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Trecho 2: O HOMEM SEM DESEJOS

As poucas cores que me restariam, principalmente naquela manhã de domingo, estariam naquela mulher que vinha em minha direção. Estariam, pois nada em minha vida estava como estivera há algumas semanas. Eu abandonava o mórbido “colorido” de Lars Von Trier, porém adotava o “acinzentado” ferino de Glauber Rocha, ainda que de uma maneira inorgânica.
Ela foi se aproximando. Supus que, embora tivesse me olhado, ela ainda não tivesse me visto; do contrário, já teria armado um costumeiro sorriso de satisfação, mas, ao chegar onde eu a esperava – abrindo sorriso e braços –, olhou-me de soslaio e desviou os olhos como se eu fosse um desconhecido. E não éramos desconhecidos.
— Barbra? — chamei alto.
Indiferente, ela seguiu seu caminho. [...]
E era isso mesmo: à minha volta, concreto e humano se somavam, a única diferença era que as pessoas se movimentavam com algum ritmo.
— Barbra? — gritei.
Ela se manteve sem perder o passo. Primeiro, pensei que fosse brincadeira, depois pensei tê-la confundido, eu não era, nunca fora bom fisionomista. A mulher, porém, era idêntica a ela.
Sei que foi com aquele desencontro que levantei a hipótese quanto àquilo não ser uma coisa que vinha ocorrendo somente comigo. Se eu não estivesse apenas determinado a arranjar culpados, não era uma coisa que diria respeito somente a mim, mas também ao outro.
 
Caminhei para o bar embaixo de casa. O Sil, velho atendente e recente amigo, nem me olhou na cara quando o cumprimentei. Amigo? Essa palavra não estava carregada de sentimentos, como confiança, cumplicidade e intimidade? Não. Era apenas um nome, seu conteúdo não mais me trazia o que pudesse me afetar. Apenas levantou os olhos e baixou-os de novo para a louça que lavava.
— E o Palmeiras? — insisti, mais curioso do que tentando ser agradável.
Sil franziu o cenho. Ficou me olhando com ar de desentendi-do.
— Sou Botafogo, mano.
— Hun? — franzi a testa. — Aconteceu alguma coisa, Sil?
Ele fechou a torneira, pôs o prato de lado e me olhou firme-mente.
— Cara, você tá confundindo os torcedores — riu um pouco. — Não sou Palmeirense, muito menos Sil.
— Não? — mas eu olhava para o Sil. — Confundi mesmo.
O que acontecia? Barbra não era Barbra, Sil não era Sil. Será que eu estava tendo um surto? Será que aquelas pessoas – que eu procurava – realmente existiram? Por um momento, passou-me pela cabeça que eu não perdera a memória coisa nenhuma, estava era criando uma nova realidade para mim, só para mim. Respirei. Não, mas havia roupas da Barbra lá em casa. O número do seu celular na agenda do meu celular. Fotos dela comigo no Facebook. Olhei em volta para conferir se era o mesmo bar, o bar onde Sil trabalhava, se não havia me enganado. Era!
— Vai querer o quê?
— Não, nada, valeu.
Fui caminhando para casa e ligando para Barbra.
— Oi? Barbra?
— Não, é a Evelyn — voz de sono.
— Evelyn?  Foi engano, desculpa.
Não era desculpa, era me desculpe, desculpe-me. Por que ênclise, mesóclise e próclise me vieram à cabeça? Prestei atenção nas pessoas à minha volta. Queria ver se elas não se repetiam, duplicavam-se, triplicavam-se. Não, isso não, mas eu não conseguia guardar bem seus rostos. Conseguia ver todos eles, um por um, mas cada qual era quase um borrão. Pensei tolamente que talvez aquela dificuldade ocorresse com muita gente, não apenas comigo.
 Disquei de novo. Isso é realmente necessário, Yves?
— Oi? — a voz era bem semelhante à de Barbra. — Barbra? Ah, Paulo? Desculpe, foi engano.
Tentei me conectar ao Facebook pelo celular, mas estava sem créditos. As fotos, queria rever as fotos. Será que Kurt ainda estaria lá em casa? Ele existia?
Assim que fechei a porta atrás de mim, um rapaz de seus vinte e cinco anos, que estava no alto da escada, veio descendo meio sem jeito, a cabeça baixa, como que se escondendo. Ainda que desconfiado de alguma coisa, fui subindo para minha quitinete, a número três. Não era a primeira vez que entrava um estranho ali. Seu Ciço, o proprietário do imóvel, vivia pedindo para não deixar aquela porta sem trancar, mas eu mesmo já havia me esquecido disso mais de uma vez. Ele passou por mim. Não estava mal vestido, estava perfumado. Tudo indicava que o rapaz esperava por alguém das outras quitinetes. A namorada. Mas não consegui deixar de suspeitar dele. Queria confirmar onde eu morava e quem era eu? Também poderia ser que eu estivesse avançando para uma esquizofrenia paranoide. Entrei, somente então a porta lá embaixo foi batida. Ela estava agarrando, era preciso fechá-la com força. Quem não estava acostumado acabava por batê-la estrondosamente.
Fiz um cafuné na cabeça de Kurt e me sentei, liguei o computador. Lento. Levantei. Procurei por roupas de Barbra na cômoda. Lá estavam dois shorts e duas regatas. Kurt, meu gato rajado em tons de amarelo, estava me olhando, veio ter comigo. Menos mal, pois ele não viera me ver quando cheguei, conforme sempre fazia quando eu chegava, espantando meu medo de que tivesse sumido. Mas, quando entrei, eu não tinha feito uma carícia em sua cabeça? Tinha, tinha.
Com uma pazinha de metal, joguei fora as fezes que estavam em sua bandeja de plástico e revolvi a areia. Descartei o que lhe sobrara de ração, uma vez que estava com formigas. Pus uma nova, tal como tinha feito com sua água. Ele comeu e tomou água. Aliás, bebeu água e comeu. E, quando me sentei diante do computador novamente, grato, ele veio pular em meu colo. Abri a página do Facebook. Cliquei em Yves – Perfil. Lá estavam as minhas fotos com a Barbra, com algumas de suas amigas e com alguns de seus amigos. Havia outras pessoas em outras fotos e ocasiões comigo, mas não me lembrava da maioria delas. O que importava era que Barbra existia. Mas, então, eu me enganara. Que mico, Yves. Mas e o Sil? Merda. E o Sil? Voltaria lá mais tarde.
Apesar de dormir umas duas ou três horas por noite, eu me sentia muito bem, renovado, mas tinha a impressão de que já dormira mais, embora não me sentisse tão bem quanto agora. Portanto, aquelas confusões não poderiam estar diretamente relacionadas ao meu sono. E também já acontecera de eu confundir lugares, isso em minha adolescência, em... Em? Apenas um dos meus amigos de longa data fulgurava em minhas lembranças remanescentes. Esse mesmo amigo da vida real, há alguns meses, postara uma charge naquela rede social com os dizeres: Trem Bão é pão de queijo, sô. Era uma de suas minguadas postagens, mas era um indício de que ele residia em Minas. Por isso eu era capaz de apostar que minha adolescência fora lá. Agora, se eu mal me lembrava do nome desse amigo, ainda tinha que entrar em seu perfil para dar conta do seu nome, o que diria da cidade. Anotei seu nome. Márcio. Mas ele tinha apelido, não tinha? Fui aos escassos comentários de suas raras postagens. Era Cinho.
E, para complicar, o meu perfil nas redes sociais não trazia indicação de minha cidade natal. Por fim, o perfil desse amigo estava ainda mais incompleto que o meu. Poderia ser um daqueles lugares nas fotos.
Pelo que eu via em minhas fotos com os “estranhos”, parecia se tratar de alguma cidade do interior. Apostava, pois também me lembrava de minha mãe, de meu pai, mas faltava esse cenário, esse lugar. Essa bendita cidade! De modo que podia ser que eu perdesse essa aposta para mim mesmo. O celular interferiu no computador. Era Barbra me ligando.
— Oi, metida.
— Por que metida?
— Ué, passou por mim e fingiu que não me viu.
— Onde?
— Na Rebouças.
— Não passei perto de lá, Yves.
— Uh? Certeza?
— Isso é paixão por mim — disse ela um tanto zombeteira.
— É, não duvido.
Rimos. Em seguida, ela perguntou:
— Que cê vai fazer à tarde?
Conforme vinha fazendo, eu não queria sair, mas precisava passar a limpo aqueles brancos. Passar a limpo aqueles brancos era ótimo! Gostava de sair, mesmo após a perda da memória, mas agora estava me enfurnando em casa. Isso não era bom, ainda mais naquele momento. Eu precisava procurar pistas que me levassem ao encontro do meu passado. Argumentar, com quem quer que fosse, ajudaria.
— Nada — admiti.
— Vamos tomar uma lá no Bida? Lá não rola um som, um rock’n’roll que nem no Fergusom, mas dá pra tomar uma, cara.
— Vamos.
— Às três?
— Beleza, Barbra.
— Quer que eu passe aí?
— Não precisa. Até. Beijo.
E não consegui me encontrar com Barbra, disse que o tal de Thompson estava me esperando, mas quem me esperava era uma dúvida da dúvida sobre o que acontecia comigo, ou com as pessoas. Com ambos. Eu duvidava do que duvidava.
André Claro
Enviado por André Claro em 02/10/2017
Reeditado em 03/10/2017
Código do texto: T6131188
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
André Claro
Três Corações - Minas Gerais - Brasil, 40 anos
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André Claro