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Impermanência


"Camélia, cá está você de novo com essa cara de avoada. No que esta pensando?"

"Pensava num rio."

"Lá vem coisa! Fazia tempo que não dizia coisas sem sentido."

"Amélia, eu gosto de comparar as coisas da natureza com os sentimentos humanos, parece que tudo se expressa de forma parecida."

"Acho que vai ter que me explicar. Não estou entendendo bulhufas!"
"Veja bem, se olharmos as águas de um rio passando tranquilamente ou até nos banharmos nessas águas, no instante seguinte não será o mesmo rio, mesmas águas, nem o mesmo turbilhão. Nele enxergo o conceito de impermanência das coisas da vida. A cada momento uma paisagem ou uma nova luz a se refletir nas águas.
Normalmente vivemos pensando que tudo que conquistamos será permanente, e isso nada mais é do que uma enorme ignorância de nossa parte. Pensamos que será assim na profissão que escolhemos, nas amizades, com os filhos, no relacionamento com aquele com quem casamos. De repente acontece o inesperado e tudo vira de ponta cabeça. Perdemos o emprego ou nos encantamos por outra profissão. Descobrimos que nosso melhor amigo talvez não fosse tão fiel ou sincero. Pode ser que inesperadamente percebamos que fomos incapazes de nutrir aquele grande amor de quando nos casamos e de repente ele se tornou frustração ou zona de conforto. Passamos silenciosamente a questionar como conseguiremos conviver por anos que se seguirão com aquela pessoa que não mais nos tira o fôlego embora frequentemente nos tire do sério.
Li uma frase em algum lugar que dizia: "perceber a impermanência do mundo e assim se libertar de apegos àquilo que em sua essência é variante, e, portanto, causa de sofrimento..."; isso me tocou profundamente. Por que insistimos tanto em não aceitar as mudanças? Por que lutamos contra os movimentos naturais da vida que chegam de surpresa? Por que não aceitamos que nada em nós permanece imutável, nem conceitos, nem sentimentos, nem a juventude do corpo, nem sequer a vida que nele habita?
Temos uma tendência nociva a experimentar uma sensação de derrota quando algo que planejamos ou projetamos para o futuro se torna impermanente. Planos e projetos são coisas das criaturas, impermanência, coisas do Criador! Sonhar é parte do impermanente em nós. Por isso nos esmeramos em sonhar. Mas deveríamos nos esmerar em correr atrás dos sonhos...
Quando nos damos conta de que tudo muda incessantemente a cada segundo, principalmente nós mesmos, temos a oportunidade de recriar o mundo ao nosso redor, nos dar novas oportunidades de sermos felizes, de não desperdiçar o tempo com coisas inúteis ou que causam sofrimento. Novas felicidades surgem quando passamos a olhar o novo como coisa positiva. O novo é repleto de desafios, nos convida a superar nossos limites. Acredito que se cultivamos e nutrimos em nós o amor, regá-lo diariamente com zelo e cuidado, tudo poderá ser permanentemente eternizado nas nossas futuras relações de amizade, trabalho ou na próxima vez que nos apaixonarmos.
Ainda não somos evoluídos o bastante para entendermos alguns sinais que se apresentam diante dos nossos olhos e nos dão recados claros. Quer um exemplo? A intuição. Quantos de nós já se arrependeu por não seguirmos a intuição? E não a seguimos por causa do medo em arriscar. Quer outro exemplo? Os sonhos. Esta noite tive um sonho que pintava um lindo quadro. Até agora tenho a imagem do quadro na minha cabeça. Como não sei pintar, bloqueio minhas possibilidades com esse argumento de não saber pintar quando eu deveria ir correndo aprender a desenhar e pintar e realizar o meu sonho. O que dizer dos conselhos dos amigos ou dos pais? Quantas vezes eles nos mostram o caminho certo e teimamos em pegar um desvio, que é mais longo e mais penoso e quase nunca chegamos lá. É certo que nossas histórias são construídas de acordo com nossas vontades, mas acredito que se fossemos menos egoístas e ouvíssemos mais as pessoas queridas, alcançaríamos a paz mais rapidamente. A paz é o que buscamos nesta vida.
No entanto, meu consolo vem da certeza que a humanidade começa a entender que cada responsabilidade pelos nossos atos é responsabilidade exclusiva de quem os praticou. Não adianta culpar ninguém. Com essa certeza no coração seguiremos mais leves sem lutar contra as águas do rio da vida e sua inevitável impermanência!"




Colaboração: Ângela Fakir e Jeanne Martins
Desenho: Ângela Fakir
http://riscoserabiscosangelafakir.blogspot.com.br/
Joao Rios e Ângela Fakir e Jeanne Martins
Enviado por Joao Rios em 17/12/2016
Código do texto: T5856180
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joao Rios
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 55 anos
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Joao Rios