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RODA VIVA - XV Capítulo do romance
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Uma “roda viva” foi exatamente o que se transformou a vida de Osmar neste momento da história. Essa expressão popular descreve muito bem, neste capítulo, a preocupação do rapaz com vários problemas ao mesmo tempo, sem tempo para descanso e angustiado com os negócios. São contratempos e interesses diversos que nasceram junto com o maior sentimento do mundo: o amor.

Após aqueles momentos maravilhosos, inaugurando em grande estilo o seu novo "cantinho" naquela sexta-feira do dia 14 de novembro de 1977, Osmar ainda com a moça em seus braços, sugeriu algumas providências à sua adorada amante, além de colocá-la ciente das mudanças que estavam prestes a acontecer na sua vida profissional:
- A partir da semana que vem, - disse ele - precisamos fazer algumas compras. O imóvel está pronto e devidamente equipado para morar, mas faltam coisas básicas para o nosso dia-a-dia. Faça uma relação de itens para a cozinha, banheiro, cama e mesa, além de produtos de limpeza e mantimentos. Vou lhe ajudar com isso, para gastarmos apenas o necessário e sem desperdícios. Comprar somente o essencial para esse primeiro momento de acomodação ainda não definitiva.

- Que bom! Já tenho algo para me distrair nesse final de semana.
Ironizou Leny. E prosseguiu em tom de brincadeira: - E quando a gente muda de vez?

- Ainda não é para agora. Devolveu Osmar com um sorriso nos lábios, entendendo a indireta da garota. E determinou: - Prefiro aguardar o nascimento da nossa criança. Até lá, não quero que você se separe da sua mãe. Ela já avisou querer cuidar de você nesse período e acho isso muito bom. Ninguém tomará conta de você melhor do que ela.

- Também quero, porque ela é o meu maior amparo. Sei que posso contar com o seu apoio e proteção. Concordou Leny, continuando: - Mas até lá...

- Até lá, minha querida, aqui será o nosso ninho.
Interrompeu Osmar, completando: - Sempre que possível, passaremos dias e noites aqui.

- Só espero que esse "possível" se realize sempre e não uma vez ou outra.
Rebateu a moça sem pestanejar, completando: - Seria tudo o que eu quero na vida!

- Vamos dar tempo ao tempo e deixar a minha situação permitir. Amenizou Osmar, quase implorando: - Tenha um pouco de paciência e compreensão que você estará me ajudando muito nessa complicada situação.

- Entendi Osmar. Apesar de não ser nada garantido, já estou me acostumando com este "papel da outra".
Reclamou Leny, voltando a se lamentar: - Afinal de contas, eu já sabia da sua vida de casado, antes da gente se envolver. E você sabe muito bem como eu lutei contra isso, como fiquei dividida, indecisa e sem ação. Mas...

- Mas... O seu coração bateu mais forte. E o meu também, querida. Interrompeu Osmar, completando: - O amor é cego, inconsequente e imprevisível. Ele não enxerga o rosto da pessoa amada e chega de repente sem avisar, derrubando barreiras mesmo contra tudo e contra todos. E é por isso e por causa dele, que estamos aqui agora. Aqui, aonde há pouco, provamos como ele é forte e prazeroso.

Leny sentiu-se recompensada com essa declaração do amante, abraçando-o e beijando-o calorosamente mais uma vez. Osmar retribuiu com carinhos os afagos da moça, levantou-se e determinou: - Agora que você já foi apresentada ao seu apartamento e presenteou-me com momentos maravilhosos, vamos até a sua casa contar a novidade para os seus pais. Quero que eles saibam que eu cumpri com a minha palavra. E quero que eles saibam também, o que vai provocar as mudanças na minha vida profissional.

- Que mudanças são essas, Osmar? Já sei que vem bomba por aí! Preocupou-se Leny.

- Vou contar pra você na presença dos seus pais, até para que não venha a saber do assunto através de outras pessoas. Ninguém no trabalho está ciente e você merece ser a primeira a ter ciência das novidades. Rebateu Osmar deixando a moça ainda mais curiosa.

- Ih! Não estou gostando nada disso... Emburrou-se Leny entrando no carro.

Osmar já vinha frequentando a casa de Leny algumas vezes, após a autorização de João. Não eram visitas programadas com dias e horários marcados, mas chegaram a acontecer quando Osmar deixava a moça em casa após as aulas ou depois de alguns encontros a dois. Eram frequências muito intercaladas, ocasionadas até pelas brigas e desentendimentos entre os dois, mas que deixavam João bastante nervoso e incomodado.

O pai da moça nunca concordou com aquele envolvimento da filha e demonstrava isso para o rapaz sempre que possível. A pouca receptividade nas visitas de Osmar e as suas constantes cobranças para que ele regularizasse aquele relacionamento, deixavam o rapaz bastante inquieto e sem respostas para suas perguntas. Resposta que ele pretendia dar agora para João, com a notícia e o endereço daquele apartamento todo mobiliado e pronto para morar com a sua filha.


Apesar das restrições sempre demonstradas por João, Osmar entendia os cuidados daquele pai com a sua filha. Ele também era um pai afetuoso e compreendia perfeitamente as inquietudes daquele homem sofrido pelas contingências da vida. Um homem que nunca deixou de proteger a sua família, dando o melhor de si para os seus filhos. Ele viveu muito para isso sem desistir dos dias e horários estafantes no trabalho e queria que o seu esforço fosse recompensado com o bom encaminhamento dos filhos. Mas, agora, encontrava-se cabisbaixo, triste, irascível e sem forças para impedir que sua filha se tornasse a mãe solteira que estava para acontecer. A barriga da moça já estava volumosa e ele até se acostumou com isso, mas o que João sempre exigiu de Leny, não iria ocorrer: "Que ela só sairia de casa devidamente casada e com papel passado".

Osmar e Leny adentraram à casa da moça com uma "pizza calabresa" e refrigerantes para o lanche da noite. Leny correu para beijar seus pais e com muita alegria mostrou o presente que acabara de receber, anunciando para os dois:
- Aqui está meu pai, o molho de chaves do apartamento que acabamos de alugar. Está todo mobiliado e pronto para morar. Estou muito feliz e quero compartilhar esta alegria com vocês.

- Mas você não pode se mudar agora, não é mesmo? Rebateu Valdívia preocupada e completando: - Não vou deixar você sozinha nesse estado.

- Nós já conversamos sobre isso D. Valdívia. A Leny permanecerá aqui até o nascimento da criança.
Rebateu Osmar, emendando: - Depois a gente resolve a nossa mudança.

- Só espero que esse tempo não demore muito para você legalizar essa união com a minha filha!
Interferiu João de maneira incisiva.


- Pai, já conversamos sobre isso. Não há necessidade de pressionar o Osmar, porque eu confio muito nele. Não estrague a minha felicidade neste momento. Interrompeu e implorou Leny.

- Eu estou agindo pra isso seu João. Mas são situações complicadas que envolvem outras pessoas. Rebateu Osmar, continuando: - Entenda, tenha paciência e ajude-me a fazer da sua filha uma mulher muito feliz.

- Felicidade que ainda não é a minha e nem da Valdívia. Só vamos ficar felizes quando vocês dois estiverem morando juntos como uma família que se preza. Rebateu João ainda bastante irritado.

- As coisas vão se resolver, porque eu amo a sua filha e eu a quero para mim. Sentenciou Osmar, completando: - E tanto isso é verdade, que estou aqui também para comunicar uma mudança importante na minha vida profissional, que foi planejada pensando muito nela.

- Ah! É agora que você vai soltar aquela bomba Osmar? Que segredo é esse?
Preocupou-se Leny.

- Vocês estão sendo os primeiros a saber da novidade. Estou deixando o emprego e indo para outro. Já pedi demissão há duas semanas e estarei liberado a partir do próximo dia 3 de novembro. Anunciou Osmar.

- O que é isso Osmar? Você ficou maluco? Abandonar um emprego desses numa hora dessas? Devolveu Leny, estranhando a surpresa.

- Exatamente meu amor. Na próxima segunda-feira apenas o nosso gerente será comunicado e, logicamente, todos os outros. Você foi a primeira a saber da novidade para não levar um susto. Completou Osmar.

- Mas assustada eu já estou! Que notícia horrível! Ficar sem lhe ver no nosso dia-a-dia no trabalho será um castigo... Lamentou-se Leny.

- Calma Leny! Deixe o rapaz terminar, porque eu acho que ele sabe o que está fazendo. Apaziguou Valdívia.

- Ainda mais com essa responsabilidade em dobro, para sustentar duas famílias. Provocou João, sem perder tempo com o seu sarcasmo.

- Aceitei uma excelente proposta em termos financeiros para conhecer outro ramo de negócio que vai dar uma guinada na minha carreira. Vou começar no próximo dia 7 de novembro e estou muito animado e confiante. Continuou Osmar com otimismo.

- Que emprego é esse meu amor? Porque não me falou antes? Questionou Leny.

- É uma siderúrgica de Minas Gerais, a Acesita, sediada no município de Timóteo. Esclareceu Osmar.

- Caramba! Já vai você pra fora do Rio de Janeiro. Que droga! Exasperou-se Leny.

- É por isso que preferi contar tudo na presença dos seus pais. Mas fique tranquila. A empresa é de Minas Gerais, mas o meu trabalho será aqui no seu escritório de representação. Estarei no Rio de Janeiro até acabarem as minhas aulas e depois vou ter que completar um estágio direto de 30 dias em Timóteo, sem interrupção. Continuou Osmar.


- Nossa! Já vi que só vou lhe ver em janeiro e que você vai sumir nas festas de final de ano. Preocupou-se Leny.

- Vá se acostumando com isso minha filha. Para finais de semana e festas importantes ele fará outro caminho. Ironizou João.

Osmar calou-se encarando o pai da moça e, com os olhos nos olhos, rebateu com impaciência: - Talvez, se eu fosse um homem que quisesse apenas aproveitar de alguns momentos com a sua filha, sem qualquer sentimento amoroso por ela, eu não estivesse escutando essas coisas. Mas não é isso que eu quero e estou demonstrando toda a preocupação e cuidados com ela. Estou aqui em respeito a ela e principalmente a vocês que são o que de mais importante existe na vida de Leny. Mas, embora não possa exigir nada do senhor, seu João, agradeceria muito que entendesse e aceitasse o meu comportamento gentil e educado. Um comportamento de homem que não foge de suas responsabilidades e não abandona seus objetivos.

- Então vamos esquecer isso aqui e diga-me qual a responsabilidade que você tem com a sua família? Com a sua mulher e suas filhas? Diga-me se é justa essa situação com relação à sua esposa. Sim, à sua verdadeira esposa com papel passado. A mulher que realmente é casada com você. Faça-me o favor rapaz! Irritou-se mais uma vez João.

O constrangimento foi geral. Valdívia ficou passada com as palavras do marido, Leny não suportou a cobrança do pai ao tentar confortar o amante mostrando cumplicidade e Osmar levantou-se para ir embora após ficar em silêncio e sem resposta. Leny levantou-se e Valdívia tentou interromper a saída do rapaz., mas não adiantou ao desculpar-se: - Lamento muito seu João, mas entendo a sua reação quanto a isso tudo. Agradeço a paciência e a compreensão até aqui, mas não estou me sentindo à vontade diante de vocês. Boa noite para todos.

Leny, chorando, correu e se jogou aos braços de Osmar no seu caminhar para fora, não sem antes ouvir de seu pai dirigir-se ao rapaz: - Quem não está à vontade com a sua presença sou eu! Não sou obrigado a ouvir essas promessas sem sentido prático, toda vez que você vem aqui. E nem precisa voltar enquanto você não resolver essa situação vergonhosa com a minha filha!

Osmar não respondeu e deixou-se acompanhar por Leny aos prantos até o carro. A moça ficou constrangida com a atitude e grosseria do seu pai e tentou amenizar a situação desconfortável do rapaz: - Não ligue para o que o meu pai falou querido. Ele anda muito nervoso com seus problemas de saúde.

- Que nada Leny! Ele foi muito claro! Quase me expulsou da sua casa! Nunca fui tão destratado assim! Rebateu Osmar com indignação.

- Mas releve tudo isso por mim, meu amor. Estou tão aborrecida quanto você. Implorou Leny.

- Vamos deixar essa conversa para depois. Estou com a cabeça quente e não quero magoar ninguém com palavras fora de hora. Recuou Osmar.

- Não vá embora agora amor, fique um pouco aqui comigo. Estou muito triste. Implorou Leny.

- Desculpa-me Leny, mas no momento, preciso ir pra longe daqui. Depois a gente se fala. Devolveu Osmar com determinação.

Osmar beijou o rosto da moça em tom de despedida, adentrou no carro e partiu. A moça retornou a casa e subiu correndo as escadas para o seu quarto. Ainda com lágrimas nos olhos, não quis se intrometer na discussão que estava ocorrendo entre os seus pais. Valdívia estava revoltada com a reação do marido que, por sua vez, não aceitava de jeito nenhum as suas ponderações: - Se você está com pena dele, - dizia João com impaciência - vá embora com eles. Vá morar com a concubina da sua filha e com um genro que só vai aparecer de vez em quando.

Valdívia calou-se e foi confortar a sua filha no quarto. Apesar de não ser esse o relacionamento desejado para Leny, Valdívia era uma mulher equilibrada e bem diferente do gênio estourado do seu marido. Por sua trajetória religiosa e confiante nos desígnios do Senhor, ela sempre conseguia harmonizar as coisas a seu modo. Mas, desta vez, estava muito difícil. Não pelo seu marido que sempre lhe ouvia nas calmarias, mas com relação a Osmar que ela pouco conhecia e que não sabia até que ponto ele levaria aquela humilhação.

O clima na casa da moça ficou insuportável, com Valdívia fazendo de tudo para acalmar os ânimos de Leny e João. A moça, logo depois, voltou do quarto e, mais uma vez, reagiu e enfrentou o pai com as mesmas palavras: - Sou adulta, independente e dona do meu nariz. Não sou mais aquela menininha que você pegava no colo, levava para o parque, para o sorvete na praça e para dizer sim para tudo que você mandava. Hoje eu sou uma mulher que vai ser mãe daqui a alguns meses e quero dirigir a minha vida. Não gostei da maneira que você tratou o Osmar e quero lhe dizer que isso também me atingiu.

- Se houve alguém atingido aqui fui eu, com a sua inconsequência, com essa vergonha que nos trouxe ao criar uma barriga fora do casamento. Rebateu João, ainda indignado.

- Parem com isso! Chega! Leny suba para o seu quarto! Já! Gritou Valdívia com determinação.

Enquanto a sua "roda viva" provocava toda aquela confusão na casa da amante, Osmar não conseguia concatenar suas ideias dirigindo o seu carro na volta para casa. "Que dia!", pensava ele. E continuava com a sua mente tão veloz como a velocidade da luz: "Como pode as coisas mudar tão de repente de uma hora para outra?" "Fiz de tudo para agradar Leny e recebo essas pedradas do seu pai?" "Investi e me comprometi com aquele imóvel para quê?" "Pra mim chega!" "Tenho que repensar e dar outro caminho à minha vida." "Yolanda e as crianças não merecem isso." "Ah! Meu Deus, se arrependimento matasse..."

Osmar chegou em casa e as crianças já estavam dormindo a sono solto. Yolanda, como sempre aguardando a sua chegada, sentiu que o marido não estava bem, quando ele chegou com ares de preocupação e sem beijá-la como de costume: - Tudo bem Osmar? O que houve com você? Preocupou-se Yolanda, já acionando o outro giro na "roda viva" do rapaz.

- Estou cheio de coisas pra resolver. São muitos problemas acontecendo ao mesmo tempo e não sei se vou dar conta pra tudo. Lamentou-se Osmar.

- Tenha calma meu amor, que tudo se resolve. Sempre estarei pronta para ajudá-lo. Amenizou a mulher.

- Estou mudando de emprego que vai me afastar por trinta dias, provas finais na faculdade e a sua gravidez que já vai para seis meses. É muita preocupação para a minha cabeça nesse final de ano. Continuou Osmar não se esquecendo da sua situação conflituosa que acabara de ter com o pai da sua amante. Aliás, a situação mais complicada de todas, por ser a única que estava fora dos padrões normais de convivência e que deveria ser mantida em segredo para o seu outro lado. A única que poderia causar contratempos para si ao ser deixada de lado na hora da sua escolha. E isso estava prestes a acontecer...

Osmar, que já vinha pensando nessa hipótese após a saída intempestiva da casa de Leny, acabou sendo incentivado ainda mais para essa decisão, ao sentir o carinho, a cumplicidade e o amor demonstrados por Yolanda naquele momento. Sua mulher, apesar do desconforto da gravidez, confortou o marido como sempre, colocando-o no colo como se fosse uma criança. Suas palavras de incentivo para realizar seus sonhos e subir na carreira, nunca deixaram de acontecer por parte da esposa, mesmo em prejuízo da sua presença por longo tempo. Dizia ela: - Estarei perto da minha mãe e de parentes na sua ausência, eu e as crianças vamos sentir a sua falta, mas não vai ser para sempre. Continue o seu caminho querido, que estou muito orgulhosa de você.

Osmar, com toda essa perseverança, coragem e determinação da mulher, deixou-se embalar em seus braços e aceitou um banho a dois proposto por ela. Um banho cheio de carícias e toques sensuais que provocaram gostosos arrepios pelas mãos e aromas perfumados nas espumas de sabonetes. Osmar sentiu-se aliviado da tensão e Yolanda adorou aqueles instantes de prazer mútuo mesmo sem penetração. Instantes de entrega e carinho que mexeram com a cabeça de Osmar e balançaram o sentimento que ele ainda cativava por Leny. Instantes esses que abriram os seus olhos e indicaram o caminho a seguir na sua vida. E era esse o caminho que ele iria mostrar para a moça no início da próxima semana. Mas...

É o que veremos no próximo capítulo: "JOGANDO A TOALHA"
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POETA OLAVO
Enviado por POETA OLAVO em 19/03/2017
Código do texto: T5945371
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Sobre o autor
POETA OLAVO
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 75 anos
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POETA OLAVO