendo a tarde toda depois de ter saído da RR com a capa da Playboy de novembro!
- Eu não saí com a capa, eu saí com a modelo da RR que por acaso é amiga da Rita e veio de férias pro Brasil. Eu estava com raiva de mim mesmo, por estar tão inseguro, porque você tinha saído com o modelo mais bonito da RR, que por acaso é doido por você, no dia anterior e...
- Eu já expliquei o que aconteceu! ela disse erguendo a voz e voltando-se para ele.
- Por isso mesmo! Eu estava me sentindo um idiota! Eu saí pra almoçar com a Maria Eugênia e a gente falou de você praticamente o almoço inteiro!
- É esse o nome dela... E que idade ela tem, dezenove? Pra ter saído nua na capa da Playboy, deve ter, porque eles lá levam muito a sério essa coisa de idade...
- Isso não vem ao caso, Amanda, eu nem sabia que ela já tinha posado nua em revista nenhuma. Eu a conheci ontem!
- Que idade ela tem?
- A mesma que você! Dezoito anos!...
   Amanda deu as costas para ele e começou a chorar.
- Amanda... ele gemeu aflito.
   Ele se aproximou dela e colocou as mãos sobre seus ombros. Ela deu um passo para mais longe dele, se afastando.
- Amanda, olha pra mim... ele pediu.
   Ela fechou os olhos e não se moveu, sem conseguir parar de chorar, ainda que em silêncio.
- Por que você voltou de Campos?
- Eu fiquei preocupada com você. Te senti tão triste, no telefone... Achei que você tivesse ficado zangado comigo. Que estava sentindo minha falta...
- Mas eu estava mesmo. Eu falei pra você que estava morrendo de saudade. Só que você não pode deixar seu trabalho por minha causa, Amanda. Se a gente for viver assim...
- Eu não deixei meu trabalho! ela disse, voltando-se para ele. - Eu fiz tudo que tinha que ser feito lá e ia ficar mais um dia só pra acompanhar o trabalho da Luana com o Fernando que foram fazer umas fotos no teleférico da cidade e depois a gente ia ficar só curtindo pra se despedir. A cidade é linda... e eu adorei ir pra lá. Me lembrou Poços... Me lembrou minha avó...
   Seu choro aumentou de intensidade pelas lembranças e pelo nervosismo e Marco se aproximou dela e a abraçou. Amanda se deixou abraçar, mas não retribuiu ao abraço.
- Valeu a pena o almoço? ela perguntou.
- Eu imaginei que um dia fosse acontecer alguma coisa desse tipo comigo... com a gente, mas não pensei que fosse tão cedo...
- O quê?
- Eu ter que provar pra mim mesmo que eu posso ficar sem você e sobreviver a isso.
   Ela olhou para ele.
- Não entendi. A Maria Eugênia te fez sobreviver?
- Eu conheci a Maria Eugênia ontem, Amanda. A Rita a descobriu e a mandou para os Estados Unidos há três anos e mantinha contato com ela. Até falava de mim pra ela. Tinha até a intenção de... ligar a gente... tipo cupido, sabe? Você conhece a Rita...
   Amanda franziu a testa.
- Eu estou te contando pra você não ficar sabendo por outra pessoa depois e pensar abobrinha a meu respeito.
- Continua...
- Só que, quando a Rita chegou aqui em São Paulo, eu já estava até casado com você e ela desistiu, esqueceu, sei lá. Mas também se esqueceu de falar pra mim que tinha uma modelo brasileira da RR na América. E ela voltou pro Brasil anteontem e quando eu cheguei ontem na agência, ela já estava lá fotografando com o Kleber e foi aí que eu a conheci.
- Ela é muito bonita... disse Amanda, olhando para a capa da revista em cima da mesa.
   Marco foi até a mesa e virou a revista ao contrário, voltando para perto dela e a abraçando novamente.
- Tem muita gente bonita nesse mundo, Amanda.
- Ela te contou da experiência de ter posado nua pra Playboy?
- A gente não falou sobre isso. Eu fiquei sabendo disso agora. Ela é uma garota como você, Amanda, super simples, inteligente...
- Linda...
- Também, só que ela me contou uma coisa que a faz diferente de você.
- O quê?
- Ela não nasceu linda. Há alguns anos era gordinha, usava aparelho nos dentes e tinha o rosto cheio de espinhas, ele disse rindo.
   Ela riu também e se aninhou nos braços dele.
- Eu também não nasci linda...
- Duvido. A Dalva me mostrou fotos suas, quando criança, que dizem justamente o contrário.
- E o que você estava fazendo depois do almoço?
- Eu fui levá-la em casa, aqui no Morumbi, depois senti vontade de fazer alguma coisa que me deixasse bem cansado. A RR estava em boas mãos. Eu não abandonei a agência, como você disse. A Haidée e o Kleber cuidam de tudo direitinho. Estava tudo sob controle lá, então eu fui pra quadra de Squash na Anhembi/Morumbi e joguei a tarde inteira, sozinho, pra chegar aqui e conseguir dormir cedo pra não pensar mais em você. Eu tive uma noite péssima ontem, sabia?
   Ela continuou escondeu o rosto no peito dele e não respondeu. Marco acariciou seus cabelos e perguntou:
- E o Roni? Se comportou lá, longe de mim?
- Eu nem me estresso mais com ele. Nem ligo mais. Eu finjo que não é comigo.
- Quer dizer que ele continua dando em cima de você?
- Ele é muito imaturo, mas é muito bom no que faz e fotografa muito bem. Entra nos personagens que tem que fazer bem rápido e isso ajuda, porque aí não precisa ficar gravando várias vezes a mesma coisa. A Rita gosta disso. A gente vai fazer um comercial da Coca-Cola juntos no início do verão, agora em novembro.
- Ele não te aborrece mesmo?
- Não... Eu não consigo parar de pensar em você. Não tenho tempo pra pensar nele.
   Marco acariciou seu rosto e a beijou apaixonado.
- Eu já disse que estava morrendo de saudade desse beijo?
   Amanda não respondeu. Ele a apertou nos braços e a beijo repetidas vezes.
- Você não está cansado? ela perguntou, baixinho.
- Pra isso, não... Estou com saudade...
   Ele a ergueu nos braços durante outro beijo e a carregou para o quarto até a cama. Fizeram amor e tempos depois, ainda deitados, Amanda comentou:
- Eu vi um projeto super lindo lá em Campos, feito com crianças. É parecido com o que eu quero fazer, daqui alguns anos. Eu quero fazer minha agência de modelos só pra crianças naquele formato.
- Como? ele perguntou, acariciando seu braço.
- Eu quero receber qualquer tipo de criança, não só as bonitinhas de olhos azuis ou verdes, mas as que tiverem o mínimo de vontade de posar, brincar e ser feliz. E que tenham um tiquinho de carisma que também ajuda.
   Marco sorriu e beijou seu ombro.
- Você não acredita que eu vou fazer isso?
- Claro que eu acredito. Eu vou ser seu sócio, lembra?
- Jura? Você acredita mesmo nessa minha ideia?
- Claro! Se você me quiser nesse projeto.
   Ela olhou para ele e sorriu também, beijando seu rosto.
- Claro que eu quero! Eu imagino assim: arrebanhar as crianças de até... quinze anos, pra começar...
- Começando com que idade?
- Bebês mesmo. Tem muito bebê lindo que pode fazer comercial de fralda, talco, brinquedo... Aí, eu já informo às empresas contratadas que, uma porcentagem do que eles vão pagar pra agência, vai para as crianças que eles contratarem, pra ajudar os pais com os estudos delas, alimentação, roupa, essas coisas.
- Podia ter um playground nas dependências da agência... ele ajudou.
- Um refeitório... ela falou, girando o corpo para olhar para ele de frente.
- Biblioteca... ele continuou.
- É! Pras crianças poderem estudar, ler, desenhar, enquanto esperavam por alguma atividade como fotografar ou gravar algum comercial...
   Marco beijou sua boca e disse:
- Nossos filhos serão os primeiros contratados dessa agência...
   Amanda riu e escondeu o rosto no peito dele.
- Que foi? Falei besteira?
- Não... É que estou lembrando que eu saí tão depressa de Campos, hoje, que não tomei a pílula. Esqueci. Eu posso ter engravidado agora.
- E isso é ruim? ele perguntou, com cara de quem tinha feito algo errado.
- Me diz você.
- Bom... ele falou, medindo o rosto dela. – Eu não queria ter que trocar fraldas com menos de vinte um, nem que você fizesse isso, mas... como eu disse pro Aldo... quem está na chuva...
   Ele a beijou novamente com mais intensidade e colou o corpo no dela, começando tudo de novo.
- Agora, se acontecer, a gente sabe por que foi, ela disse, baixinho.
- Depois a gente conversa sobre isso... quando os gêmeos nascerem...
   Amanda riu, recebendo novos beijos dele e o corpo dele no seu.

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Velucy
Enviado por Velucy em 03/08/2017
Reeditado em 06/08/2017
Código do texto: T6072725
Classificação de conteúdo: seguro

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