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AMANDA III - EMOÇÕES DEVIDAMENTE ESCLARECIDAS - CAP. XII

                    XII – EMOÇÕES DEVIDAMENTE ESCLARECIDAS

                                                Depois que Amanda desligou o telefone, Marco ficou olhando para o aparelho, depois cruzou os braços sobre a mesa e escondeu a cabeça neles, pensando em tudo que tinha se passado por sua mente nas últimas vinte e quatro horas. Sentia-se um completo idiota e ficou com raiva de si mesmo. Colocou o telefone no gancho e levantou-se saindo da sala. Encontrou Haidée e Maria Eugênia esperando por ele no corredor.
- Quer almoçar comigo ainda? ele perguntou à modelo.
- Claro... ela respondeu.
- Haidée, não me espera mais hoje.
- Está tudo bem com a Amanda?
- Está... Eu é que tenho que parar de ser estúpido.
   Marco saiu do prédio e tomou a direção do estacionamento e Maria Eugênia estranhou, seguindo o rapaz.
- A gente não ia aqui perto? ela perguntou.
- Minha fome ficou maior do que eu esperava. Quero comer alguma coisa bem cara! Você já comeu no Galeto’s?
- Já, uma vez, com meus pais, mas...
- A segunda vai ser comigo.
   Aproximaram-se do carro, ele abriu a porta para ela, deu a volta no carro e entrou também, pegando a rua em velocidade e queimando pneus. Só quando já estavam na avenida foi que ela teve coragem de perguntar:
- Posso saber ao menos por que você está com tanta pressa e... tão zangado?
- Por isso... ele mostrou a aliança na mão esquerda. – Eu sou casado.
- Hum... Eu soube.
- Não sei por que eu não disse logo pra você... Aliás, acho que sei sim. Estava com raiva... e agora estou mais ainda.
   Ele ultrapassou um ônibus e dois automóveis com manobras perigosíssimas e ela, se segurando no banco do carro, sugeriu:
- Você não acha melhor ir mais devagar? Eu tenho só dezoito anos e pretendo seguir com a minha carreira até o fim, com tudo inteiro.
   Ele riu.
- Eu também. Não se preocupe. Eu dirijo desde os dez anos.
- Tem gente que morre de acidente de carro com sessenta também, sabia?
   Marco não respondeu e riu novamente.
   Quando o carro parou queimando pneus de novo diante do restaurante, ele estava mais calmo. Respirou fundo e olhou para ela sorrindo.
- Você está bem?
- Acho que sim... ela disse, sorrindo nervosa e aliviada ao mesmo tempo. – Você é doido!
   Marco saiu do carro e foi abrir a porta para ela. Entraram no restaurante.
   Sentaram-se numa mesa muito discreta junto a uma janela e fizeram os pedidos. Enquanto esperavam, Marco tomava pequenos goles de vinho olhando pela janela e ela, apoiando o rosto na mão, perguntou:
- Mais calmo?
   Ele sorriu.
- Desculpa. Acho que foi a tensão dos últimos dias saindo pra fora toda de uma vez.
- Há quantos meses você é casado?
- Meses?... ele sorriu. - Dezoito exatamente... Um ano e meio. A gente se casou em maio de 88. No dia 28 agora fez um ano e meio.
- Um ano e meio? Você se casou com...
- Dezessete anos.
   Ela ficou olhando para ele boquiaberta. Marco riu.
- Que foi? Loucura, não é?
- Não me admira que já esteja arrependido...
- Mas quem falou que eu já estou arrependido?
- Você mostrou a aliança como causa da sua raiva. Não dá no mesmo?
- Esquece o que eu disse. Eu estava furioso por... nem sei por quê... Ela está com a Rita a trabalho em Campos do Jordão desde domingo à noite. Ontem eu fiquei esperando ela ligar de lá por quatro horas e...
   Marco parou de falar e riu, passando a mão pelo rosto.
- Parece tão ridículo! O motivo nem é esse...
- Então qual é? Desabafa. De repente eu posso te ajudar.
   Ele olhou nos olhos dela e respondeu:
- É você...
- Eu? Maria Eugênia surpreendeu-se.
- É. Até eu me casar com a Amanda, eu conheci muitas garotas, namorei com uma e fui paquerado por várias... mas nunca tinha reparado em nenhuma, depois que ela entrou na minha vida. Você foi a primeira...
   Ela sentiu uma onda de calor lhe subir o rosto e sorriu, querendo explodir de orgulho, embora por fora mantivesse a calma de antes.
- Não fique pensando nada errado, eu... amo a Amanda. Amo mesmo, paixão tripla, além do cosmos... Mesmo que eu... traísse a Amanda com cinco garotas de uma vez, nunca poderia negar a mim mesmo que a amo. Isso já nasceu comigo. Mas... você me trouxe à tona um lado meu que está adormecido há muito tempo... Eu mesmo não sei direito o que é. Acho que nem tive tempo de provar isso.
   Ela continuou sorrindo em silêncio. A voz dele falava gostoso e falava dela. Por que estragar aquele momento falando também?
- Começo a dar razão pro meu pai... Marco continuou, olhando para o casal de namorados algumas mesas adiante.
- Por quê?
- Ele não queria que eu me casasse tão cedo.
- Isso me parece sinônimo de arrependimento ou é alguma outra emoção que está te fazendo dizer isso?
   Marco encostou-se na cadeira e sorriu.
- Já falei que eu não estou arrependido. Eu só estou com raiva... de estar longe dela. Estou com ciúme de um panaca que gosta dela e que está lá com ela, enquanto eu estou aqui, sozinho e por culpa minha mesmo! A Rita disse mil vezes pra eu ser o único modelo ao lado da Amanda e eu não quis!
- O comercial da Bunny’s tem alguma coisa a ver com vocês?
- Tudo... É a nossa história. Foi feito pra nós.
- Estou entendendo agora! Mas você tem todo pique de um modelo profissional.
- Visual, você quer dizer.
- Também, mas...
- Não foi isso que eu planejei pra mim, Maria Eugênia. Você sabe quando dá pra coisa e sabe bem que esse tipo de profissão não tem futuro. Não pra um homem casado. Ele tem sempre que ter uma segunda opção.
- Você tem razão, mas não custa aproveitar enquanto você pode usufruir. Você é um gato, sem demagogia, estou falando como profissional. Você tem altura de modelo e uma pele linda! Você é um sonho. Aposto que não faz nada pra ser assim.
- Não, ele diz corando levemente.
- Pois eu tenho uma tendência terrível pra engordar, sabia?
- Mesmo?
- Com doze anos, eu pesava sessenta e três quilos, usava aparelho nos dentes e tinha o rosto cheio de espinhas.
- Você está brincando!
- Não. Foi minha mãe que me incentivou a seguir a carreira de modelo ainda quando eu era desse jeito. Ela não via esperança nenhuma em mim, mas pra não me ver tão frustrada, vivia dizendo que eu era linda, só precisava me cuidar. Então eu comecei a me cuidar. Fiz tratamento de pele, regime...
- Com doze anos?
- Com doze anos! Tudo com acompanhamento médico pediátrico, direitinho. Minha mãe não queria que eu me matasse pra ficar bonita. Quando eu emagreci meus primeiros dois quilos em dois meses, comecei a ver que nem tudo estava perdido e comecei a me respeitar como pessoa. A pele ficou lisinha, o cabelo cresceu e eu peso sessenta quilos com dezoito anos.
- E tem dentes lindos.
   Ela sorriu.
- Também. Só que não é fácil manter isso. Desde que eu fui pra América, tenho feito de tudo pra não sair do peso, mas não é fácil.
- Eu não acredito.
   O garçom trouxe os pratos pedidos e ela ficou olhando para o capeleti delicioso que se apresentava na travessa diante deles.
- Pra você ter uma ideia, faz mais de um ano que eu não como isso.
   Ela falou apontando para o prato.
- Quer pedir outra coisa? Eu não sabia...
- Não! Eu fui convidada de um modo tão diferente que eu não posso dizer não a nada do que acontecer hoje, com a desculpa de que estou de regime.
   Marco sorriu sem jeito.
- A Amanda não tem esses problemas, não é?
- Não. Ela também não pensava em ser modelo. Entrou nessa porque a Rita insistiu e acabou se dando bem. Também, ela tem o rosto mais lindo que eu já vi e... independente de eu ser casado com ela ou não, ela tem um corpo muito bonito. Há uma pá de gente querendo o rosto dela num comercial... e o resto também.
- Então você deve ter essas crises sempre, não?
   Ele riu.
- Não, também não é assim. Aliás, depois de casado é a primeira vez. Também é a primeira vez que ela fica longe tanto tempo.
- Prova de fogo, hein?
- Como assim?
- Nada, esquece, bobagem...
- Termina! Você me acha inseguro demais pra ficar sozinho, não é?
- Não!
- Pode falar, eu também concordo, ele falou tomando  mais um gole de vinho.
- Você se acha inseguro?
- Não achava, até ontem. Nesses últimos dias anda me pintando um medo de perder a Amanda. E, como aconteceu comigo, pode acontecer com ela também. Ela pode muito bem se encantar por outro cara e aí...
- Para com isso! Estou ficando com vontade de bater em você!
   Ele riu do modo engraçado como ela falou.
- Acho que eu mereço.
   Ele ficou sério de novo. Suspirou.
- Mas que é possível, é...
- Marco! ela exclamou.
- Ela tem dezoito anos, é linda e já é conhecida em São Paulo inteiro ou pelo menos por todo mundo que já viu os comerciais que ela já fez, a começar o da Bunny’s...
- Vocês fizeram! Você também é!
- É...  Por isso mesmo. E eu não sou o único cara bonito do mundo. O modelo que está fazendo a campanha da última conta da RR com ela também é bonito, loiro de olhos azuis, é doido por ela e está lá, em Campos também.
- É... ela falou, sem olhar nos olhos dele. – De repente já pintou mesmo alguma coisa especial entre eles...
   Ela falou displicente, olhando para a rua, bem séria.
- O quê?!
- Eu conheço o Roni por fotos. É ele, não é?
- É...
- Ele é um gato mesmo. Tem uns olhos azuis lindos. Eu não resistiria...
   Marco gelou e olhou para ela em silêncio, franzindo a testa. Maria Eugênia começou a rir.
- Você não quer sofrer? Estou só fazendo o seu jogo! Estou te ajudando...
- Parabéns! Você é ótima. É melhor a gente comer...
   Eles se serviram e começaram a comer.
- Que delícia! ela disse, fechando os olhos, ao degustar a massa com prazer.
   Marco sorria, observando seu êxtase.
- Você não tem namorado? ele perguntou, tomando outro gole de vinho.
- Tinha... tenho, sei lá!
- Como assim?
- Quando eu saí daqui, eu tinha. Quando disse pra ele que ia pra América, ele ameaçou terminar tudo. Eu tinha quinze pra dezesseis anos. Voltei, e eu ainda não chequei se ele terminou mesmo ou não. Minha mãe sempre me escrevia dizendo que ele perguntava sempre por mim, no início. Até um ano atrás, nem tinha namorada nova, mas depois viajou pro Rio e ela não soube mais dele. Ele não sabe que eu voltei então... eu não sei se tenho namorado.
- Você ainda gosta dele?
   Ela encolheu os ombros.
- Não sei. Na América, eu conheci tantos rapazes diferentes que ele acabou ficando longe demais pra eu me lembrar. Afinal de contas, foi ele que me deixou.
- Isso não é muito verdade. Você foi embora. Você acha que ele devia ficar esperando por você todo esse tempo? Que idade ele tem?
- Vinte e um agora.
- Para um homem não é fácil.
- Eu sei que não é, mas quando ele me disse que ia terminar tudo, também não perguntou se eu ia voltar logo ou não. Ele só não queria que eu fosse. Ele não me fez querer voltar pra ele.
- É, aí já é outro problema.
- E eu não quero entrar nessa de me prender a ninguém tão cedo. Vou fazer minha carreira, prestar o vestibular, fazer faculdade... depois eu penso nisso.
- Pensei que você estivesse aqui só de férias.
- Eu vim em férias, mas o pessoal de lá ficou preparado pra eu não voltar mais. Eu queria ver como estavam as coisas aqui. Sinto muita saudade do Brasil, quando estou lá. Embora Los Angeles seja um sonho que qualquer garota gostaria de viver. Eu adoro a cidade. Mas ficar longe dos meus pais, do meu irmão... A gente sempre foi muito unido. Sinto falta disso. Lá eu não tenho ninguém assim, que se preocupa de verdade comigo por eu ser do mesmo sangue. Eles me tratam muito bem, mas... Você me entende? Sinto falta de um colo de mãe de vez em quando.
- Eu sei bem o que é isso. Minha família também é bem importante pra mim.
- Você tem irmãos?
- Uma irmã... de quatro meses, ele disse sorrindo.
- Quatro meses?! Caramba! Que lindinho!
- Ela nasceu em julho passado.
   Marco tirou a carteira do bolso e abriu, mostrando a ela a foto que tinha de Mariana.
- Que boneca!
- Precisa ver de perto.
- Por que seus pais demoraram tanto pra ter outro filho?
- Não sei até hoje, só tenho uma suspeita de por que eles quiseram ter outro filho, agora.
- Por quê?
- Depois que eu fiz quinze anos, vivia pedindo um irmão e eles não se decidiam. Eu acho que quando eu me casei com a Amanda, eles viram que iam ficar sozinhos e...
- Que fofo!
- Seus pais encararam na boa o fato de você ir pra fora trabalhar tão nova?
- Meu pai é diplomata e a minha mãe é estilista. Eles vivem viajando também, então eu não tive muito trabalho pra convencê-los a me deixar ir, ainda mais que minha mãe conhece a Rita há muito tempo. Foi tranquilo. E a Amanda, ainda não recebeu nenhum convite pra posar fora do Brasil?
- Ela está em Campos do Jordão e eu já estou maluco. Você já está exigindo demais de mim, ele falou, passando a mão pelo rosto.
- Você não deixaria?
- Não sei... mas acho que ela não iria...
- Por sua causa?
- É...
- Você se sentiria bem, se ela não fosse por você, mesmo querendo ir?
- Claro que não, mas... nós somos casados. Ela não é minha namorada, embora eu a trate assim. E quando as pessoas ficam separadas, elas mudam, pensam diferente. O ser humano é muito... adaptável. A gente se acostuma com as coisas que vê e se esquece das coisas que não vê com facilidade. Eu não quero correr o risco.
- Você não confia nela?
- Confio... Ela me ama, eu sei disso, mas... eu acho que todo mundo é falível, é passível de erros que nunca pensou cometer. A maior prova sou eu mesmo. Você me fez trair a Amanda em pensamento, ontem...
- Como assim?
- Quando eu entrei no estúdio e vi você pela primeira vez, você estava... praticamente nua e... eu não consegui desviar os olhos de você.
   Maria Eugênia sorriu, corando levemente.
- Mas você não fez nada de errado! Será que ela nunca olhou pra outro rapaz que achou atraente também?
- Não foi só isso que eu pensei... ele disse, sem conseguir olhar nos olhos dela. – Isso me faz sentir... péssimo.
   Ela sentiu o sangue subir ao rosto.
- Ainda assim, não vejo traição nenhuma nisso. Você é homem e ninguém pode exigir que você não sinta nada olhando para uma mulher bonita.
   Ele olhou em seus olhos por um momento e baixou os olhos, respirando fundo, tomando o resto do vinho que estava na taça a sua frente.
- Acho melhor a gente pedir a conta e ir embora.
- Desculpa se eu te constrangi. O almoço foi tão legal.
- Foi e você não tem que pedir desculpa de nada.

           ********************************************
Velucy
Enviado por Velucy em 02/08/2017
Reeditado em 06/08/2017
Código do texto: T6072328
Classificação de conteúdo: seguro

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