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Natal: Quase Todos os Dias...

Na semana do Natal participei de uma interessante confraternização, organizada por um grupo de mulheres. Lá, cantamos canções, lemos contos e recitamos poesias natalinas. Dos contos, o que mais me chamou a atenção foi um que, tendo sido publicado anos antes num jornal local, criticava a sociedade contemporânea especulando como seria o Natal se, ao invés de há mais de 2000 anos atrás, ocorresse nos dias de hoje, na Alemanha. Muito engraçado o texto, mas também cheio de pontos para se refletir. Assumi então o desafio de pensar em como seria o Natal, hoje, no Brasil. Eis aqui o resultado de minhas elocubrações.

                                         ***

Jovens adolescentes, Maria (13) e José (16) chegam à portaria de uma maternidade e solicitam, pelo amor de Deus, que os ajudem, pois a criança que Maria traz na barriga está para nascer. "Sinto muito, mas não temos mais vagas e, como vocês podem ver, até os corredores estão lotados. Essa época do ano é foda mesmo!" --  responde a jovem atendente.

A época à qual ela se referia tratava-se da véspera de mais um grande feriado, dia 25 de Dezembro, mais um dos muitos que os capitalistas haviam inventado só para levar as pessoas a consumirem mais. O mais estranho era que ninguém sabia ao certo o que se comemorava naquele dia; o importante era comemorar algo, não importava o que fosse. Esses feriados, assim como os inúmeros Carnavais e Campeonatos de Futebol, eram promovidos, sobretudo, para distrair o povo do caos social e da miséria em que viviam. A velha estratégia "Panis et circus" que Roma tanto difundiu. E ainda tem gente que não aceita o fato de que a História sempre se repete...

"Por favor," -- suplicou José -- "este já é o terceiro hospital que visitamos hoje. Eu e minha mulher já rodamos quase toda a cidade de ônibus. Olhe o estado dela, não agüenta mais, tá pra parir. Não temos plano de saúde e as maternidades particulares não nos aceitam. Vocês são nossa última esperança. Por favor, não nos mandem embora." -- Lágrimas brotavam dos olhos do jovem José enquanto proferia estas palavras.

"Puxa, eu sinto muito mesmo..." -- compadeceu-se a jovem -- "Espere um pouco que eu vou falar com a minha chefa.” -- e entrou apressada numa salinha pegada à recepção onde se lia 'Acesso somente a funcionários'. Nem cinco minutos e lá se vem a atendente com uma senhora de meia idade, pele escura, cabelos crespos, um pouco grisalhos e presos atrás da cabeça. Devia ser a chefe. Na verdade era um dos anjos que Deus colocara na Terra, disfarçados de gente, para ajudar as pessoas.

Recebeu Maria e José com um sorriso sincero nos lábios e disse: "De certa forma, já esperava por vocês... Hoje vai ser impossível arrumar uma vaga aqui. O diretor deu ordens expressas: para evitar problemas com a fiscalização, não podemos aceitar mais ninguém. Já estamos muito além de nossa capacidade.

Enquanto não acontece nenhuma tragédia ninguém vê o caos em que operamos aqui, mas basta um descuido, uma falta de sorte e aí todos caem matando em cima da gente, e o primeiro a perder o emprego será certamente o diretor... Entendam, ele só quer tirar o dele da reta... afinal de contas, quem liga mesmo para essa balela de Direitos Humanos neste mundo? Isto não existe na prática, né mesmo? Direitos da Criança e do Adolescente?! Fala sério, né meus filhos?!" -- de vez em quando encolhia o pescoço entre os ombros enquanto falava. "Mas não se preocupem, não vou deixar o Messias nascer no meio da rua. Aqui pertinho tem um armazém abandonado. Vamos todos para lá e eu ajudo Maria a parir; sou parteira também, não tenham medo."

Essas palavras soaram como um copo d'água fresca na boca sedenta de esperança do jovem casal. Porém, havia mais um problema: o tal armazém ficava há alguns quilômetros dalí e Maria não agüentaria a caminhada. "Tem mais problema não!" --  exclamou a boa senhora -- "Eu tenho um fusquinha, meu 'jegue véi de guerra'. Tá com pouca gasosa mas deve agüentar mais um quilômetrinhos... Venham comigo."

E lá se foram os três. Nem deu tempo do 'jegue velho de guerra' adentrar o pátio do antigo armazém e o Menino-Deus já foi dando as caras ao mundo. Era meia-noite, do dia 24 para o dia 25 de Dezembro do ano de 2007. Tinha a pele escura, como os pais. Tão bonitinho... E embora tenha nascido em condições tão precárias, parecia ser saudável. A parteira ajeitou Maria no banco traseiro do fusquinha e colocou a criança em seus braços, que instintivamente buscou o seio da mãe. Logo estavam todos ali, maravilhados com o milagre da vida, esquecidos do caos, da miséria e do absurdo ao redor. Neste instante, uma estrela riscou o céu e, como um milagre, ficou parada bem acima do armazém, alí, como se fosse um Sol, iluminando e aquecendo aquele cenário inusitado.

No armazém estavam também outros sem-teto, que lá se abrigavam para passar a noite. Ao notar o alvoroço dentro do fusquinha, correram para ver o que se passava e, também maravilhados pelo fenômeno estelar, ou por medo talvez,  ajoelharam-se e começaram a orar ao Deus Todo-Poderoso.

"É... mais um que nasce pra passar fome ou virar bandido, pobrezinho..." -- soltou um dos sem-teto.
"Êta boca de mau agouro! -- condenou outro -- "Enquanto existir Deus no céu a gente tem mais é que ter esperança. Um dia a casa cai e a coisa muda! Pode me chamar de besta quem quiser, mas continuo acreditando."

"Queria poder levar vocês para minha casa, dar uma cama de verdade..." -- disse a boa senhora -- "Mas a gasosa que tem não dá pra chegar até lá. Dá, no máximo, pra chegar até o próximo posto... E eu não tenho hum Puto(*) no bolso hoje!"

"A senhora tem cartão?" -- perguntou humildemente o já tão agradecido José.

"Tenho, filho, mas não tô podendo usar agora não. É que meu nome tá já faz tempo no SPC.  Sabe como é, né? Juros sobre juros... A gente trabalha tanto e nunca consegue pagar as dívidas.  E olhe que eu não tenho nada de luxo lá em casa! Bom..." -- suspirou -- "vamos ver o que se pode fazer, deixa eu pensar... Deus há de ajudar a gente."

Nem bem fechou a boca e lá apareceram três jovens, aparentando serem de classe média, cada um numa moto. Os três ficaram boquiabertos com a cena que encontraram.

"Nossa, as previsões estavam certas!” -- exclamou o primeiro -- "Cadê o Rei? Queremos adorá-lo!" -- continuou o segundo -- "Somos estudantes de Astronomia, mas de vez em quando defendemos um troco desenhando mapas astrológicos. Sabíamos que uma estrela ia aparecer e que nesse lugar estaria o Messias, o Rei dos Reis. Moramos bem longe daqui, mas nossos corações nos guiaram até este lugar, por causa da estrela e das profecias" -- explicou o terceiro.

"Minha casa é pequena, mas onde come um, come dois. Agora precisamos de dinheiro para comprar combustível e poder chegar até lá." -- adicionou a parteira depois de resumir a história para os três jovens.

"Vamos fazer uma vaquinha para a gasosa. Depois podemos fazer uma campanha e tentar arrecadar um pouco de dinheiro, alimentos e roupas para que essa família tenha algo por onde começar. Nosso povo brasileiro é pobre, mas em termos de solidariedade dá de dez em qualquer das G-Ricas-Nações do mundo."

E assim fizeram. A estrela, essa continuou lá por um bom tempo ainda, sinalizando aquele episódio, representando um sorriso que se abria na face de Deus. O seu plano corria bem até alí. Um dia, a humanidade aprenderia, esperava. Ele, de sua parte, continuaria nos amando, independente de nosso esquecimento e de tudo o mais.

                                        * * *

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:16)

                                        * * *

Espero que você tenha gostado do meu conto. Se não, foi uma tentativa... Quem sabe essa estória não é mesmo verdade? Não dizem sempre por aí que "Deus é brasileiro"?

De minha parte, desejo-lhe um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de Saúde, Esperança, Fé e Realizações!

                                        * * *

(*) Não sei quem inventou essa moeda -- o Puto -- só sei que meus colegas da uni, lá pelos idos de mil novecentos e carne de porco, numa cidadezinha perdida muito depois onde o vento faz a curva, de tarde, costumavam usar muito esse termo para designar dinheiro.

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Revisado em 18.09.2010

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 20/12/2008
Reeditado em 18/09/2010
Código do texto: T1345207
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Helena Frenzel
Alemanha
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