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AMANDA, ESCRITO NAS ESTRELAS - CAP. I

                       
                            AMANDA, ESCRITO NAS ESTRELAS
                                                   por Vera Lucia Moreira
              (Inspirado no comercial da Bunny’s de 1989, estrelado por
                                Dimitria Cardoso e Marcos Gambarini)
                    Sugiro que vejam o clipe antes de ler o texto.

                        I – UMA GATA CHAMADA AMANDA

                                 - Bete, para com isso!
- Parei, já! E não vem atrás de mim! - gritou Bete, moreninha sardenta, dezesseis anos, bonitinha até, apesar do gênio forte, andando apressada pela calçada, junto ao muro do colégio, de onde acabara de sair.
    Atrás dela ia Marco Antônio, moreno também, olhos verdes, dezessete anos, o que as meninas da escola chamariam TDB (Tudo de Bom) e tentando desesperadamente explicar-se com ela de um mal entendido que poderia pôr fim ao namoro pela quinta vez.
- Eu não fiz nada! - declarou ele, gritando.
- Não?! - ela perguntou, voltando-se bruscamente. – Você olhou pra ela de um jeito que até eu fiquei vermelha!
- Que jeito, droga?! Eu não posso olhar nem pra servente da escola e você já implica!
- Cínico! Eu não quero te ver mais! Some da minha frente!
   Ela apressou mais o passo e Marco parou. Passou a mão pelos cabelos e esbravejou um palavrão que teve o cuidado de dizer sem som. O fusca vermelho de Teo, seu melhor amigo, parou junto dele e o rapaz, colocando um braço e a cabeça para o lado de fora da janela do carro, perguntou, com um sorriso sutilmente gozador nos lábios:
- Não convenceu, amigão?
- Não... Mas eu não fiz nada dessa vez, juro! - Marco falou, sinceramente.
   Teo riu.
- Entra aí. Te dou uma carona até em casa.
- Não, eu vou a pé mesmo. Preciso andar um pouco pra analisar meu sadomasoquismo. Eu não sei por que eu estou sempre atrás da Bete. Ela é um saco!
- Será por causa daquelas sardinhas sexy? Ou vai ver, você está querendo achar nela alguma coisa que ela não tem.
- Filosofia barata pra cima de mim, não, Teo. Dá um tempo!
- Tchau, então, disse o rapaz, dando partida no motor do velho fusca. - Espero que você consiga desvendar o grande mistério da sua vida. ‘Té amanhã.
- Tchau, despediu-se Marco, batendo no capô do fusca, que se afastou queimando pneus.

   Marco atravessou a rua, virou a esquina e entrou no bar-lanchonete que pertencia a seu tio Benê, irmão de sua mãe. Sentou junto ao balcão e bateu nele. Benê olhou para ele, franziu a testa, estranhando o jeito incomum do sobrinho e aproximou-se.
- Fala, garotão! Estudou muito hoje?
- Mais do que o normal. Me vê uma soda. Estou seco feito o Saara, disse o rapaz, num tom mal humorado.
- Ih! Sua cara diz que algo vai mal no reino dos Ramalho. Foi o seu pai ou brigou pela sexta vez com a gata.
- Quinta!
   Benê riu, pegando o refrigerante, abrindo a garrafa e colocando diante dele.
- Vocês não têm jeito mesmo. Mas... acho que não é só você que está com esse problema, hoje, disse ele em tom baixo, apoiando-se no balcão perto do sobrinho. - Dá uma olhada no casalzinho ali na mesa do canto. O cara parece um chato de galocha, pelo que eu pude notar, mas a gatinha, meu...!
   Marco voltou-se discretamente para o local indicado pelo tio e viu o casal. O rapaz estava de costas, parecia nervoso, pois gesticulava muito e até se podia ouvir o que ele falava; ela, loira, olhos de um verde suave, rosto de anjo, ouvia a tudo praticamente em silêncio com o rosto apoiado na mão, enquanto sugava pelo canudinho a Coca-Cola a sua frente.
   Marco conhecia a maioria das pessoas que frequentavam o bar do tio, mas o casal era desconhecido. Parecia gente nova no pedaço.
- Uma gracinha, não? - Benê perguntou baixinho.
   Marco não respondeu. Virou-se na cadeira e ficou de frente para a cena, cruzando os braços e fazendo questão de ouvir a discussão, mas não conseguiu entender muita coisa. O rapaz parecia zangado com ela por não lhe dar a atenção que ele achava merecer. Foi o pouco que Marco conseguiu captar de todo blá, blá, blá do mancebo.
   Ela olhava para o rapaz, com jeito de quem não aguentava mais a ladainha dele e por cima de seu ombro, olhou para Marco e quase sorriu, mas a voz do namorado lhe tomou a atenção de novo.
   Aborrecido, o namorado zangado se levantou, pagou a conta no balcão e saiu, pisando duro, deixando-a sozinha na mesa. A garota ficou ainda sentada por alguns segundos e seu olhar cruzou com o de Marco novamente e ela sorriu, sem jeito. Ele sorriu também, como que lhe dando um apoio silencioso. Ela se levantou, colocou a bolsa no ombro e seguiu o namorado. Marco sentiu seu perfume quando ela passou perto dele.
- Aquele sorriso foi pra você? - Benê perguntou.
- Não diretamente... respondeu o rapaz, realista. - Ela ficou só... sem graça. O panaca só não a deixou mais sem jeito porque a aura dela é brilhante!
- Modéstia pra que te quero...! - suspirou o tio.
   Marco apanhou a garrafa e tomou um grande gole, depois a colocou sobre o balcão e disse:
- Põe na conta do velho. Amanhã ele te paga. Tchau, Benê...
- Na conta do velho, é? Malandro! Se eu for depender do dinheiro do seu pai...

                  *******************************

   Marco morava no bairro de Santo Amaro, à Avenida João Dias, bem perto dali. O pai tinha uma imobiliária na Rua Adolpho Pinheiro e ele resolveu passar por lá, antes de ir para casa.
   Antônio Carlos Ramalho, 39 anos, corretor de imóveis, estava ao telefone, quando o filho chegou. Parecia nervoso, pois andava de um lado para o outro, gesticulando. Marco acenou para ele para se fazer notado e Antônio apenas mostrou o relógio, abanando a cabeça como a dizer não ter tempo para ele naquele momento. Marco fez um sinal de positivo com a mão e saiu pela porta de vidro pela qual mal havia entrado.
   Já em casa, minutos depois, foi para o quarto e jogou-se na cama, apanhando o telefone. Depois de um longo suspiro, começou a discar o número de Bete. Dois toques, atenderam.
- Alô! - respondeu a vozinha fina dela.
- Bete, sou eu... - ele começou a falar.
- Vá pro inferno! - ela gritou, desligando o aparelho em seguida.
   Ele resolveu insistir e ligou de novo. Ela voltou a atender.
- Bete, eu não tive culpa de nada. Eu não estava...
   A garota tornou a desligar e ele respirou fundo, fechando os olhos e batendo o telefone no gancho com força.
- Dane-se! Não quer? Tem quem queira! - gritou para o telefone. – Você vai ver só!
   Começou a tirar a roupa, zangado, e foi para o banheiro, enfiando-se num banho de chuveiro frio que durou meia hora. Enquanto se enxugava, veio à sua mente o rosto da garota do bar do tio. Ficou imaginando se iria vê-la de novo ou se era só mais um rosto bonito que viu e ia sumir de vista, como tantos outros.
- Marquinho! - ouviu o chamado da mãe, entrando em casa.
   Ele odiava quando ela o chamava assim, mas... mãe era sempre mãe, e os filhos são sempre pequenos, mesmo depois que crescem.
- Estou aqui, mãe!
- Aqui onde, baby?!
- No banheiro, Lady Laila! - ele esclareceu, rindo, parodiando Roberto Carlos.
   Silêncio, os passos dela no corredor e o toque na porta.
- Abre, filhote. Tenho novidades!
- Mãe, eu estou me enxugando ainda!
- Ora, tenha dó, meu filho. Eu já conheço você de cor e salteado. Abra! Quero mostrar uma coisa!
- Mas eu não quero mostrar nada, engraçadinha. Espera um pouco!
   Ele se enrolou na toalha e abriu a porta. Laila, uma mulher muito bonita, trinta e cinco anos, loira, cabelos curtos, entrou, já estendendo a mão esquerda para ele. O dedo indicador deixava reluzir um lindo anel de brilhantes ao lado da aliança.
- Olhe só o que eu ganhei do seu pai!
- Poxa, mãe, que lindo! - ele respondeu, segurando a mão dela e apreciando a jóia. - Mas o aniversário de casamento de vocês é em maio, o seu é em outubro...
- Descobri que seu pai tem um caso com a Hilda, ela disse, séria.
- Como é que é?! - ele espantou-se.
- Pois é. Ela mesma me contou. Aí, eu coloquei seu pai contra a parede e exigi o anel; se não, me separaria dele.
- Eu não acredito, Marco arriscou, desconfiado e morrendo de medo que aquilo fosse de verdade.
- No quê?
- Não acredito que o papai tivesse um dia pensado em simplesmente olhar pra outra mulher, com outros olhos que não fosse só de amigo e não acredito que você tivesse só aceitado um anel em vez de matá-lo, se isso for verdade.
   Ela ficou olhando para o filho por algum tempo, depois começou a rir e beijou seu rosto.
- Você confia mesmo no seu pai, não é?
- Você estava brincando, não estava?
- Estava, claro que estava. Hoje faz vinte anos que nós começamos a namorar.
- Poxa, que alívio! Não brinca assim de novo não, mãe!
- Você não acha que seu pai seria capaz de me trair um dia, não?
   Ele pensou por um momento e, com um sorriso maroto nos lábios, respondeu:
- Não com a Hilda. Ela é morena. O papai gosta de loiras.
    Laila quis estrangulá-lo, mas só arrancou sua toalha e saiu do banheiro.
- Homens! - exclamou.
   Marco ria enquanto arranjava um jeito de se esconder de alguma forma.
- Devolve a toalha, mãe! Minha roupa está no quarto!

                  *******************************

   Na manhã seguinte, no colégio, Marco encontrou Teo sentado na escadaria da entrada com mais dois amigos.
- Viram a Bete?
- Passou por aqui agorinha e entrou com a Lídia. Nem olhou pra gente. Ela parece estar furiosa com você, pobrezinha.
- Não enche, Teo. Eu não sei mais o que fazer pra agradar a Bete!
- Larga dela, cara! Parte pra outra. Essa menina tem um gênio dos diabos. Não sei como você aguentava!
- Eu gosto dela, é isso!
- Você gosta dela... Faça-me rir!
   Os três rapazes riram, Marco balançou a cabeça achando os amigos três idiotas.
- Engraçado demais...!
   O sinal tocou. Leandro e Rico levantaram-se.
- A gente vai nessa. Até mais, Teo. Tchau, Marco.
- Tchau, disseram os dois.
   Os dois afastaram-se e Teo levantou-se.
- Acho bom a gente entrar também, falou Teo.
- Escuta, você circula por aqui bem mais do que eu. Já conhece as caras novas que entraram no Paralelo esse ano?
- Caras novas?
- É, os caras e as garotas novatos aqui esse ano.
- Alguns... Por quê? Na nossa sala tem dois “cuecas” e três chatinhas novas. Tem mais um que eu sei que está na lista, mas não veio até ontem. Está viajando ainda, sei lá...
- Sem ser os da nossa sala.
- Deixa ver... No segundo ano... Ah, claro! No segundo! Segundo A.
- Que é que tem?
- Um cara que veio de Campinas.
- Teo, se liga, colega. Eu estou falando... de garotas. Garotas, entendeu?
- Mas você falou...
- Ah, meu Deus, ou você é muito lento ou ‘tá gozando da minha cara! Você acha que eu ia estar interessado em marmanjo, meu?!
- Sei lá! Vou lá saber do seu gosto...
   Marco respirou fundo e empurrou o amigo na escada. Entrou no colégio e Teo o seguiu, rindo e massageando o ombro, dolorido pela queda.
- Não precisa ficar nervosinho, Marcão. No segundo B tem uma.
   Marco nem se voltou e perguntou:
- Quem, a tua vó?
- Uma gata chamada Ana Maria, mas não é pro teu bico.
- Por quê? Eu não posso paquerar a tua vó?
- Ela é filha do diretor. Estudava em Poços de Caldas e se transferiu pra cá porque avó dela morreu e ela não tinha com quem ficar lá. E ela tem namorado... Foi a Lídia que me contou.
   Marco parou e voltou-se para ele.
- Namorado?
- É, o cara que faltou ontem na nossa sala. Os dois vieram de lá.
   Marco pensou por um instante e depois falou para si mesmo:
- Não, não deve ser...
- Não deve ser o quê, Marco?
- Nada, esquece.
   Estavam já próximos à porta da sala quando outro rapaz, vindo apressado do corredor, esbarrou em Marco, empurrando-o e entrou, sem ao menos se desculpar.
- Desculpe por ficar no seu caminho, falou Marco baixinho, depois que ele passou, espantado com a “delicadeza” do outro. - Educadinho, não?
- Muito... Esse deve se achar o cara! - observou Teo.
   Os dois entraram na sala. A aula já tinha começado e, enfrentando com caras inocentes a cara feia do professor Cassiano, de Matemática, que odiava atrasos, sentaram-se em seus lugares. Teo cutucou Marco e apontou para o que dizia ser o novato da classe. Era justamente o rapaz que tinha esbarrado em Marco na entrada e ele logo o reconheceu como o namorado da gatinha na lanchonete.
- Caramba! - falou em voz um pouco mais alta que o normal para o silêncio da sala.
   A classe toda se voltou para ele, inclusive Teo. O professor pediu silêncio apenas com um olhar e Marco encolheu-se na cadeira.
- Desculpa, Cassiano.
   Risinhos abafados foram ouvidos e a aula começou. Marco ficou a aula inteira e a próxima também observando o rapaz. Ele parecia não ter ainda amizades na sala, pois não conversava com ninguém. No intervalo, Teo perguntou:
- Quem é ele, cara?
- Espera aí, Marco pediu.
   Parou na porta da sala e esperou que o rapaz passasse por eles para depois observar bem seu rosto.
- É ele mesmo.
- Ele quem, bolas!
- Ele é o cara que eu vi ontem, discutindo no bar no Benê com uma garota.
- E...? Ele vai ganhar um Oscar por isso?
 - Não, mas que ela deve ganhar o prêmio Nobel pela paciência, isso deve. Esse cara é “um mala”, ou melhor, ele é a bagagem toda em cima dela.
- Não me diga que você está interessado na mina dele?
- Não... Não estou interessado... É que... eu fiquei com pena dela, só isso.
- Pena?
- É.
- Ficou com pena daqueles lindos olhos verdes, daquela carinha linda, daquele cabelo loiro maravilhoso...
- Você já viu ela?
- Marco Antonio, não foi você mesmo que disse que amava a Bete!?
- Não muda de assunto, você já viu a garota?
- Se eu sei que a mina é filha do diretor, veio de Poços de Caldas e é namorada daquele panaca, claro que eu vi, né? Mas o assunto aqui é o senhor. E a Bete, já é passado, é?
- Eu só me interessei pela garota porque ela estava passando pela mesma coisa que eu, lá na lanchonete. Eu tinha acabado de levar um fora da Bete e ela estava levando a maior bronca do brutamonte dela lá, no meio de um monte de gente, foi só...
- Sei... E daí? Você descobriu o que já sabia. Ela é namorada desse brutamonte que estuda com você, na mesma sala do colégio. Vai fazer o quê, agora?
- Nada... - disse Marco, dando de ombros. - Mas um dia a gente vai se cruzar de novo pelos corredores do colégio e... quem sabe possamos resolver juntos nossos problemas... amorosos.
   A expressão de Marco fez Teo rir gostoso. Foram rindo para a lanchonete. Marco acompanhava o namorado de sua misteriosa dama com os olhos, para analisar seu comportamento e quando Teo pediu dois refrigerantes no balcão da cantina, ele viu o novo colega de classe se encontrar com a namorada. Os dois trocaram um beijo e ele a pegou pela mão, puxando-a quase a força até um banco onde se sentaram.
- Que cavalo! - murmurou Marco para si mesmo.
- Que foi? - Teo perguntou, entregando a ele uma garrafa.
- Nada não...
   Lídia, namorada de Teo, aproximou-se dos dois e o beijou demoradamente na boca.
- Oi, gato!
- Oi, tudo bom, gata? Ah, Marco, eis aqui alguém que pode te contar tudo sobre o famoso Segundo Ano B.
- Se quer saber sobre a Bete, Marco, ela não quer te ver mais nem pintado.
- Eu já sei disso, Lídia. Ela teve a honra de desligar o telefone na minha cara duas vezes ontem. Mas eu também não quero mais saber dela.
- E o que tem no Segundo B que te interesse que não seja ela? Eu?
   Marco franziu as sobrancelhas como a dizer: “Tá maluca? Teu namorado está aqui do teu lado e é meu melhor amigo!” Mas como Teo levou na brincadeira e riu, abraçando a namorada pela cintura e lhe dando um beijo no rosto, disse:
- Não, claro que não. É... uma aluna nova da sua sala.
- Aluna nova? Quem? A Amanda?
- Amanda? - perguntou ele, olhando para Teo. – Você não falou que era Ana Maria, Teo?
- Ana Maria, Amanda, que diferença faz? Começa com A!
- Não tem nenhuma Ana Maria na minha sala, este ano. A única aluna nova esse ano é a Amanda, filha do diretor. Toda cheia de não-me-toques. Não fala com ninguém na sala. Nojenta!
- Opinião crítica sincera ou despeito, Lídia? - Marco perguntou.
- Despeito? Eu? Ela não tem nada a mais que eu.
   Marco sorriu irônico, imaginando justamente o contrário. Marco virou-se meio que para mudar de assunto e apontou para a garota apenas movendo o queixo.
- É aquela ali?
   Lídia virou-se também e confirmou.
- Ela mesma. Ela e o namorado. Ele está na sala de vocês, não é?
- Está... - suspirou Marco.
- E por que todo esse interesse, Marco? Você vai entrar numa fria dupla se se meter com ela, aliás, tripla! Primeiro, ela é a filhinha do diretor, e o Rotemberg é o carequinha mais geléia de jiló que eu já conheci; segundo, porque ela tem um namorado tão azedo quanto o pai; terceiro, porque a Bete vai matar você quando souber que você mal desmanchou com ela e já está de olho em outra que ainda por cima é colega de classe dela.
- Ela só vai saber se você contar, e quanto aos outros dois desafios... pra mim, quanto mais aventura, melhor.
   Lídia fez uma careta engraçada, balançou a cabeça e exclamou baixinho com ar de desdém:
- Homens... Todos iguais!
   Marco e Teo riram.

               *******************************

   Pelo resto da semana, Marco só viu Amanda no intervalo das aulas e ela estava sempre acompanhada do grudento namorado que com o tempo ele soube chamar Otávio. O rapaz realmente não se misturava e só fez amizade com dois ou três garotos que tinham mais ou menos o seu estilo: repetentes, metidos a valentões, justamente por não se encaixarem com o resto, por acharem que não seriam aceitos se tentassem se aproximar. E Otávio parecia querer manter Amanda longe do resto da escola. Pelo menos foi a essa conclusão que Marco chegou, pois sempre que a via com alguma outra menina da sala ou num grupo delas, Otávio aparecia e a separava delas, monopolizando sua atenção. Mas, ao contrário do que Lídia tinha falado, Amanda não parecia metida a superior, havia feito amizade com outras garotas e sorria muito sempre que estava entre elas. Sorriso que ficava menos iluminado quando Otávio chegava, sabe-se lá por quê.
   Marco não conseguia saber muita coisa sobre a garota porque Lídia havia se recusado a participar da investigação, por achar um ultraje à sensibilidade da amiga Bete. Ele então partiu para a pesquisa sozinho e passou a observar a moça sempre que tinha uma chance. Uma pesquisa solitária porque ela nem sabia que ele existia e ele tinha receio de se aproximar e assustá-la ou mesmo provocar a ira do namorado.
   Num sábado de manhã, ele passou na imobiliária do pai, ficou com ele por umas duas horas, ajudando no que podia, cansou e saiu novamente. Estava descendo a rampa que dava acesso à rua quando viu parado na outra calçada, um Fiat vermelho com a tampa do motor levantada e, junto dele, adivinhem, sua garota misteriosa tentando consertar alguma coisa nele.
   Marco parou, tirou os óculos escuros e sorriu ao reconhecê-la, feliz com a incrível e agradável coincidência.
   Era a sua Amanda. Ela estava com os cabelos soltos, diferente do resto da semana em que os tinha mantido presos num rabo de cavalo. Ele pulou o corrimão da rampa e resolveu finalmente investir, já que não havia Otávio por perto. Não podia ficar a vida inteira apenas olhando para ela de longe. Amor platônico não fazia seu estilo.
   O trânsito da Adolpho Pinheiro estava terrível, muitos carros e ônibus passavam por ali e, com o risco de ser atropelado uma ou duas vezes, chegou ao outro lado, mas ela já tinha resolvido seu problema, entrado no carro e ele só viu o veículo se afastar.
- Droga! - exclamou ele, irritado com a falta de sorte.
   Foi para casa decepcionado, chutando latas de raiva. Chegando em casa, entrou e bateu a porta com força. Da cozinha, a mãe estranhou o barulho e chamou:
- Marco Antônio, é você? Se for, quantas vezes eu já falei pra não descontar na porta o que não deu certo na rua, hein?!
- Mil e duas, mãe! - gritou ele, de volta.
- Tudo bem, bebê? - disse ela, já sabendo que algo ia mal.
- Mãe, eu não sou mais um bebê! Dezoito anos, lembra!
- Dezessete, amor! Dezoito, só em junho!
   Ele fez uma careta, imitando o jeito de falar da mãe e foi para o quarto. Arrancou a jaqueta e a jogou na cama, depois ligou o estéreo numa estação de rádio FM qualquer, não gostou da música que tocava e girou o “dial”, procurando coisa melhor, mas nada lhe agradava. Resolveu então colocar um disco e pôs-se a procurar algo que combinasse com seu estado de espírito. Apanhou uma coletânea de sucessos antigos, colocou no aparelho, tirou o tênis e deitou-se na cama, de costas, cruzando as mãos na nuca. A primeira canção era “Mandy”, de Barry Manilow.
    O rosto de Amanda em sua mente e fundiu-se com o som da canção. Ele fechou os olhos. Começou a cantar baixinho e percebeu que o nome da canção tinha tudo a ver com o nome dela. Mandy era o diminutivo de Amanda em inglês.
- Amanda... Mandy... Incrível! - murmurou, sorrindo.
   O gato branco de estimação da casa, e mais particularmente de Marco, entrou no quarto em seu passo lento e preguiçoso, subiu na cama e foi deitar-se junto do peito dele. Marco o sentiu e enterrou a mão em seu pêlo macio. Perguntou, ainda de olhos fechados:
- Diz aí, Sherlock, você já conheceu alguma gata chamada Amanda?... Eu já, mas nunca ouvi ela miar, ou melhor... falar. Preciso ouvir a voz dela, Sher. Preciso muito!
- Falando sozinho, meu bem? - perguntou Laila, de pé na porta do quarto já a algum tempo.
   Marco ergueu-se um pouco na cama e apoiou o corpo no braço.
- Não... com... o Sherlock, mãe. Oi!
- Quem é Amanda?
- Ah, é... a gata de uma colega da minha sala. Eu estava pensando em... trazer pra namorar o Sher.
- O Sherlock é castrado, filho, esqueceu? - disse ela, saindo do quarto em seguida. – O almoço já está pronto, vem logo.
   Marco olhou para o gato e sorriu, depois respirou fundo e deitou-se novamente, suspirando:
- Mas eu não sou... Ainda bem. Que barra, hein, amigão?

                      *******************************

      No café da manhã, no domingo, Antônio perguntou, enquanto lia o jornal:
- É verdade que você brigou com a Bete, filho?
   Marco olhou para o pai surpreso e quase se engasgou com a fatia de pão com geléia que comia.
- Ela brigou comigo, pai, mas... como é que você sabe disso?
- Ciúme bobo, como das outras vezes? - Antônio perguntou, ignorando a pergunta dele, tomando um gole de café.
- É, o de sempre. Ela não confia em mim.
- O que você fez dessa vez?
- Isso... é assunto meu, pai. Pode deixar que eu resolvo.
- Hum... - resmungou Antônio, limpando os lábios com o guardanapo. - Mas o pai dela esteve na imobiliária, ontem. Sabia que estávamos para vender uma casa pra ele na Chácara Flora?
- E daí? Eu vou ter que rastejar pra Bete pra você poder fazer negócio, é? Tire o cavalinho da chuva, pai. Me inclua fora dessa.
- É um negócio de milhões, disse Antonio só para testá-lo.
- A Bete não anda dando nenhum centavo por mim e nem eu por ela na cotação atual. Não pega no meu pé. Eu já tentei ligar pra ela pra pedir desculpas por uma coisa que eu nem sei que fiz e ela bateu o telefone no meu nariz duas vezes. Não quero mais saber. Estou em outra.
- Que outra? - perguntou Laila, com um sorrisinho. - A Amanda?
- Não, mãe. Esquece isso. Estou em outra é só forma de expressão. Não quero mais saber da Bete. Página virada.
   Ele levantou-se, beijou a mãe e foi para a porta.
- Aonde você vai? - perguntou Antônio.
- Dar um giro de bicicleta pelo clube. Volto só pro almoço.
- Antes de uma hora, hein? - Laila acentuou.
- Sim, majestade! - falou o rapaz, com uma reverência, saindo em seguida.

   Ele apanhou a bicicleta e entrou no trânsito da rua. Andar de bicicleta era um costume que ele tinha desde pequeno. Como era filho único e não tinha sido acostumado com crianças em casa, costumava fazer isso por puro prazer e, às vezes, para pensar ou se acalmar quando alguma coisa não ia bem. Mesmo no meio do trânsito louco, ele conseguia resultados fantásticos.
   Já junto ao muro do clube que ficava a poucas quadras de sua casa, ele se misturou às dezenas de jovens e adultos que aproveitavam o domingo de sol para correr por ali, o que dava uma gostosa sensação de não estar sozinho e, ao mesmo tempo, não tinha ninguém para aborrecer.
   Estava absorto na sensação deliciosa que era sentir o vento bater no rosto pela velocidade da bicicleta quando viu, de não muito longe, uma garota abaixar-se para amarrar o cadarço do tênis. Os cabelos loiros encobriam seu rosto e Marco sentiu a sensação de já tê-los visto antes. Conhecia aqueles cabelos. Passou pedalando muito perto dela, mas não conseguiu ver seu rosto. Desistiu e foi embora.
   Foi Amanda, a dona dos cabelos, que, ao sentir as rodas da bicicleta passarem tão perto, levantou o rosto e o reconheceu, mesmo de costas, mas ele já estava longe. Ela ergueu-se e, curiosa, resolveu correr na mesma direção em que ele tinha ido e, mais adiante, Marco olhou para trás e a viu. Diminuiu a velocidade e deu a volta. Amanda continuou correndo normalmente e ele passou por ela lentamente, olhando bem seu rosto, mas ela fingiu ignorá-lo. Marco parou a bicicleta e sorriu, olhando-a se afastar, sumindo no meio das pessoas. Pensou:
- Mandy... Coincidência...? Isso não existe...
   Subiu novamente na bicicleta e a seguiu. Já estava quase perto dela, quando viu um carro parado, e, encostado nele, nada mais nada menos que Otávio, esperando por ela. Marco parou. Viu quando Amanda se aproximou do rapaz e os dois trocaram um beijo; depois, ela entrou no carro, Otávio também e foram embora.
- Eu não acredito... - ele falou baixinho, aborrecido.
   Por pura teimosia, começou a seguir o carro de longe, fazendo o possível para não ser notado, já que ambos já o tinham visto na escola. Não tinha rodado ainda cinco quadras quando o carro parou no meio fio. Marco parou também, a poucos metros dele, e percebeu que os dois discutiam dentro do veículo, pois Otávio gesticulava muito. De repente, Amanda abriu a porta e saiu do carro, dizendo com voz alterada:
- Pra mim chega! Cansei, Otávio! Não tenho mais paciência!
   Ela começou a andar rápido pela calçada. Otávio saiu também do carro e gritou:
- Amanda! Volta aqui, garota! Amanda!
   Marco balançou a cabeça e riu discretamente do vexame que o colega de classe estava dando no meio da rua. Bufando de raiva, Otávio entrou novamente no carro, deu a volta no meio da avenida que, felizmente estava vazia por ser domingo, e foi embora na direção oposta, queimando pneus. Marco não perdeu tempo. Seguiu a moça e a alcançou mais adiante. Amanda chorava enquanto corria. Ele emparelhou com ela e perguntou:
- Está tudo bem? Posso ajudar?
- Não! - ela respondeu, sem olhar para ele e sem parar de correr, com as lágrimas rolando no rosto.
- Você vai pra casa a pé?
- Eu moro aqui perto...
- Quer uma carona de bicicleta? Você não está legal.
- Não, quero correr. Estou querendo mais é sumir e correr me acalma. Obrigada.
- Posso ficar do seu lado, então? Só pra prevenir...
   Ela parou, pretendendo despachar o enxerido com mais energia e, só então, prestou atenção nele, reconhecendo-o. O rosto molhado quase deixou escapar um sorriso.
- Acho melhor, não. Não quero falar com ninguém... desculpa.
- Eu não falo nada. Só quero... estar perto de você... se precisar...
   Ela pareceu ficar aflita entre ficar e ir embora dali correndo. As lágrimas não paravam de rolar. Um táxi vinha se aproximando e ela acenou para ele. O carro parou e ela disse:
- Desculpe, mas eu não estou legal mesmo. Tchau...
   Entrou no carro e foi embora. Marco não chegou a se sentir derrotado. Pelo menos tinha falado com ela. Ouvido sua voz que era doce como seu rosto. Tinha valido a pena ir até tão longe de casa. Passava das duas quando chegou em casa e acabou almoçando o prato que a mãe tinha deixado na geladeira, esquentado no microondas. Mas a comida parecia ter sido feita naquela hora. Estava quente e gostosa como nunca.

                  *******************************
   Mais tarde, estava entediado em seu quarto e resolveu ir ao cinema. Pensou em chamar Teo para ir junto e apanhou o telefone, ligando para o amigo.
- Não vai dar, meu. Vou jogar pôquer com a irmã da Lídia, na casa dela. Sabe como é. Fazer uma mediazinha com a cunhadinha...
- Que belo programa... - ironizou Marco.
- Vai assistir televisão.
- Tenha dó, Teo!
- Um livrinho, ia bem, não?
- Não estou a fim de ficar em casa, cara!
- Então sai sozinho, pombas!
- Sair sozinho é um saco!
- Bem que eu te falei que ter uma namorada só, dava galho. Está vendo? Briga com uma e não tem outra de estepe pra ajudar nessas horas.
- Quem te ouve falar diz que você tem cinco ou seis, ha, ha. Só anda agarrado na saia da Lídia.
- Não baixa o nível, parceiro. A Lídia é só a matriz. Eu nunca ficaria na pior como você, mentiu Teo.
   Na verdade, ele também só tinha uma.
- Não estou tão na pior assim, defendeu-se Marco. – Vi a Amanda hoje.
- Que Amanda? - perguntou Teo, fazendo-se de desentendido.
- A Amanda, cara! Amanda Rotemberg, filha do diretor da escola!
- Ah! A Amanda do Otávio!
- Não é mais do Otávio, se é que um dia foi.
- Não? Você matou ele?
- Não, cara. Vira essa boca pra lá! Cruz credo! - disse Marco batendo no criado mudo ao lado da cama, três vezes. - Eles brigaram, hoje.
- Como é que você sabe? Você viu?
- Vi, lá no clube.
- Por sua causa?
- Quem dera fosse. Ainda não estou com essa bola toda, não. Não sei por que foi, mas eu a vi saindo do carro dele furiosa e chorando. A coisa foi briga de sabre de luz no escuro.
- Você sabe que isso não fez muito sentido, não sabe? - Teo perguntou fazendo uma careta.
- É... sei... mas isso não vem ao caso. Só sei que euzinho faleizinho com elazinha.
- Brincou! Você desencantou? - admirou-se Teo, ajeitando-se no sofá.
- Pois é, mas ela estava muito nervosa, não deu pra falar muito. Mas acho que ela me reconheceu, pediu até desculpas pelo nervosismo. Acho que ela não ia me pedir desculpas, se eu fosse qualquer um. Você precisa ver que olho lindo verde que ela tem, cara! Chorando, então... Ela é um sonho!
- Ih, meu, acho que você dançou!
- Queria sair com ela, saber como ela está... - sonhou Marco em voz alta.
- Liga pra ela, então! Rotemberg é um nome raro. Vai ser fácil achar o nome do diretor na lista.
- E dizer o quê, se ele atender? “Senhor, aqui é um dos alunos da sua escola, querendo levar sua filha ao cinema no lugar do panaca do Otávio?” Ele vai me mandar pra onde o Otávio deve estar agora.
  - Ligue, se ele atender, você desliga. Se ela atender, você mete bronca.
   Marco pensou e não achou má a ideia.
- Teo, de vez em quando você pensa, sabia? Gostei de ouvir.
- Me deve esta. Tchau, te vejo amanhã, naquele saco de escola e aí você me conta no que deu sua paquera telefônica.
- Tá ok, tchau. Bom jogo!
   Marco colocou o telefone na base e olhou para a lista telefônica debaixo do criado mudo, ao lado da cama. Apanhou-a e folheou até encontrar a letra R. O dedo começou a deslizar pelas palavras.
- Rocha... Ronconi... Ruiz... Não, antes... Rosseti, Rott... Aqui! Rottella... Rotelli... Rotemberg! Achei! Nossa, tem Rotenberg com N também. José Rotemberg! Ilustríssimo diretor do Colégio Paralelo. Angra dos Reis... Puxa! Como eu não pensei nisso? Ela mora na Angra dos Reis, Chácara Flora! Tão pertinho! Marco, você descobriu a mina! Telefone... 2347... É isso aí.
   Apanhou o telefone, deitou na cama de bruços e teclou. Um chamado, dois, no terceiro, atenderam e a voz de um homem respondeu do outro lado:
- Alô!
   Marco desligou rapidamente, com o coração aos pulos. Esperou alguns segundos e ligou de novo. Um toque, dois e novamente atenderam, a mesma voz.
- Alô.
   Marco desligou outra vez.
- Droga! - exclamou, depositando o telefone sobre o criado.  Colocou as mãos no rosto e apertando os olhos de nervosismo. Levantou-se e foi até a cozinha, bebeu um copo de água e voltou com outro na mão para o quarto. Olhou para o telefone e sentou-se na cama. Bebeu um gole de água e apanhou novamente o aparelho. Tamborilou os dedos sobre ele, respirou fundo e teclou novamente bem devagar. Após o último número, fechou os olhos para esperar os toques. Um... dois...
- Escuta, Otávio, se é você, ela não está! Saiu com duas amigas, foram ao cinema. Desista, sim? A Amanda não está.
   A voz do diretor não era de alguém zangado, mas decidido. Marco não chegou a se apavorar, mas chegou até a ficar tranquilo, pois tinha uma dica de que a garota não estava mesmo em casa.
 - Foi ao cinema... Mas que cinema? Há milhares de cinemas em São Paulo!
   Como sabia que seria no mínimo impossível descobrir em que cinema Amanda estaria com as amigas, ele saiu e resolveu ir ao que costumava frequentar sempre: o Chaplin.
   A fila estava enorme. Era a primeira vez, em muito tempo, que ele ia ao cinema sozinho. Olhou para o cartaz do filme e não gostou. Filme brasileiro com Miriam Rios. Não fez sua cabeça. O cine Del Rey não ficava tão longe e ele resolveu arriscar. A fila não estava menor, mas o filme agradou mais. Demorou, mas conseguiu comprar seu ingresso solitário, também pela primeira vez. Pediu, pagou e foi para a escada que levava à sala de projeção com todas as outras pessoas, mas, ao olhar para trás, viu, na fila, o rosto que mais frequentava seus pensamentos ultimamente: Amanda. Ela o viu também e seus olhares se encontraram. Havia muita gente passando e foi difícil não perdê-la no meio de todos os outros rostos. Ao chegar ao alto da escada, ele parou e ficou esperando por ela. Quando Amanda se aproximou com as duas amigas, apenas sorriu para ele e, sem tempo de falar nada, foi puxada pela mão por uma delas, apressada para ver o filme. Perderam-se novamente, quando entraram na sala de projeção já às escuras.
   Marco não conseguiu prestar atenção a nada do filme. Seus olhos, já acostumados com a escuridão do ambiente, vasculhavam a multidão de olhos pregados na tela, a procura dela, mas não conseguiu achá-la. Até Madeleine Stowe perdeu o encanto no filme. Marco queria mesmo era ver Amanda.
   Quando a luz se acendeu novamente, ele se levantou e percorreu todo o recinto com os olhos. Foi só aí que a viu, já saindo na porta da esquerda. Apressou-se em passar por todo mundo, empurrando uns, esbarrando em outros, pisando no pé de alguns e indo então alcançá-la já fora do cinema. Chamou:
- Amanda!
   Ela voltou-se ao ouvir seu nome e parou. Ele aproximou-se dela, ofegante, e disse, sorrindo:
- Oi!
   Sorrindo também ela retribuiu:
- Oi!
   Mas as colegas estavam com pressa:
- Vamos logo, Amanda! Já está ficando tarde.
- Eu posso levar vocês para casa, ele convidou. – Estou de carro.
- E quem é você? - perguntou a outra desconfiada.
- É um colega do colégio, respondeu Amanda. – Está tudo bem.
- Vocês não querem tomar alguma coisa, antes de ir? Depois eu levo vocês.
- Sinto muito, mas não vai dar - Amanda respondeu. – Já são sete e meia e meu pai espera a gente antes das oito. Estamos de carro também.
- Mas não vai tomar nem vinte minutos. A gente toma alguma coisa e vai. Daqui até sua casa é bem pertinho.
- Como você sabe onde é minha casa?
   Marco ficou sem saber o que dizer.
- É... que... bom, você é filha do diretor do Paralelo, não é?
- Sou...
- Pois é, ele... Eu descobri por acaso o endereço dele... pela lista telefônica.
   Amanda sorriu, entendendo tudo.
- Vamos logo, Amanda! Está ficando tarde! - insistiu a garota.
- Eu sinto muito, mas não vai dar mesmo. Um outro dia, talvez... - ela disse, tão decepcionada quanto ele, mas não podia deixar as colegas sozinhas, afinal, tinha vindo com elas.
   Ele colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e respirou fundo, tendo de concordar.
- Tudo bem.
- Tchau.
- Tchau...
   Ela deu as costas e afastou-se com as amigas. Virava para trás de vez em quando para olhar para ele e Marco sentia o coração pular de alegria no peito a cada olhar dela. Voltou para casa nas nuvens e logo que entrou na sala, onde os pais assistiam televisão sentados juntos, no sofá, cumprimentou os dois. Antônio estava deitado no colo de Laila.
- Boa noite, mãe! - disse, animado, beijando a mãe longa e estaladamente.
- Meu Deus, filhote! O que foi que houve? Viu passarinho verde?
- Dois, mãe. E lindos! Estou feliz.
- E pode-se saber por quê? - Antônio perguntou. - Pelo que sei, você saiu azedo.
- Pode-se sim, pai. Convidei a garota mais linda do colégio pra tomar um refrigerante.
- E...?
- E ela não aceitou... mas do jeito que ela disse não... Ah, pai... eu tenho certeza de que você nunca levou um “não” daquele.
   Laila e Antônio se olharam sem entender nada. Marco seguiu voando para o quarto e correu a colocar a canção de Barry Manilow no aparelho de som. Agarrou o gato que estava em sua cama, tranquilamente dormindo e falou:
- Sherlock, você não sabe como é bom amar!...
   E lhe deu um beijo no meio da testa.

   Pouco mais tarde, em seu quarto, Amanda também pensava no rapaz que já invadia sua vida há uma semana. Sem querer, sem combinar, ele estava sempre perto dela, desde a primeira vez que o vira no barzinho-lanchonete do Benê. E ela nem sabia seu nome... Só sabia que ele era lindo, educado, gentil. Diferente do jeito ultimamente grosseiro do Otávio, com que até já tinha se acostumado a conviver, ou de todos que já tinha conhecido. Marco tinha um rosto saudável e feliz de quem nunca faria ninguém infeliz. Os olhos brilhantes de quem nunca tinha deixado de sorrir. E a voz gostosa de quem estava sempre pronto a dizer palavras de carinho. Ela deitou-se a apagou a luz do abajur e fechou os olhos. Ela o via melhor em sua mente com os olhos fechados. Mal via a hora de estar novamente na escola.

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Velucy
Enviado por Velucy em 15/05/2017
Reeditado em 13/08/2017
Código do texto: T5999921
Classificação de conteúdo: seguro

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