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A ocorrência simultânea de TU e VOCÊ na mesma sentença frásica: um aspecto comum entre as variedades africanas e americana do português (por Caetano Cambambe)

É muito comum, nalgumas variedades do português, ocorrerem sentenças frásicas  onde se pode registar o tratamento simultâneo de "tu" e "você" dirigido a uma só pessoa. Essa ocorrência, por mais incrível que pareça, regista-se também na fala de muitos falantes cultos, descartando assim a hipótese de que simplesmente possa ocorrer em falantes menos instruídos ou iletrados, como se  pode deduzir muitas vezes.
Segundo Pinto (2006), o nível escolar baixo nem sempre é sinónimo de que a pessoa possa ter um português não dos melhores, pois há muito boa gente de nível baixo, mas que tem um português correcto. Para nós, o nível académico alto nem sempre significa que a pessoa que o ostenta seja um bom usuário do português, podendo assim cometer mais em relação àquele de um nível baixo, e assim vice-versa.

(i)  "Você comeste o quê?"

Note-se, naquele exemplo, de acordo com Bagno, 'a mistura de formas de tratamento', algo que para alguns conservadores da língua não tem fundamentos lógico, racional e gramatical para a sua justificação.
Essa mistura de formas de tratamento, para Marcos Bagno (1999, p. 30), sociolinguista, pesquisador e Professor brasileiro, em termos científicos e não preconceituoso, deve-se ver como uma forma de reorganização no sistema pronominal da língua, e nada mais além disso. Essa atitude de Bagno, porém, não é partilhada por uma boa parte de estudiosos da língua, principalmente por aqueles que a estudam do ponto de vista normativo, preocupados com o "bom uso da língua", não admitindo assim que ocorrências como essas ocorram, considerando, por fim, como um desvio à norma.
Sabe-se que, a rigor, o pronome de tratamento VOCÊ, actualmente visto como parte integrante da segunda pessoa -  isto ao lado de TU - , deve, sempre que for usado, concordar com o verbo e pronomes na terceira pessoa, evitando-se assim o seu emprego ao lado de flexões verbais e pronomes na segunda pessoa, embora VOCÊ seja mesmo um pronome da segunda pessoa.
Vamos, por ora, tentar perceber de onde surgiu o pronome VOCÊ. De acordo com a Gramática Histórica (e com o que aprendemos na cadeira de Latim II), durante a transição do latim para o português, algumas palavras sofreram determinadas evoluções e transformações fonéticas. De recordar que as palavras, embora sofressem transformações e evoluções, conservaram, e até hoje ainda conservam, as suas sílabas tónicas que eram assim registadas no latim, aquelas emitadas prosodicamente com maior intensidade de voz que as demais.
Do latim "vostra mercede", ao passar para o português, sofreu determinados "arranjos", ficando só as sílabas tónicas. Para isso, a língua portuguesa serviu-se de alguns fenómenos linguísticos, no caso da supressão, a fim de reconstruir a palavra a seu jeito.
Como já referimos acima, em "vostra", a sílaba tónica é "vo[s]". Como "tra" não é tónica, a língua portuguesa fez questão de a excluir, ficando unicamente "vo"
Já em "mercede ", a penúltima sílaba é a tónica, no caso de "ce". Como ocorreu acima, a última e a antepenúltima sílabas foram eliminadas, restando simplesmente "ce".
Ora, após essa tranformação, houve a junção das sílabas restantes, resultando no pronome "voce", estando já sujeito, na escrita, à regra de acentuação gráfica em português, ficando "você", pronome hoje usado como forma de tratamento formal (há já estudiosos que refutam isso) com referência à segunda pessoa. Entretanto, antes de "voce" chegar a "você", sabe-se que foi primariamente "vossa", isso num português mais antigo.
Em oposição às gramáticas normativas, quer a europeia, quer a brasileira, há uma outra realidade na qual se verifica um uso que se distancia da Norma Padrão, registando-se uma semelhança entre as variedades Americana e Africanas do Português, casos específicos de Angola, Moçambique e Brasil, quanto à adequação de VOCÊ à flexão verbal e ao pronome, em que VOCÊ tem sido usado na segunda pessoa, com flexão verbal e pronomes da segunda pessoa,  o que não implica dizer que os Portugueses estão fora disso.
Atinente a isso, o sociolinguista Marcos Bagno (1999, p. 30),  com o objectivo  de evitar que juízos menos bom se façam em relação àqueles falantes que não têm o domínio da Norma Padrão no que à adequação de VOCÊ diz respeito e olhando cientificamente para a questão, convida-nos a ver esse fenómeno como ‘’uma forma de reorganização do sistema pronominal da nossa língua’’, como já aludimos no princípio, e não simplesmente como "uma mistura de formas de tratamento", como queiram os gramáticos prescritivistas.
Segundo ainda esse teórico, "quando um bom número de falantes utiliza algo que se diferencia da norma, o problema não está nos falantes, está na regra antiga". Com isso, Bagno afirma que, ocorrendo esse uso na fala de um número considerável de falantes, seria motivo mais que suficiente para se rever a regra antiga, aquela que nos recomenda utilizar VOCÊ com verbo e pronomes na terceira pessoa, e não ver isso como "erro".
Propusemo-nos, abaixo, apresentar como tem sido esse emprego ao nível de Angola, Brasil e Moçambique, mas isso do ponto de vista descritivo - e não normativo, não descartando a possibilidade de que possa haver nessas parcelas territoriais um uso diferente dos exemplos abaixo, mas semelhantes àquilo que a Norma Padrão recomenda.
Assim, esse uso é feito da seguinte forma:

1) "... [tu] vulgarizaste o que eu mais prezei. E as SUAS amigas... " (Anselmo Ralph, in Está difícil)

2) "VOCÊ sabe me tocar lá. TEU beijo me põe a sabular" (Jay Oliver, in Meu amor )

3) ’’Perdoa se estou TE ligando, amor, nesse momento... me fazia falta escutar de novo SUA respiração" (KLB, in A dor desse amor)

4) "VOCÊ me desmonta... VOCÊ me descontrola com o TEU toque" (Filomena Maricoa, in Nhanhado)

5) "Eu nasci para TE amar. TU não imaginas a saudade quando VOCÊ não está " (Mona Nicastro, in Deixa te amar)

6 "É desta forma que VOCÊ agradece TEUS PAIS?" (Yanick, in A dor de um pai)
CaetanoCambambe
Enviado por CaetanoCambambe em 30/04/2017
Código do texto: T5985680
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Sobre o autor
CaetanoCambambe
Luanda - Luanda - Angola, 21 anos
47 textos (852 leituras)
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CaetanoCambambe