O céu fez silêncio de meia hora. Em seguida, ouviu-se um coro de anjos que dizia:  ‘Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do universo. Os céus e a terra proclama vossa glória. Hosana nas alturas’.
Quando ouviu o padre Davi explicar que  Deus abençoou Noé e seus filhos, Adail pensou as feridas da alma, marcadas pela unha dos tatus que trocara na mercearia por uma dose de cachaça. Repetia  em sua mente,  e se sentia redimindo. ‘Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento’.— Não pequei — disse em voz alta — Não cometi pecado por caçar tatu. E não permitiu mais que sua consciência o acusasse de beber cachaça e não pagar a conta. Estivera no purgatório, e só saiu de lá, depois de pagar o último centavo. No entanto, não compreendeu, por que na Lei dos homens é proibido matar animal selvagem, e é permitido sacrificar uma criança no ventre da mãe. Enquanto conversavam, afastaram-se dali, caminhando em direção a um campo aberto.
—  Então, Noé colocou animais na arca para alimentar-se deles?
— Tudo que se move e possui a vida  vos servirá de alimento.
— Ora, Adail! Tudo que se move e possui a vida  vos servirá de alimento, não significa que os animais foram colocados na arca para servirem de alimento para Noé e seus filhos. Examinemos cada coisa em seu contexto. Os bichos  entraram na arca para não serem exterminados pelo dilúvio.
—  Em suas homilias o senhor era mestre em colocar uma pitada de humor.
— Sim! As pessoas esquecem facilmente a liturgia que acabaram de ouvir. Como colocarão a Palavra em prática, se já não se lembram dela? Uma pitada de humor facilita o entendimento e ajuda a memorar.  Quando  Tiago e João pediram para ficar um a direita e outro a esquerda, pediam para estar no
Jesus foi incisivo: “Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber? Sim, disseram-lhe.De fato, bebereis meu cálice. Quanto, porém, ao sentar-vos à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim vo-lo conceder. Esses lugares cabem àqueles aos quais meu Pai os reservou.”  — De fato, não poderia ser dois  apóstolos crucificados um à direita e outro à esquerda de Jesus. Aqueles lugares estavam reservados para dois ladrões — acrescentou Davi.
Houve um estrondo como o ribombar de trovões, em seguida, um homem de terno branco, estacionou o fusca preto na faixa que separa o céu da terra. Puxou a cortina e recebeu os primeiros raios de luz. Rasgou um bilhete de loteria e elevou as mãos em prece: ‘Senhor, tu me deste o tempo necessário para plantar e para colher, adiaste a ceifa para que minha alma atingisse a maturidade, segundo Cristo; e prolongaste minha vigília para que eu Te encontrasse antes do entardecer de minha existência. Eis-me aqui, frágil e dependente da Tua misericórdia.
Aliviado, Androceu viu Ramayana apagando o fogo que saia de um tubo com a ponta alargada, outrora, usado por viciados para fumar pedra. Pedra que consumiam. E  somem vagando no mundo feito zumbis. Ela apagava os cachimbos de craque, com a água que corria do lado direito do templo.
Escondido na penumbra de suas más inclinações, o  Anjo Negro se divertia e bradava com voz cavernosa: ‘Não tem jeito! Todos serão condenados...’ Mas Ramayana não parava de oferecer água àqueles que tinham sede. E suas almas, antes manchadas, iam tomando brancura. Com efeito, o anjo de voz gargalhada, desapareceu  numa nuvem de fumaça negra.
— Bem — vindo, Androceu — disse Ramayana.— Uma   multidão de índios, também recebeu boas vindas.
O céu fez festa.
João Velho e outros vaqueiros cortavam a betônica no peito, correndo boi.  ‘Pega e leva ao estábulo para adorar o Menino Santo’ — disse o patrão.
— O boi é  arredio demais, Generoso!
— Então leva  boto cor-de-rosa. Leva também Mimosa com a cria.
A onça pintada, no quadro de parede, tinha a boca fechada; e uma gazela pastava a seu lado. O menino que antes  chorava no curral, agora dava risadas, enfiava a mão na boca da serpente, e retirava dali um pintinho chuviscado. Vivo. A galinha cacarejava e o gavião comia milho. 
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Adalberto Lima, trecho de Estrela que o vento soprou.
Imagem Internet.