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CHAPEUZINHO VERMELHO........-PARTE IV


Bom, comecei este seriado com uma aula comum e casualmente localizei depois alguns recortes grandes (diminuí onde foi possível) que nem mesmo eu recordava possuir.  Não uma intenção de tese absoluta e sim um pot-pourri  de textos sob o mesmo tema.
1---Versão torcida de FRANCISCO:
“Chapeuzinho amarelo”, longo poema de CHICO BUARQUE DE HOLANDA, 1970:
 “Era o Chapeuzinho Amarelo. / Amarelada de medo..................................”
Conscientizou, medo acabou!
2---Ih, versão antiga de JOÃO GILBERTO, 1959:
“Era uma vez um lobo bobo / que resolveu jantar alguém........................................”
Não deu certo - Chapeuzinho agora o arrasta pela coleira!
3---  O som da memória visual:  “Tá certo ou não tá”?  Sinhozinho Malta era um tanto lobo, mas recordo que muitas vezes a Viúva Porcina, de turbante multicolorido (vermelho alguma vez?), o prendia uivante numa coleira.  Em oposição à telona,  filme CASABLANCA, permaneceram juntos no ultimo capítulo na telinha, felizes para sempre, o poderoso Lobo e a “menina” grande nada ingênua.
4---Agora, a sério...
Resumo de uma análise psicanalítica:
“Imagem de uma menina ‘inocente’ (até que ponto?) e encantadora engolida por um lobo...  versões variáveis, mais conhecida a dos IRMÃOS GRIMM, em que CHAPEUZINHO e a avó tornam a viver e o lobo recebe um merecido castigo.  /  A história literária começa com PERRAULT, em conclusão desagradável com a vitória do lobo.  ‘Melhor’ amedrontar as crianças para que se comportem bem? / Neste autor, a avó fizera a capinha com capuz  para a neta.  Doente, neta foi levar-lhe doces a mando da mãe.  Passou pela floresta, mas o lobo ainda não a devorou pela presença de lenhadores:  perguntou aonde ela ia e em seguida o endereço da avó para visitá-la - entrou na casa e a devorou. / Em PERRAULT, livro destinado à diversão da corte de Versailles, não há quem advirta para não perder tempo no caminho ou desviar-se da estrada certa;   lobo apenas deita na cama sem se disfarçar de avó - nenhum sentido em avó ser destruída.  CAPINHA VERMELHA (outro nome...) chega, lobo pede que deite junto;  ela se despe, entra na cama e se espanta com a nudez da... “avó”.  Aí, as perguntas sobre braços enormes, pernas grandes;  e o que não ocorre em GRIMM:  olhos-orelhas-dentes grandes... “para te comer melhor”.  Atira-se sobre a menina e a devora. / Uma lição de moral específica em cada conto de PERRAULT.  O relato original traz ainda pequeno poema moralista:  meninas bonitinhas não devem dar ouvidos a todo tipo de gente...  Os lobos gentis são os mais perigosos. / Muito antes de PERRAULT, contos dele publicados em 1697, o mito grego de Cronos que engole os filhos e estória latina de 1203, menina de manta vermelha vivendo na companhia de lobos.  Recriar criativamente não é plagiar. / No conto estudado, o lobo é uma metáfora à imaginação do ouvinte;  máxima explicitação quando ela se despe, entra na cama e o lobo diz que braços fortes são para abraçá-la melhor - ela não tenta fugir ou escapar da sedução óbvia e direta:  ou é tola ou deseja ser seduzida. / Todos os contos de fadas têm significados em muitos níveis, somente descobertos pela criança quando esta cresce, amadurecida em compreensão espontânea e intuitiva. / A ameaça de ser devorada é o tema central - em idade escolar, solução da menina quando a ligação edipiana persiste no inconsciente, expondo-se perigosamente a possíveis seduções.  Em casa, criança pré-pubere sem conflitos protegida pelos pais, capaz de lidar com tudo;  na casa da avó, também segura, porém agora ela incapaz ante o lobo.  CV ultrapassara a fixação oral (em “João e Maria”, protagonistas só pensam em comer... canibalismo:  até assam a bruxa), não tem mais desejos orais destrutivos. / Natural lobo devorar para alimentar-se, normal o homem matar um lobo - inusitado o método usado nesta estória. / Lar de fartura compartilhada com a avó - o mundo fora do lar não seria uma selva ameaçadora.  Deixou o lar voluntariamente, não temendo o mundo externo, beleza no perigo, comportamento baseado no princípio do prazer:  dilema entre o princípio da realidade (fazer o que devemos) e o princípio do prazer (fazer o que gostamos).  Inclinações dela em desviar-se do caminho conhecido e descobrir segredos dos adultos - deseja descobrir as coisas.  Algo errado com a avó “muito estranha” - orelhas grandes (audição), olhos grandes (visão), mãos enormes (tato) e boca horrível (paladar), apenas quatro sentidos que a criança púbere usa para compreender o mundo. / Nem mãe nem avó podem ameaçar ou proteger - em contraste, o macho é de importância vital, dividido em duas figuras opostas:  cedendo a ele, sedutor e destruidor da avó e da menina X o caçador, figura paterna responsável-forte-salvadora.  / Natureza contraditória do homem:  tendências egoístas-associais-violentas-potencialmente destrutivas /lobo/ X propensões altruístas-sociais-reflexivas-protetoras /caçador/.  O amor universal à CV é porque sofre a tentação e escapa da armadilha - não se pode ser ingênuo a vida toda. / O lobo sedutor representa todas as tendências associadas e animalescas do ser humano e CV busca o prazer edípico;  cedendo ao lobo, dando o endereço, inconscientemente dá-lhe  oportunidade que devore a avó.  / CV não livre de culpa - a jovem necessita de figura materna forte para sua proteção, modelo a ser seguido.  “Não havia nada que ela não desse à menina.”  Criança mimada pela avó incorre em perigo na vida real.  Capa vermelha dada pela avó, atraente... cor das emoções violentas, incluindo as sexuais.  Pode ser o símbolo de uma transferência prematura da atração sexual.  O perigo é a sexualidade em botão, ainda emocionalmente imatura - problema ambivalente empurrado para pessoa madura, mais velha, pode ser mãe  ou avó:  ela deseja, porém ainda não sabe solucionar. / Os GRIMM, numa variante, novos doces para a avó, outra vez o lobo tenta atraí-la, menina corre para a avó, conta o sucedido, juntas trancam a porta, lobo cai do telhado numa tina cheia de água, cheiro de molho cozido (olfato), e morre afogado.  Menina volta feliz para casa:  percebeu o perigo:  o crescimento da criança é firme aliança com o adulto - pai ou mãe - do mesmo sexo para aprender e vir a ser um adulto bem sucedido. / O lobo é sedutor o tempo todo, mas com medo que outro masculino (lenhador) possa desmascará-lo, daí não devorá-la de imediato.  /  Em GRIMM, entende-se o atraso em devorar a carne mais tenra e gostosa, mas tendo que habilmente pegar ambas - acabar primeiro com a avó, que poderia ser repressora, a seguir estrada aberta para realizar o desejo:  desejo inconsciente da filha ser seduzida pelo pai, anseio edípico primário na puberdade. (Ainda há culturas ditas ‘primitivas’ em que, por morte da mãe, a filha mais velha a substitui integralmente.) / Na cama, com o lobo, seriam ainda precedentes ao “devoramento”, sem imediatismo - a maioria das crianças, embora fascinadas, encara o ato sexual como um ato de violência que um parceiro atua contra o outro. / O ilustrador GUSTAVO DORÉ pintou Chapeuzinho Vermelho, sentimentos ambivalentes, com aspecto de fascinada-atraída e repelida, e o lobo, retratado plácido, juntos na cama. / PERRAULT - ênfase na sedução sexual;  GRIMM - o oposto, nenhuma menção à sexualidade, porém perceptível.  A criança luta entre uma Ideia inocente, colher flores no caminho, e desobedecer, distrair-se no caminho, onde está a maldade, o perigo.  CV cede às tentações do id e com isso trai mãe e avó;  o desejo do lenhador (de onde ele vem?), herói atraente que salva os bons e castiga os maus,  é matar de imediato o lobo, mas seu ego ou razão o controla, abre-lhe o estômago com uma tesoura, embora ação violenta construtiva, e salva neta e avó.  Não morreram, mas renasceram para uma vida melhor (=Jonas engolido pela baleia) - contos de fadas são simbolismos de experiências. / Essa espécie de cesariana, associação de uma relação sexual, assimila a idéia de gravidez e nascimento.  Então, mãe ‘barriguda’ teria engolido alguma coisa, como o lobo fez. / O lobo representa as tendências não aceitáveis dentro do caçador, a propensão animal do ser humano, o agir violentamente para atingir um objetivo. / Pai não citado na estória:  menina espera que ele a salve das dificuldades, em especial das emocionais, como o desejo de seduzi-lo;  portanto, pai presente, em duas formas opostas, embora velado na estória - lobo sedutor e lenhador que resgata e protege. /  As duas, engolidas pelo lobo, ficaram fora do mundo, esperando quem as salvasse - o pai? / A menina teve medo do escuro dentro do corpo do lobo, mundo sem iluminação, consciência de que errou e agora amadureceu.  Coragem de voltar à floresta é estar preparada para a sexualidade - o desafio  à mãe e ao superego em desviar-se do caminho reto foi temporariamente necessário para melhor organização da personalidade:  aprendeu que é melhor não se rebelar contra a mãe nem tentar seduzir nem se deixar seduzir;  apesar dos desejos ambivalentes, seguir cm mais profundidades adulta os valores de pai-mãe de seu próprio superego. / A estoria fala de paixões humanas, voracidade oral, agressão, desejos sexuais puberais e canibalismo primário... mundo nada cor-de-rosa  nos contos de fada que geralmente se repetem.  Devido à experiência, CV será capaz de decidir por conta própria o seu futuro.  Perdeu a inocência infantil e renasceu.”
 
FONTE:
“A psicanálise dos contos de fadas”, de BRUNO BETTELHEIM - Rio, Editora Paz e Terra, 1980.


                                         F  I  M
Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 01/08/2017
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 50 anos
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